Para chegarem ao
poder, aspirantes a ditadores podem escolher dois caminhos:
usar a força ou se eleger em eleições
democráticas. Para tornarem perene sua tirania, no
entanto, devem saber manipular os objetivos e a visão
de mundo de seu povo. Nesse quesito, Hugo Chávez, presidente
eleito da Venezuela em 1998, já mantém sob seu
jugo os canais de televisão e inibe os jornalistas
da oposição com ameaças de processos
judiciais. Com isso, controla a informação que
chega a 80% dos venezuelanos. Na semana passada, Chávez
anunciou um plano de doutrinação destinado a
ter repercussão ainda mais duradoura sobre os venezuelanos
a reforma do currículo nacional de educação
primária e secundária. No Sistema Educativo
Bolivariano, como o projeto é chamado, crianças
entoarão canções ao herói da independência
nacional, Simon Bolívar, e aprenderão a odiar
os colonizadores europeus, incluindo Cristóvão
Colombo. O golpe de estado fracassado de Chávez, em
1992, desaparecerá dos livros didáticos e o
conceito de soberania nacional, tão valioso às
ditaduras militares latino-americanas, será transformado
em pura xenofobia. "Trata-se de um delírio: Chávez
quer transformar as crianças em vassalos que pensam
da mesma maneira que ele", disse a VEJA o pedagogo venezuelano
Leonardo Carvajal, da Universidad Católica Andrés
Bello, em Caracas.
A reforma venezuelana
imita o sistema de Cuba em que a educação está
a serviço da formação do "homem novo",
inspirado em Che Guevara, o personagem mítico da revolução
cubana. A história mostra que, quando o estado tem
a pretensão de criar um povo formado por cidadãos
idealizados, superiores, o que vem pela frente é a
perseguição inflexível à liberdade
individual. Em Cuba, todas as instituições de
ensino seguem o mesmo currículo oficial, inalterado
há décadas. Na semana passada, Chávez
ao lado de seu irmão Adán, ministro da
Educação anunciou que as escolas privadas
que se recusarem a adotar o novo sistema serão fechadas
ou estatizadas. Uma gráfica foi comprada para imprimir
os novos livros didáticos, que serão distribuídos
gratuitamente aos alunos. A proposta de Chávez tem
o militarismo como ponto central. Os alunos serão estimulados
a assumir atitudes de "compromisso coletivo" em defesa do
país, para atender a um objetivo básico: abastecer
as milícias civis armadas criadas pelo presidente.
"Ao impor o medo da guerra, os ditadores criam uma massa dócil,
inclinada a aceitar os seus comandos", diz o filósofo
Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas, Unicamp.