Tropa de Elite,
que entra em cartaz no dia 12 de outubro, retrata a violência
carioca sob o ponto de vista de um oficial do Batalhão
de Operações Especiais (Bope), da polícia
do Rio de Janeiro. Dirigido por José Padilha, autor
do documentário Ônibus 174, o longa-metragem
relata a corrupção no meio policial e o cotidiano
de quem invade favelas e enfrenta traficantes de drogas para
ganhar a vida. Uma trama em que se misturam tortura, preconceitos,
ódio e coragem verdadeira, aquela que coexiste com
o medo mas o supera. Apesar da abordagem surpreendente, a
grande revelação sobre o cotidiano brasileiro
e esta não estava no roteiro foi que
a pirataria ganhou uma dimensão inédita nas
calçadas das grandes cidades do país. A estimativa
é que 3 milhões de pessoas tenham assistido
à versão semi-acabada. Para se ter uma idéia,
A Grande Família, o maior sucesso entre as produções
nacionais neste ano, teve público de 2 milhões
de espectadores. Dois meses antes da estréia, o filme
se espalhou pelos camelôs a preços que variaram
de 5 a 10 reais. Aconteceu primeiro no Rio, mas se espalhou
por outras cidades. Não há registro, no mundo
inteiro, de um caso assim.
Uma cópia
pirata foi parar na casa do ministro da Cultura, Gilberto
Gil. Ele disse que ganhou o DVD, mas não assistiu ao
filme. O diretor, José Padilha, foi a seu apartamento
especialmente para conferir se era ou não verdade que
o ministro tinha a tal cópia em casa. "Há quem
diga que isso é a democratização da cultura.
Para mim, a pirataria propaga a cultura da sonegação
fiscal, da corrupção e do crime", diz Padilha
a VEJA. Ele tem razão ao separar as coisas. Ao possibilitar
uma agilidade inédita na troca de informações,
de textos, de músicas, a internet colocou problemas
novos para o controle dos direitos autorais. A Lei de Direitos
Autorais brasileira, de 1998, precisa adaptar-se a essa nova
realidade. Ela não permite, por exemplo, nem mesmo
cópias de música para uso privado e é
um absurdo impedir um consumidor de ouvir em um tocador de
MP3 as músicas de um CD pelo qual ele pagou. O tema
é complexo e há muito tempo vem provocando discussões
em todo o mundo. É natural que o Ministério
da Cultura queira entrar nesse debate. Mas não é
admissível que o ministro Gilberto Gil crie ainda mais
confusão. Sua posição dúbia, principalmente
no que diz respeito à flexibilização
do direito autoral, não agrega. Quando um ministro
de estado fala sobre o tema demonstrando leniência,
desenha-se um quadro de rompimento institucional e de ameaça
à lei.
A versão
de Tropa que chega aos cinemas no mês que vem
teve alterações. É cinco minutos mais
longa que a pirata, além de ter correções
de som, luz e cor. Há modificações pequenas
na narração feita por Wagner Moura e duas cenas
a mais. Quem precisou jogar mais pesado foi a Paramount, distribuidora
do filme no país. O número de cinemas programados
para exibir seu trailer subiu de 450 para 1 000, maior que
o de Babel, que tinha Brad Pitt à frente do
elenco. Já o circuito aumentou de 120 para 160 salas.
Para o produtor de Tropa, Marcos Prado, ainda é
impossível estimar o prejuízo. "O que vai acontecer
com o filme no cinema é imprevisível, um mistério."
Ninguém duvida que vai perder uma boa fatia de seu
público graças à cópia criminosa.
Na semana passada, descobriu-se que Tropa de Elite
teve também uma estréia pirata. Começou
a ser exibido em um obscuro cinema de Jundiaí, no interior
de São Paulo, há duas semanas. Tudo para burlar
o regulamento do Oscar, que só aceita a inscrição
de filmes que tenham entrado em cartaz até 30 de setembro.
Atitudes assim não são um bom exemplo, principalmente
por parte de quem quer combater a pirataria. O surgimento
de policiais íntegros nas tramas de Hollywood coincidiu
com o momento em que a polícia americana começou
a mudar para melhor. Dessa forma, os estúdios incentivaram
a luta contra a corrupção. Há, no Brasil,
um enorme campo a ser preenchido por bons exemplos.