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26 de setembro de 2007
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Especial
A nova cara da Bolsa

Eles são jovens, ativos e ávidos pela independência
financeira. Os recém-chegados querem lucrar com as
oportunidades do mercado acionário brasileiro – e estão
dispostos a correr uma razoável dose de risco para isso


Cláudio Gradilone

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Nesta reportagem
Quadro: O capital está mais popular
Quadro: Imbatível a longo prazo
Exclusivo on-line
Perguntas e respostas: A crise nas bolsas

Investidores em todo o mundo tremeram recentemente com o efeito potencial de uma explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) amargou uma baixa de quase 9% no dia 16 de agosto. Um mês depois, veio o alívio. Na semana passada, o banco central americano surpreendeu os investidores e baixou os juros nos Estados Unidos em meio ponto porcentual, o dobro do esperado. As ações dispararam – mais de 4% num único dia em São Paulo –, recuperando quase toda a perda das semanas anteriores. Movimentos tão abruptos assustam o mais tarimbado dos investidores. Nada mais natural, portanto, que preocupem a nutricionista carioca Cláudia Lima, de 23 anos. Cláudia é uma das mais de 130.000 usuárias de um sistema que permite aos brasileiros comprar e vender ações pela internet – o home broker (operador doméstico, numa tradução do inglês). Com a turbulência recente, ela viu o dinheiro investido encolher de uma hora para a outra. "Fiquei brava, até deixei de consultar o sistema", diz ela. Mesmo assim, Cláudia não vendeu suas ações. Ela só está esperando o mercado se acalmar para voltar a operar.

Cláudia continua na bolsa por uma razão simples. Ela aceita o risco como fato inerente às sociedades desenvolvidas e livres. Esse sentimento faz dela uma representante ideal da nova geração de investidores brasileiros – um grupo formado por 280 000 pessoas que compram ações pela internet ou participam de clubes de investimento. Essa mentalidade é nova no cenário econômico brasileiro. Até 2002, investir dinheiro no país era fácil, conta o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. O Brasil vivia uma situação distorcida, em que os juros muito elevados permitiam aos investidores ganhar dinheiro sem correr riscos. Bastava comprar títulos públicos e viver de renda. Hoje, com a queda dos juros pagos nos títulos públicos, quem quiser multiplicar seu patrimônio terá de dedicar parte dele a investimentos de risco, em especial à bolsa de valores. Isso requer que se enxerguem os sobressaltos da economia como ciclos, não como sinais de colapso do capitalismo. "Vida de acionista pode até ser farta, mas não é tranqüila", diz o economista e ex-diretor do Banco Central Beny Parnes, responsável pela empresa de gestão de recursos do banco BBM. "Quem quiser investir em uma economia sem sustos deverá escolher a Coréia do Norte."

Essa nova mentalidade de investimento foi gerada pela queda das taxas de juro, no início de 2003. As empresas negociadas em bolsa estavam baratas devido à crise, e atraíram muitos investidores internacionais. Com isso, as ações engataram uma das maiores altas de sua história. Não foi um caminho suave (veja o quadro), mas as ações conseguiram bater os juros entre dezembro de 2000 e agosto de 2007. E os especialistas dizem que essa é a nova regra. "A bolsa é uma aplicação melhor que a renda fixa a longo prazo", diz Loyola. "Mas devo fazer a advertência de praxe: ações são uma aplicação de risco."

Germano Luders
Cosentino, da Totvs: o faturamento triplicou após abertura de capital


Quem tivesse investido 100 reais em juros no fim do ano 2000 teria cerca de 296 reais em agosto de 2007. Se tivesse comprado ações preferenciais da mineradora Vale do Rio Doce, teria quase 1.500 reais (as ações preferenciais não dão direito a voto e são mais negociadas, ou seja, mais fáceis de comprar e vender). Não por acaso, essas ações são a principal recomendação dos analistas para os próximos doze meses (veja reportagem). Com tal valorização, onde está o risco? Está em toda parte, e é sempre bom saber evitá-lo. O investidor que, em vez de apostar no minério da Vale, acreditou nas asas da Varig perdeu quase tudo. Quem se fiou na capacidade de recuperação da tradicional empresa aérea e investiu 100 reais em suas ações viu o dinheiro encolher para pouco mais de 10 reais, segundo cálculos da Economática, uma empresa especializada em informações sobre companhias negociadas em bolsa.

Centenas de exemplos como esses mostram que quem quiser ganhar dinheiro com ações tem de se acostumar com solavancos. Mesmo assim, a situação hoje está melhor do que há cinco anos. O mercado acionário passou por algumas mudanças que favorecem o investidor. A primeira foi a queda dos juros, que, no atual patamar, vai manter competitiva a rentabilidade das ações. Outra foi a popularização das operações via internet. Muitas das 57 corretoras ligadas à Bovespa que oferecem esse serviço não exigem um investimento inicial mínimo. Nas operações tradicionais, em que o investidor é atendido por um funcionário das corretoras, o investidor tem de desembolsar pelo menos 5.000 reais. Já no home broker os limites são mais flexíveis. "O investidor pode começar com o que tem no bolso", diz Hélio Pio, gerente comercial da corretora Ágora, que recebe 1 000 novos clientes do programa por mês. Com mais gente participando, o mercado fica mais eficiente e transparente, e menos sujeito a distorções de preço e a manipulações.

O avanço institucional deu-se com a chegada à bolsa de empresários dispostos a tratar bem seus sócios – não por generosidade, mas por pragmatismo. As companhias descobriram que, se forem justas com seus acionistas minoritários, conseguirão obter mais facilmente dinheiro no mercado, sem recorrer aos bancos. Que o diga Laércio Cosentino, fundador e presidente da companhia Totvs – a antiga Microsiga, empresa que abriu o capital no ano passado. Em 2005, a Totvs – que desenvolve softwares para permitir às empresas administrar melhor seus negócios – atendia 8.300 clientes e faturou 173 milhões de reais. Em 2006, com o dinheiro captado na bolsa, ela comprou outras empresas. Duplicou o número de clientes e triplicou o faturamento nos doze meses entre julho de 2006 e junho de 2007. "Isso não teria sido possível sem o impulso da bolsa", diz Cosentino.

 

Mauricio Lima/AFP
Crise da Varig: quem investiu nas ações da empresa perdeu 90% do dinheiro desde 2000

As bolsas vão participar cada vez mais do crescimento das empresas. Antes do renascimento do mercado acionário, o financiamento produtivo vinha de recursos próprios, de bancos ou dos cofres públicos, diz o economista Carlos Antonio Rocca, consultor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e autor de um estudo recente sobre o mercado acionário. Por oferecerem dinheiro mais barato, os pequenos acionistas têm um papel importantíssimo nesse processo. Ao mesmo tempo em que financiam a expansão da economia brasileira, melhoram sua própria situação financeira.

 

Com reportagem de Cíntia Borsato e Laura Ming

 

 

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