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26 de setembro de 2007
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Esporte
Como parar o drible
da foca (sem falta)

Kerlon, do Cruzeiro, criou uma novidade
como há décadas não se via nos gramados.
Com ela veio a questão: o futebol
ainda tem como evoluir?


Alexandre Salvador



Carlos Roberto/Jornal Hoje em Dia/AE
Acima, Kerlon domina a bola com a cabeça, como uma foca, em jogo da semana passada

Nos esportes coletivos, a criatividade individual de um jogador é um dos elementos decisivos de uma partida. No futebol, essa habilidade costuma se expressar na forma do drible, um lance em que o adversário é surpreendido dentro das regras do jogo. Dependendo do ineditismo da jogada, o resultado pode dar em confusão. Foi o que aconteceu na semana passada quando Kerlon, atacante de 19 anos do Cruzeiro, provocou a ira dos jogadores do Atlético Mineiro ao fazer o "drible da foquinha", uma invenção sua. No clássico em Belo Horizonte, válido pelo Campeonato Brasileiro, Kerlon levantou com o pé a bola e disparou em direção à grande área fazendo embaixadas com a testa. No quarto toque com a cabeça, Coelho, lateral do Atlético, atropelou Kerlon com violência, tomou a falta e foi expulso do jogo, que terminou com uma vitória de 4 a 3 para o Cruzeiro. O episódio despertou um intrincado e exaltado debate sobre a validade ou não do drible da foquinha.

Fotos Alberto Sartini/Manoel Motta

Os críticos da nova finta usaram dois argumentos para considerar o lance ilegal. O primeiro é que, dado o controle quase absoluto de Kerlon com a bola na cabeça, seria praticamente impossível conter o avanço do jogador sem cometer uma penalidade. "Se eu fosse o zagueiro, também faria falta, mas sem violência", diz o próprio Kerlon, cujo objetivo declarado é usar sua finta para cavar faltas perto do gol adversário. Existem, no entanto, três maneiras legais de barrar o drible da foquinha: fazer jogo de corpo, induzir o jogador que tenta a finta a cometer uma falta de ataque e tentar desviar a bola com a cabeça (veja o quadro na pág. ao lado). O segundo argumento contra a invenção de Kerlon é que ela humilha o adversário sem dar benefício algum ao próprio time. Em teoria, o fato de Kerlon nunca ter conseguido fazer um gol com o drible da foquinha seria prova disso. Sem a menor elegância, Luiz Alberto, zagueiro do Fluminense, disse na semana passada que "arregaçaria" (traduzindo do linguajar de boleiro: "arrebentaria") quem fizesse o drible da foquinha na frente dele. "Ele não passaria por mim, ainda que eu tivesse de dar golpes de capoeira e pegar bola, cabeça e tudo", disse Luiz Alberto.

Chris Collins/Corbis/Latin Stock


Toda essa fúria, no entanto, não se justifica: pelas regras do futebol, o que Kerlon fez não deve ser interpretado como uma zombaria desnecessária. "Um drible só pode ser considerado uma atitude antidesportiva, a ser punida com falta ou advertência, quando fica claro que a firula com a bola não tinha como objetivo fazer o time avançar rumo ao gol", diz o árbitro paulista Sálvio Espíndola Fagundes Filho, integrante do quadro da Fifa. Na história do futebol, há outros exemplos de jogadas novas que, pelo inusitado, primeiro causaram perplexidade e indignação e, em seguida, passaram a ser imitadas por outros jogadores. Durante a Copa do Mundo de 1938, na França, Leônidas deu um chute de bicicleta contra o gol da Checoslováquia que causou espanto na torcida e na imprensa européias. Elas nunca tinham visto um malabarismo daqueles em campo, apesar de o próprio Leônidas dizer que não era uma invenção dele. Já a paradinha antes da cobrança do pênalti, imortalizada por Pelé, chegou a ser proibida pela Fifa, mas logo liberada.

O drible da foquinha foi criado por Kerlon junto com o pai, Silvino, que percebeu a facilidade do filho para equilibrar a bola na cabeça e sugeriu que ele treinasse as embaixadas correndo pelo gramado. Novato como profissional e por muito tempo afastado dos campos devido a uma série de lesões (desde quando começou, há dois anos, passou quinze meses em recuperação), Kerlon teve poucas oportunidades de tirar proveito do drible da foquinha. Em 36 jogos, o atacante reserva fez apenas um gol pelo Cruzeiro, com o pé. No Campeonato Sul-Americano de Futebol Sub-17, em 2005, vencido pela seleção brasileira, o drible da foca rendeu uma falta perigosa contra a Colômbia. A primeira vez que Kerlon usou a jogada foi em uma partida da categoria juvenil, em que ele cruzou do meio-de-campo até a grande área conduzindo a bola com a cabeça, para espanto dos outros jogadores, que não sabiam o que fazer. Kerlon chutou, mas errou o gol.

 

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