Nada parece constranger
a Síria em suas
campanhas para matar desafetos libaneses
Joseph Barrak/AFP
A cena do crime: oito mortos
e carros destruídos no atentado que matou Ghanem
Para um país
pequeno, o Líbano tem uma surpreendente quantidade
de desgraças. A mais espantosa talvez seja a série
de assassinatos de políticos anti-Síria. O mais
recente deles foi o do deputado Antoine Ghanem, na semana
passada, por um carro-bomba em um bairro cristão de
Beirute. A explosão matou outras sete pessoas, feriu
67 e deixou um cenário dantesco de corpos carbonizados
e uma dezena de carros transformados em ferro retorcido. O
cristão Ghanem é o oitavo inimigo importante
da Síria a ser assassinado nos últimos dois
anos e meio no Líbano. O primeiro foi Rafik Hariri,
que, como primeiro-ministro, comandou a reconstrução
do país depois do fim da guerra civil. Apesar de um
tribunal estabelecido pela ONU já ter traçado
até Damasco a ordem para matar Hariri, o governo sírio
permanece indiferente à repercussão internacional.
O momento político
em que se deu o atentado era ideal para os interesses do presidente
sírio Bashar Assad: a bomba explodiu apenas seis dias
antes de o Congresso libanês se reunir para escolher
o novo presidente do país. O atual, Emile Lahoud, é
capacho da Síria. O próximo tem boas chances
de não ser, já que os deputados anti-Síria
formam a maioria do Congresso ainda que agora reduzida
pelo assassinato de Ghanem e de outros dois colegas. A arrogância
síria se explica, em parte, pelo hermetismo do regime
de Assad, desprezado até por seus vizinhos árabes,
e pela aliança com o Hezbollah, o grupo terrorista
xiita que construiu no Líbano um estado dentro do estado.
Por outro lado, a Síria não é um reles
estado fora da lei, como a Coréia do Norte, que pode
ser isolado por sanções. O país tem um
papel decisivo na insurreição enfrentada pelos
Estados Unidos no Iraque. Sua influência também
não pode ser menosprezada no resultado das conversações
internacionais de paz entre israelenses e palestinos, que
Washington promove em novembro. O momento é complexo
e enigmático. Três semanas atrás, aviões
israelenses atacaram em território sírio. Estranhamente,
nem Israel nem a Síria revelam o que foi atingido.
Há especulações de que seria material
nuclear enviado pela Coréia do Norte. Com tanto em
jogo, é improvável que a Síria seja relegada
ao limbo internacional mesmo que o tribunal internacional
da ONU decida, sem sombra de dúvida, que membros do
governo sírio e seus aliados no Líbano são
responsáveis pelo assassinato de Hariri e de todos
os outros libaneses.