Nossa cultura fala
do cérebro como se fosse um computador. Ele é a sede da razão,
e a arte é reservada ao espírito. Mas
agora a neurociência estuda a música e outras atividades
que definem a essência humana
O cérebro
nunca recebeu o devido crédito pelas criações
artísticas. Aplicado à pintura ou à música,
o adjetivo "cerebral" tem inclusive conotações
negativas. Implica frieza ou cálculo como se
o mesmo órgão não fosse responsável
por processar as emoções. O cérebro é
engrenagem, computador, razão. Mas não arte.
Há também quem julgue que tratar as esculturas
de Michelangelo ou as sinfonias de Beethoven como produtos
de um emaranhado de células nervosas tira delas a transcendência.
Devido à antiquíssima divisão da experiência
humana entre o físico e o imaterial, foi e continua
sendo mais comum associar a arte a abstrações
como as musas e o espírito do que ao trabalho de nossa
massa encefálica. Em boa parte, contudo, essas idéias
se deviam à falta de instrumentos adequados para estudar
as artes do ponto de vista da neurologia. Isso mudou. Técnicas
como a ressonância magnética funcional, que permitem
captar imagens do cérebro em funcionamento, associadas
a pesquisas no campo da neuroquímica e, de modo menos
divulgado, a refinados modelos de computador de nossas redes
neuronais, puseram em marcha uma revolução.
A nova ciência do cérebro fez explodir o número
de estudos sobre essas atividades tão intimamente ligadas
à nossa essência humana: a produção
e a fruição das artes. "Está surgindo
uma nova disciplina", afirma o inglês Semir Zeki, uma
das maiores autoridades mundiais na neurologia da visão.
"Podemos chamá-la de neuroestética."
A neuroestética
é uma via de mão dupla. Ajuda a entender melhor
o cérebro e as artes. Cientistas que usam a música
ou a linguagem como ferramentas para explorar nossa vida neural
têm colaborado para derrubar velhos dogmas e refazer
a cartografia do cérebro. O cérebro humano tem
100 bilhões de células nervosas e mais de cinqüenta
substâncias neurotransmissoras. Estima-se que o potencial
de conexões entre os neurônios chegue a 500 trilhões.
Qualquer comportamento complexo depende de diversos grupos
de células ligados por circuitos. A metáfora
mais freqüente nos novos livros de neurologia é
a das cascatas neurais grandes seqüências
de ativação de áreas do cérebro,
às vezes bastante afastadas entre si. Uma das teorias
destroçadas pelos achados recentes é o "localizacionismo".
Ele remonta ao cirurgião francês Paul Broca,
do século XIX, e postula que as principais habilidades
humanas se devem única e exclusivamente a uma região
do cérebro. Sim, é verdade que o órgão
tem partes especializadas. Broca identificou uma delas, relacionada
à fala. Como observa o biólogo americano Philip
Lieberman, contudo, hoje é certo que a linguagem humana
"pode ser rastreada até as respostas motoras dos répteis".
Dito de outra maneira, ela envolve tanto partes primitivas
do cérebro aquelas que compartilhamos com cobras
e lagartos quanto outras que apareceram muito mais
tarde na escala da evolução, como o lobo frontal
esquerdo, que aloja a área de Broca. Especialização
e coordenação essa última em níveis
às vezes insuspeitados são dois princípios
que governam o cérebro.
Mais recente ainda
é a descoberta da incrível plasticidade do cérebro.
Não faz muito tempo, pensava-se que pela idade de 3
anos o cérebro tinha sua estrutura rigidamente estabelecida.
Hoje, está comprovado que a organização
que o tecido cerebral assume no começo da vida não
é definitiva. Provas assombrosas de que o cérebro
é capaz de encontrar rotas alternativas para atingir
a mesma finalidade estão nas hemisferectomias
operações que extirpam um dos hemisférios
do cérebro, atingido por um sério dano. Um dos
casos mais famosos é o do menino inglês Alex.
Ele tinha uma anomalia no lado esquerdo, onde se concentram
as estruturas responsáveis pela fala, e aos 8 anos
de idade era incapaz de se comunicar. Dez meses depois que
o hemisfério malformado foi retirado, Alex começou
a se expressar com sentenças complexas, num exemplo
dramático de como a massa encefálica consegue
se rearranjar. Mas o fato é que pequenas metamorfoses
neurológicas ocorrem todos os dias de nossa vida: a
plasticidade é também o mecanismo pelo qual
o cérebro responde ao mundo externo. Assim, áreas
mais requisitadas por algum tipo de aprendizado, como o estudo
musical, podem transformar-se em verdadeiros latifúndios
neuronais. As conseqüências de constatar a maleabilidade
do cérebro são profundas. Com isso, a velha
disputa sobre quem molda o comportamento humano, a natureza
ou a cultura, pode estar fadada a resolver-se num empate.
Embora condicione de muitas maneiras a nossa experiência
do mundo, o cérebro também possui uma capacidade
espantosa de reconfigurar-se de acordo com a informação
que recebe de fora.
Enquanto ajudam
a compor uma nova "teoria geral do cérebro", cientistas
interessados em arte fazem achados num terreno anteriormente
percorrido apenas por filósofos e críticos culturais.
Por exemplo: o que é a beleza? Numa experiência
realizada no University College de Londres, Semir Zeki e sua
equipe pediram a um grupo de pessoas que classificassem 300
pinturas como belas, feias ou neutras, numa escala de 1 a
10. Depois, as mesmas pinturas lhes foram reapresentadas,
enquanto seus cérebros eram monitorados numa máquina
de ressonância magnética. Uma gama diversa de
estruturas cerebrais reagiu durante a experiência. Concluiu-se,
no entanto, que o córtex orbito frontal medial e o
córtex motor eram as áreas de fato ligadas ao
julgamento do belo. O córtex orbito frontal medial,
relacionado ao prazer e às recompensas, apresentou
atividade mais intensa diante de quadros belos. A atividade
era maior para um quadro que recebera nota 9 do que para um
quadro nota 7. O oposto aconteceu com o córtex motor:
maior atividade diante da feiúra. Como essa estrutura
controla os movimentos, pode-se supor que a visão de
algo feio deixa o corpo pronto a reagir, se necessário:
se alguém diz ter vontade de "fugir" diante, digamos,
de uma obra do artista brasileiro Tunga, talvez não
esteja usando apenas uma figura de linguagem. "Tempos atrás,
se você dissesse estar maravilhado com uma obra de arte,
eu não teria uma maneira objetiva de verificar isso",
diz Zeki. "Agora, as máquinas de neuroimagem nos permitem
avaliar estados subjetivos. Melhor, permitem quantificá-los,
pois a atividade numa região do cérebro tende
a ser proporcional à intensidade declarada da experiência.
Filósofos especulam sobre a beleza. Eu diria que ela
é um aumento de fluxo sanguíneo na base do lobo
frontal."
Semir Zeki escreveu
um livro em parceria com o pintor francês Balthus e
recita de memória trechos de poetas como T.S. Eliot.
Ele diz que aprendeu com os artistas "neurologistas
intuitivos", que exploram e desvendam regras da percepção.
Ele gosta de citar uma frase de Picasso: "Seria muito interessante
preservar fotograficamente as metamorfoses de uma pintura.
Talvez assim se pudesse descobrir o caminho percorrido pelo
cérebro para materializar um sonho". Segundo Zeki,
é isso que a neurociência começa a fazer.
Desvendando um cérebro que calcula, mas também
cria. E é tão sutil quanto as musas ou o espírito.
Arte para quê?
Quem pensa nas
artes como um produto do cérebro logo chega a
outras questões. Por que o órgão
mais complexo do corpo nos capacita a criar pinturas
e poemas? Qual a função dessas atividades?
Será que despender energia inventando batidas
de tambor e desenhos para a caverna ajudou nossos ancestrais
a sobreviver? Essas perguntas remetem ao naturalista
inglês Charles Darwin e sua teoria da evolução.
Darwin refletiu sobre uma arte em especial a
música e concluiu que ela teve papel evolutivo.
Como a cauda nos pavões, ela nos ajudava a atrair
o sexo oposto. Era uma ferramenta a mais do processo
que Darwin chamou de "seleção sexual".
Essa é uma de suas teses mais controvertidas.
Para os cientistas que discordam, a arte é apenas
um subproduto do aparato sensorial. O fato de alguns
estímulos nos darem prazer fez com que inventássemos
formas de ter acesso a eles repetidamente. Para o psicólogo
canadense Steven Pinker, arte é um "doce mental"
dispensável mas saborosa. Ainda assim,
Darwin pode estar certo? O fato de astros do rock, mesmo
com as rugas de Mick Jagger, terem muito mais parceiras
do que um homem comum seria uma confirmação
da tese do papel da música na seleção
sexual. Seria mesmo? Em parte sim, mas Jagger as atrai
pela música, pela fama, pela riqueza ou pelo
poder hipnótico sobre as massas? O debate continua.
Só se sabe com certeza que, entre todos os grupos
de hominídeos que disputavam recursos escassos
na Idade do Gelo, o mais bem-sucedido foi o que encontrou
tempo para decorar com pinturas as paredes das cavernas.