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26 de setembro de 2007
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Ciência
A grande orquestra do cérebro

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Alguns personagens históricos se tornaram conhecidos por terem ouvidos de pedra. Os presidentes americanos Ulysses Grant e Theodore Roosevelt e o guerrilheiro argentino Che Guevara fazem parte desse grupo, assim como o romancista russo Vladimir Nabokov, que registrou: "A música me afeta como uma sucessão arbitrária de sons mais ou menos irritantes". Por muito tempo, eles foram considerados exemplos da surdez para tons, uma insensibilidade relativa para a música que se estima estar presente em 5% da população. Nos últimos anos, alguns cientistas passaram a se perguntar se eles não teriam sido portadores de algo mais raro. Em seu novo livro, Alucinações Musicais (Companhia das Letras; tradução de Laura Teixeira Motta; 342 páginas; 49 reais), o inglês Oliver Sacks, o mais famoso dos neurologistas, especula a respeito de Nabokov para em seguida relatar o caso de uma paciente. Essa mulher, identificada como "L.", jamais percebeu a música como tal. Desde a infância ela se viu em situações embaraçosas por não reconhecer o hino americano ou um singelo Parabéns a Você. Sua condição é causada por uma anomalia congênita no córtex auditivo, a amusia total. Eis como L. descreve um concerto: "Imagine que você está na cozinha e alguém joga todos os pratos e panelas no chão. É isso que eu ouço".

A disfunção de L. marcou-a como uma espécie de "alienígena". Para a maioria das pessoas, é difícil até conceber uma situação como a dela. A música carrega memórias e emoções e está profundamente entranhada em nossa experiência íntima. Mais que isso. Nenhuma cultura conhecida foi desprovida de música, e alguns dos artefatos mais antigos encontrados em sítios arqueológicos são flautas e tambores. Ao nascer, os bebês já distinguem entre escalas musicais, preferem a harmonia à dissonância e são capazes de reconhecer canções. Seu cérebro está pronto a decifrar musicalmente o mundo. Os caminhos neurológicos da percepção musical estão sendo esmiuçados como nunca. Como diz Robert Zatorre, professor do Instituto Neurológico de Montreal, a música se tornou alimento da neurociência.

Diversos estudos recentes demonstram como o cérebro é esculpido pela música. Por exemplo, o corpo caloso, a grande comissura que liga os dois hemisférios cerebrais, tende a ser maior nos músicos profissionais. Descobertas desse tipo levaram alguns a sugerir que expor crianças pequenas à música clássica lhes daria uma vantagem intelectual, mas essa idéia não é corroborada pela neurociência. As mudanças causadas pela música são muito específicas, e talvez se dêem à custa de outras funções cerebrais. Ouvir Mozart na infância certamente ajuda a ouvir Mozart na idade adulta – mas não traz necessariamente outros ganhos cognitivos. O que esses estudos ressaltam é a plasticidade do cérebro, a maneira como ele é moldado, muito concretamente, pela experiência individual. Não é só estudar música que resulta em diferenças relevantes. O tipo de aprendizado importa. Uma experiência com violinistas e trompetistas mostrou que a ativação do córtex auditivo é maior quando eles ouvem seus respectivos instrumentos. Outra pesquisa aponta que crianças chinesas têm mais chance de adquirir ouvido absoluto, que identifica automaticamente a altura de qualquer nota. Não pela raça, mas porque crescem ouvindo chinês, língua com grandes variações tonais.

Outro enigma desvendado é a razão fisiológica dos prazeres causados pela música. No recém-lançado This Is Your Brain on Music (O Seu Cérebro sob Efeito Musical), o neurocientista americano Daniel Levitin descreve as experiências que coordenou na Universidade McGill, do Canadá. As conclusões são técnicas, mas é possível visualizar a orquestra cerebral em ação. "Primeiro o córtex auditivo entra em ação para analisar os componentes do som", escreve Levitin. "Depois vêm regiões frontais, relacionadas ao processamento da estrutura e das expectativas musicais. Finalmente, chegamos a um sistema de áreas envolvidas na excitação e no prazer, na transmissão de opióides e na produção de dopamina, culminando na ativação do núcleo acumbens. Os aspectos agradáveis e estimulantes da audição musical parecem ser resultado do aumento de dopamina no núcleo acumbens e da contribuição do cerebelo na regulação das emoções. A música é uma forma de melhorar o ânimo das pessoas, e agora acreditamos saber por quê."

O trabalho de Oliver Sacks em Alucinações Musicais é muito diverso desse. Ele narra casos peculiares, da mesma forma que em livros anteriores como Um Antropólogo em Marte. São 29 capítulos com relatos sobre perdas e excessos de musicalidade, sobre a relação da audição com os outros sentidos, sobre canções que se incrustam em nossa consciência, repetindo-se incessantemente, ou sobre ataques epiléticos causados por sons específicos (como a voz de Frank Sinatra). Entre os personagens encontra-se Clive Wearing, um pianista que, depois de uma infecção no cérebro, sofreu uma perda tão devastadora da função de memória que todo acontecimento novo é esquecido imediatamente. Apesar disso, ele não só toca piano como um mestre, mas ainda improvisa e – mais surpreendente – aprende novas partituras. Outro exemplo é o de Sheryl C., que subitamente se viu mergulhada numa situação angustiante. Qualquer pessoa é capaz de relembrar, em silêncio, uma música conhecida. Mas, para ela, era como se uma orquestra estivesse dentro de sua cabeça, tocando trechos de A Noviça Rebelde. Reagindo a uma surdez progressiva, seu cérebro agia espontaneamente e criava alucinações musicais.

Alguns dos capítulos de Sacks falam sobre musicoterapia, vista com desconfiança por médicos e psicólogos. Sacks tem respeito pela disciplina, cujas bases científicas estão sendo reforçadas pela neurologia. O Núcleo de Envelhecimento Cerebral (Nudec) da Universidade Federal de São Paulo mantém pesquisas nesse campo, coordenadas por Cléo Monteiro França Correia. Uma de suas pacientes é a pedagoga Zeni de Almeida Flore. Em 2001, aos 72 anos, ela mostrou os primeiros sintomas da doença de Parkinson. O parkinsonismo é um distúrbio motor, mas é comum que danifique outras áreas do cérebro, acarretando afasia e demência. Foi o que aconteceu com Zeni. À medida que a doença avançava, ela se viu incapaz de manter um diálogo e, depois, até mesmo de nomear objetos. Havia uma única situação em que ela conseguia pronunciar palavras com fluência: ao cantar. Há um ano, a capacidade musical de Zeni foi identificada. Encaminhada à musicoterapia, ela teve ganhos lingüísticos: recobrou certo poder de articular sentenças e responder a perguntas. Doenças diferentes requerem abordagem musical diferente, observa Sacks. Mas, lidando com o ritmo ou despertando emoções, a música pode orientar um paciente quando mais nada é capaz de fazê-lo.

 

"NEUROLOGIA PESSOAL"

Eileen Barroso
Oliver Sacks: contra a "civilização do iPod"  

Numa das salas de seu consultório em Manhattan, o neurologista inglês Oliver Sacks, de 74 anos, mantém um quadro com retratos de amigos, a foto de um polvo e a cópia xerográfica de um texto de dicionário sobre o "abaçanamento", suplício medieval que consistia em cegar a vítima encostando uma placa de metal incandescente nos seus olhos. Explicar o interesse por esse tipo de tortura fez com que Sacks revelasse a VEJA uma doença. Em 2005, ele descobriu um tumor no olho direito. Submeteu-se a tratamento por radiação e sessões de laser, versão benigna do abaçanamento. A cura é incerta, mas, em vez de fazer do assunto um tabu, Sacks registra sua vivência da doença num diário. Num desenho do globo ocular, ele mostra a mancha que atrapalha sua visão. Para explicar como os objetos se tornam invisíveis para ele por causa dela, usa um conceito da astrofísica, os "horizontes do evento". Eles ocorreriam, segundo a teoria da relatividade de Albert Einstein, na periferia dos "buracos negros", dos quais nenhuma matéria ou radiação consegue escapar. Como saber que os "buracos negros" existem se não emitem luz ou outra radiação? Justamente pelos "horizontes do evento", turbulências detectáveis que ocorrem na fronteira do espaço-tempo e que sinalizam a existência de um "buraco negro" nas proximidades. "Como nos 'horizontes do evento', há experiências quase impossíveis de comunicar", diz Sacks. "Fazemos o possível com metáforas."

O uso da experiência pessoal, assim como a luta para encontrar palavras que descrevam estados de consciência incomuns, é um dos pilares dos extraordinários livros de Sacks. Em sua nova obra, Alucinações Musicais, ele também relata episódios pessoais, como as ocasiões em que sofreu de amusia, em 1974. Na primeira vez, ele ouvia uma balada de Chopin no rádio quando as notas musicais se converteram em "marteladas sem tom com uma desagradável reverberação metálica". Dias depois, a experiência se repetiu, acompanhada de alterações visuais que revelaram que o distúrbio advinha da enxaqueca. A maneira como Sacks aparece em seus livros decorre de como ele lida com seus pacientes e entende sua profissão. Contra os limites da "neurologia clássica", de olhar puramente objetivo, ele busca uma "neurologia pessoal", calcada no entendimento global do organismo e da história de cada pessoa.

Alucinações Musicais é uma prova de que as interações entre música e neurociência mal começaram. Mas o livro também atesta uma paixão pela arte. Sacks é dono de um piano de cauda Bechstein fabricado em 1894 e tem opiniões fortes sobre música. "Amo Brahms", afirma. "No outro extremo, odeio Wagner com sua música erótica e inflada. Não gosto de arte que tenta me seduzir." Sacks enxerga um paradoxo na maneira como as pessoas hoje lidam com a música. Ele é um crítico da "civilização do iPod". "Não é só porque a surdez juvenil está aumentando de modo alarmante. Com esses aparelhos, as pessoas se enclausuram nelas próprias." Diz ele: "No passado remoto, a música uniu e sincronizou os homens. É o que está se perdendo hoje".

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