Kerlon, do Cruzeiro,
criou uma novidade
como há décadas não se via nos gramados.
Com ela veio a questão: o futebol
ainda tem como evoluir?
Alexandre Salvador
Carlos Roberto/Jornal
Hoje em Dia/AE
Acima, Kerlon domina a bola
com a cabeça, como uma foca, em jogo da semana
passada
Nos esportes coletivos, a criatividade
individual de um jogador é um dos elementos decisivos
de uma partida. No futebol, essa habilidade costuma se expressar
na forma do drible, um lance em que o adversário é
surpreendido dentro das regras do jogo. Dependendo do ineditismo
da jogada, o resultado pode dar em confusão. Foi o
que aconteceu na semana passada quando Kerlon, atacante de
19 anos do Cruzeiro, provocou a ira dos jogadores do Atlético
Mineiro ao fazer o "drible da foquinha", uma invenção
sua. No clássico em Belo Horizonte, válido pelo
Campeonato Brasileiro, Kerlon levantou com o pé a bola
e disparou em direção à grande área
fazendo embaixadas com a testa. No quarto toque com a cabeça,
Coelho, lateral do Atlético, atropelou Kerlon com violência,
tomou a falta e foi expulso do jogo, que terminou com uma
vitória de 4 a 3 para o Cruzeiro. O episódio
despertou um intrincado e exaltado debate sobre a validade
ou não do drible da foquinha.
Fotos
Alberto Sartini/Manoel Motta
Os críticos da nova finta
usaram dois argumentos para considerar o lance ilegal. O primeiro
é que, dado o controle quase absoluto de Kerlon com
a bola na cabeça, seria praticamente impossível
conter o avanço do jogador sem cometer uma penalidade.
"Se eu fosse o zagueiro, também faria falta, mas sem
violência", diz o próprio Kerlon, cujo objetivo
declarado é usar sua finta para cavar faltas perto
do gol adversário. Existem, no entanto, três
maneiras legais de barrar o drible da foquinha: fazer jogo
de corpo, induzir o jogador que tenta a finta a cometer uma
falta de ataque e tentar desviar a bola com a cabeça
(veja o quadro na pág. ao lado). O segundo argumento
contra a invenção de Kerlon é que ela
humilha o adversário sem dar benefício algum
ao próprio time. Em teoria, o fato de Kerlon nunca
ter conseguido fazer um gol com o drible da foquinha seria
prova disso. Sem a menor elegância, Luiz Alberto, zagueiro
do Fluminense, disse na semana passada que "arregaçaria"
(traduzindo do linguajar de boleiro: "arrebentaria") quem
fizesse o drible da foquinha na frente dele. "Ele não
passaria por mim, ainda que eu tivesse de dar golpes de capoeira
e pegar bola, cabeça e tudo", disse Luiz Alberto.
Chris Collins/Corbis/Latin
Stock
Toda essa fúria, no entanto, não se justifica:
pelas regras do futebol, o que Kerlon fez não deve
ser interpretado como uma zombaria desnecessária. "Um
drible só pode ser considerado uma atitude antidesportiva,
a ser punida com falta ou advertência, quando fica claro
que a firula com a bola não tinha como objetivo fazer
o time avançar rumo ao gol", diz o árbitro paulista
Sálvio Espíndola Fagundes Filho, integrante
do quadro da Fifa. Na história do futebol, há
outros exemplos de jogadas novas que, pelo inusitado, primeiro
causaram perplexidade e indignação e, em seguida,
passaram a ser imitadas por outros jogadores. Durante a Copa
do Mundo de 1938, na França, Leônidas deu um
chute de bicicleta contra o gol da Checoslováquia que
causou espanto na torcida e na imprensa européias.
Elas nunca tinham visto um malabarismo daqueles em campo,
apesar de o próprio Leônidas dizer que não
era uma invenção dele. Já a paradinha
antes da cobrança do pênalti, imortalizada por
Pelé, chegou a ser proibida pela Fifa, mas logo liberada.
O drible da foquinha foi criado
por Kerlon junto com o pai, Silvino, que percebeu a facilidade
do filho para equilibrar a bola na cabeça e sugeriu
que ele treinasse as embaixadas correndo pelo gramado. Novato
como profissional e por muito tempo afastado dos campos devido
a uma série de lesões (desde quando começou,
há dois anos, passou quinze meses em recuperação),
Kerlon teve poucas oportunidades de tirar proveito do drible
da foquinha. Em 36 jogos, o atacante reserva fez apenas um
gol pelo Cruzeiro, com o pé. No Campeonato Sul-Americano
de Futebol Sub-17, em 2005, vencido pela seleção
brasileira, o drible da foca rendeu uma falta perigosa contra
a Colômbia. A primeira vez que Kerlon usou a jogada
foi em uma partida da categoria juvenil, em que ele cruzou
do meio-de-campo até a grande área conduzindo
a bola com a cabeça, para espanto dos outros jogadores,
que não sabiam o que fazer. Kerlon chutou, mas errou
o gol.