Eles são
jovens, ativos e ávidos pela independência financeira. Os recém-chegados
querem lucrar com as oportunidades do mercado acionário brasileiro
e estão dispostos a correr uma razoável dose de risco
para isso
Investidores
em todo o mundo tremeram recentemente com o efeito potencial de uma explosão
da bolha imobiliária nos Estados Unidos. A Bolsa de Valores de São
Paulo (Bovespa) amargou uma baixa de quase 9% no dia 16 de agosto. Um mês
depois, veio o alívio. Na semana passada, o banco central americano surpreendeu
os investidores e baixou os juros nos Estados Unidos em meio ponto porcentual,
o dobro do esperado. As ações dispararam mais de 4% num único
dia em São Paulo , recuperando quase toda a perda das semanas anteriores.
Movimentos tão abruptos assustam o mais tarimbado dos investidores. Nada
mais natural, portanto, que preocupem a nutricionista carioca Cláudia Lima,
de 23 anos. Cláudia é uma das mais de 130.000 usuárias de
um sistema que permite aos brasileiros comprar e vender ações pela
internet o home broker (operador doméstico, numa tradução
do inglês). Com a turbulência recente, ela viu o dinheiro investido
encolher de uma hora para a outra. "Fiquei brava, até deixei de consultar
o sistema", diz ela. Mesmo assim, Cláudia não vendeu suas ações.
Ela só está esperando o mercado se acalmar para voltar a operar.
Cláudia continua na
bolsa por uma razão simples. Ela aceita o risco como fato inerente às
sociedades desenvolvidas e livres. Esse sentimento faz dela uma representante
ideal da nova geração de investidores brasileiros um grupo
formado por 280 000 pessoas que compram ações pela internet ou participam
de clubes de investimento. Essa mentalidade é nova no cenário econômico
brasileiro. Até 2002, investir dinheiro no país era fácil,
conta o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. O Brasil vivia
uma situação distorcida, em que os juros muito elevados permitiam
aos investidores ganhar dinheiro sem correr riscos. Bastava comprar títulos
públicos e viver de renda. Hoje, com a queda dos juros pagos nos títulos
públicos, quem quiser multiplicar seu patrimônio terá de dedicar
parte dele a investimentos de risco, em especial à bolsa de valores. Isso
requer que se enxerguem os sobressaltos da economia como ciclos, não como
sinais de colapso do capitalismo. "Vida de acionista pode até ser farta,
mas não é tranqüila", diz o economista e ex-diretor do Banco
Central Beny Parnes, responsável pela empresa de gestão de recursos
do banco BBM. "Quem quiser investir em uma economia sem sustos deverá escolher
a Coréia do Norte."
Essa nova mentalidade de investimento foi gerada pela queda das taxas de juro,
no início de 2003. As empresas negociadas em bolsa estavam baratas devido
à crise, e atraíram muitos investidores internacionais. Com isso,
as ações engataram uma das maiores altas de sua história.
Não foi um caminho suave (veja
o quadro), mas as ações conseguiram bater os juros entre
dezembro de 2000 e agosto de 2007. E os especialistas dizem que essa é
a nova regra. "A bolsa é uma aplicação melhor que a renda
fixa a longo prazo", diz Loyola. "Mas devo fazer a advertência de praxe:
ações são uma aplicação de risco."
Germano
Luders
Cosentino,
da Totvs: o faturamento triplicou após abertura de capital
Quem tivesse investido 100 reais em juros no fim do ano 2000 teria cerca de
296 reais em agosto de 2007. Se tivesse comprado ações preferenciais
da mineradora Vale do Rio Doce, teria quase 1.500 reais (as ações
preferenciais não dão direito a voto e são mais negociadas,
ou seja, mais fáceis de comprar e vender). Não por acaso, essas
ações são a principal recomendação dos analistas
para os próximos doze meses (veja reportagem).
Com tal valorização, onde está o risco? Está em toda
parte, e é sempre bom saber evitá-lo. O investidor que, em vez de
apostar no minério da Vale, acreditou nas asas da Varig perdeu quase tudo.
Quem se fiou na capacidade de recuperação da tradicional empresa
aérea e investiu 100 reais em suas ações viu o dinheiro encolher
para pouco mais de 10 reais, segundo cálculos da Economática, uma
empresa especializada em informações sobre companhias negociadas
em bolsa.
Centenas de exemplos
como esses mostram que quem quiser ganhar dinheiro com ações tem
de se acostumar com solavancos. Mesmo assim, a situação hoje está
melhor do que há cinco anos. O mercado acionário passou por algumas
mudanças que favorecem o investidor. A primeira foi a queda dos juros,
que, no atual patamar, vai manter competitiva a rentabilidade das ações.
Outra foi a popularização das operações via internet.
Muitas das 57 corretoras ligadas à Bovespa que oferecem esse serviço
não exigem um investimento inicial mínimo. Nas operações
tradicionais, em que o investidor é atendido por um funcionário
das corretoras, o investidor tem de desembolsar pelo menos 5.000 reais. Já
no home broker os limites são mais flexíveis. "O investidor pode
começar com o que tem no bolso", diz Hélio Pio, gerente comercial
da corretora Ágora, que recebe 1 000 novos clientes do programa por mês.
Com mais gente participando, o mercado fica mais eficiente e transparente, e menos
sujeito a distorções de preço e a manipulações.
O avanço institucional
deu-se com a chegada à bolsa de empresários dispostos a tratar bem
seus sócios não por generosidade, mas por pragmatismo. As
companhias descobriram que, se forem justas com seus acionistas minoritários,
conseguirão obter mais facilmente dinheiro no mercado, sem recorrer aos
bancos. Que o diga Laércio Cosentino, fundador e presidente da companhia
Totvs a antiga Microsiga, empresa que abriu o capital no ano passado. Em
2005, a Totvs que desenvolve softwares para permitir às empresas
administrar melhor seus negócios atendia 8.300 clientes e faturou
173 milhões de reais. Em 2006, com o dinheiro captado na bolsa, ela comprou
outras empresas. Duplicou o número de clientes e triplicou o faturamento
nos doze meses entre julho de 2006 e junho de 2007. "Isso não teria sido
possível sem o impulso da bolsa", diz Cosentino.
Mauricio
Lima/AFP
Crise
da Varig: quem investiu nas ações da empresa perdeu 90% do dinheiro
desde 2000
As bolsas
vão participar cada vez mais do crescimento das empresas. Antes do renascimento
do mercado acionário, o financiamento produtivo vinha de recursos próprios,
de bancos ou dos cofres públicos, diz o economista Carlos Antonio Rocca,
consultor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e autor de um
estudo recente sobre o mercado acionário. Por oferecerem dinheiro mais
barato, os pequenos acionistas têm um papel importantíssimo nesse
processo. Ao mesmo tempo em que financiam a expansão da economia brasileira,
melhoram sua própria situação financeira.