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26 de setembro de 2007
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Ciência
Enigmas da linguagem

 

Fotos Great Ape Trust of Iowa
Sue Savage-Rumbaugh e o bonobo Kanzi: ele se comunica com desenvoltura usando os "lexigramas", tabuleiros que contêm 384 símbolos e palavras do inglês

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Do americano Noam Chomsky se diz que é um idiota em política, por anunciar o fim do capitalismo a cada espirro das bolsas, e um gênio na ciência por seus trabalhos de lingüística. Chomsky sustenta que a linguagem depende apenas de regras universais incrustadas no cérebro, que não guardam relação nenhuma com as atividades pelas quais nos comunicamos – falar, ouvir, gesticular. Assim como a política de Chomsky está errada, suspeita-se agora que sua ciência também caminha para a desmoralização. Depois de quatro décadas de hegemonia, sua abordagem abstrata está cedendo lugar a outra, naturalista. A evolução da linguagem, tema que Chomsky havia banido, é hoje uma área de estudos efervescente. Como observa a lingüista americana Christine Kenneally, autora do recém-lançado The First Word (A Primeira Palavra), trata-se de um problema extraordinariamente complexo. "A linguagem surgiu muito antes da escrita", disse ela a VEJA. "Como investigar sua origem se não há fósseis de palavras?"

O uso da linguagem é uma das características especiais dos humanos. Há dois caminhos para explicá-la na biologia. Sabe-se hoje que o genoma humano é 98% igual ao dos chimpanzés. Uma alternativa é buscar a explicação para a existência da linguagem nos 2% restantes. A outra é considerar que, para serem criados, os poemas homéricos e as peças de Shakespeare dependeram tanto daquilo que é exclusivo quanto daquilo que compartilhamos com outros animais. Esse é o caminho adotado por cientistas como Sue Savage-Rumbaugh e Philip Lieberman. Savage-Rumbaugh ganhou notoriedade ensinando macacos a produzir e compreender alguns aspectos da linguagem. Em 2003, anunciou que Kanzi, um bonobo que já conseguia se comunicar com desenvoltura usando um tabuleiro de símbolos, havia pronunciado uma palavra em inglês.

O trabalho de Lieberman se dá no campo da neurologia e da fisiologia – ou seja, das estruturas corporais ligadas ao fenômeno da linguagem. Uma de suas experiências o levou ao Monte Everest. Ele queria observar como os danos temporários causados pela falta de oxigênio a uma das estruturas mais antigas do cérebro, o gânglio de base, responsável por seqüenciar movimentos, afetavam a fala. A bateria de testes que aplicou em alpinistas mostrou que não apenas sua fala piorava à medida que eles subiam a montanha e o ar se tornava mais rarefeito: seu domínio da sintaxe também diminuía. Foi a prova de que o sistema motor do cérebro é um dos pontos de partida para nossa capacidade de nos expressar. Em outras palavras, a linguagem humana tem raízes numa estrutura que compartilhamos com as criaturas mais primitivas. Trabalhos recentes do autor ajudam a desfazer de vez a idéia de que a capacidade de concatenar palavras depende de um compartimento milagroso em nossa mente. Até mesmo o conceito de que as estruturas da linguagem estão concentradas no hemisfério esquerdo do cérebro já não se sustenta. Elas estão em toda parte.

Mais incipiente do que a compreensão geral da linguagem no cérebro é a tentativa de entender nosso hábito de criar poemas e histórias. Já existem alguns esboços. O pesquisador David Miall, da Universidade de Alberta, no Canadá, desenvolveu um programa de computador que analisa variações métricas e fonéticas em obras literárias. Depois, comparou esses padrões com os da fala de uma mãe ao seu bebê. Descobriu que a mãe enternecida repetia, de maneira um tanto exagerada, os mesmos ritmos encontrados na grande arte. Como a fala da mãe também transmite emoções, circuitos que relacionam a literatura à experiência emocional poderiam começar a se formar aí. Quanto à habilidade narrativa, ela vem sendo estudada com base nos casos de pessoas que sofreram lesões no cérebro. Como talvez seja óbvio, acidentes que afetam a memória costumam comprometer a capacidade de narrar. Pessoas com amnésia grave não conseguem transmitir sua vivência aos outros. Curiosamente, porém, um subgrupo dos desmemoriados age de maneira oposta: de forma quase compulsiva, inventam versões contraditórias de um acontecimento cuja circunstância real esqueceram. Ao contrário do que ocorre com certos políticos, o objetivo não é enganar: trata-se de um esforço instintivo de satisfazer à curiosidade de quem lhes perguntou algo. Como mostram esses indivíduos desafortunados, a atividade de narrativa está de algum modo entranhada na estrutura física do cérebro humano.

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