Do americano Noam Chomsky se
diz que é um idiota em política, por anunciar
o fim do capitalismo a cada espirro das bolsas, e um gênio
na ciência por seus trabalhos de lingüística.
Chomsky sustenta que a linguagem depende apenas de regras
universais incrustadas no cérebro, que não guardam
relação nenhuma com as atividades pelas quais
nos comunicamos falar, ouvir, gesticular. Assim como
a política de Chomsky está errada, suspeita-se
agora que sua ciência também caminha para a desmoralização.
Depois de quatro décadas de hegemonia, sua abordagem
abstrata está cedendo lugar a outra, naturalista. A
evolução da linguagem, tema que Chomsky havia
banido, é hoje uma área de estudos efervescente.
Como observa a lingüista americana Christine Kenneally,
autora do recém-lançado The First Word
(A Primeira Palavra), trata-se de um problema extraordinariamente
complexo. "A linguagem surgiu muito antes da escrita", disse
ela a VEJA. "Como investigar sua origem se não há
fósseis de palavras?"
O uso da linguagem é uma das características especiais dos humanos.
Há dois caminhos para explicá-la na biologia. Sabe-se hoje que o
genoma humano é 98% igual ao dos chimpanzés. Uma alternativa é
buscar a explicação para a existência da linguagem nos 2%
restantes. A outra é considerar que, para serem criados, os poemas homéricos
e as peças de Shakespeare dependeram tanto daquilo que é exclusivo
quanto daquilo que compartilhamos com outros animais. Esse é o caminho
adotado por cientistas como Sue Savage-Rumbaugh e Philip Lieberman. Savage-Rumbaugh
ganhou notoriedade ensinando macacos a produzir e compreender alguns aspectos
da linguagem. Em 2003, anunciou que Kanzi, um bonobo que já conseguia se
comunicar com desenvoltura usando um tabuleiro de símbolos, havia pronunciado
uma palavra em inglês.
O trabalho
de Lieberman se dá no campo da neurologia e da fisiologia ou seja,
das estruturas corporais ligadas ao fenômeno da linguagem. Uma de suas experiências
o levou ao Monte Everest. Ele queria observar como os danos temporários
causados pela falta de oxigênio a uma das estruturas mais antigas do cérebro,
o gânglio de base, responsável por seqüenciar movimentos, afetavam
a fala. A bateria de testes que aplicou em alpinistas mostrou que não apenas
sua fala piorava à medida que eles subiam a montanha e o ar se tornava
mais rarefeito: seu domínio da sintaxe também diminuía. Foi
a prova de que o sistema motor do cérebro é um dos pontos de partida
para nossa capacidade de nos expressar. Em outras palavras, a linguagem humana
tem raízes numa estrutura que compartilhamos com as criaturas mais primitivas.
Trabalhos recentes do autor ajudam a desfazer de vez a idéia de que a capacidade
de concatenar palavras depende de um compartimento milagroso em nossa mente. Até
mesmo o conceito de que as estruturas da linguagem estão concentradas no
hemisfério esquerdo do cérebro já não se sustenta.
Elas estão em toda parte.
Mais incipiente
do que a compreensão geral da linguagem no cérebro é a tentativa
de entender nosso hábito de criar poemas e histórias. Já
existem alguns esboços. O pesquisador David Miall, da Universidade de Alberta,
no Canadá, desenvolveu um programa de computador que analisa variações
métricas e fonéticas em obras literárias. Depois, comparou
esses padrões com os da fala de uma mãe ao seu bebê. Descobriu
que a mãe enternecida repetia, de maneira um tanto exagerada, os mesmos
ritmos encontrados na grande arte. Como a fala da mãe também transmite
emoções, circuitos que relacionam a literatura à experiência
emocional poderiam começar a se formar aí. Quanto à habilidade
narrativa, ela vem sendo estudada com base nos casos de pessoas que sofreram lesões
no cérebro. Como talvez seja óbvio, acidentes que afetam a memória
costumam comprometer a capacidade de narrar. Pessoas com amnésia grave
não conseguem transmitir sua vivência aos outros. Curiosamente, porém,
um subgrupo dos desmemoriados age de maneira oposta: de forma quase compulsiva,
inventam versões contraditórias de um acontecimento cuja circunstância
real esqueceram. Ao contrário do que ocorre com certos políticos,
o objetivo não é enganar: trata-se de um esforço instintivo
de satisfazer à curiosidade de quem lhes perguntou algo. Como mostram esses
indivíduos desafortunados, a atividade de narrativa está de algum
modo entranhada na estrutura física do cérebro humano.