Artigo:Antonio Delfim Netto
* O estado e o crescimento
Desde 1994, a carga
tributária aumentou
12 pontos porcentuais, algo próximo de
320 bilhões de reais. Esse valor equivale a
quatro anos de receita do estado de São Paulo
Marcio Lima
Crateras em rodovia da Bahia:
o estado ineficiente já não consegue cuidar da infra-estrutura
Para entender a
tragédia de nossa excessiva carga tributária,
basta um instante de reflexão. Quando o Brasil crescia
robustamente em torno de 9%, com o emprego aumentando a 3%
ao ano, a carga era de 24% do produto interno bruto (PIB)
e o estado investia quase 20% dos seus recursos, ou cerca
de 4% do PIB. Com esses recursos foram construídos
portos, estradas e toda uma infra-estrutura de energia e telecomunicações.
A taxa de inflação era, então, decrescente.
Hoje a carga tributária é da ordem de 36% do
PIB, a maior do mundo emergente. A média de crescimento
do PIB entre 2001 e 2007, no entanto, será da ordem
de 3,2%, com modesto aumento do emprego. Temos hoje os benefícios
de uma inflação civilizada e de um equilíbrio
externo produzido mais por um acidente histórico do
que por nossas virtudes, mas o estado investe menos do que
5% dos seus recursos. Isso monta a menos de 2% do PIB, volume
insuficiente até para repor a depreciação
da infra-estrutura consumida nos últimos vinte anos.
O que significa
isso fisicamente? Um contrafactual é esclarecedor.
Neste ano o PIB deverá ser da ordem de 2,6 trilhões
de reais. De 1994 aos nossos dias, a carga tributária
aumentou 12 pontos porcentuais em relação ao
PIB. Isso significa que o governo elevou sua apropriação,
na forma de imposto, em algo próximo a 320 bilhões
de reais por ano. Esse valor é igual a quatro anos
de receita do estado de São Paulo! Imaginem o efeito
disso nas mãos do setor privado mais eficiente: ele
estaria produzindo mais investimentos, mais empregos e mais
salários. O contrafactual não reforça
algumas críticas ideológicas equivocadas às
políticas sociais do governo. Quando este é
incapaz de construir as condições para gerar
postos de trabalho socialmente úteis, ele deve, sim,
promover a assistência e melhorar a igualdade de oportunidade
para os menos favorecidos pelo mercado. No regime de sufrágio
universal, as políticas sociais são condição
da própria sobrevivência da economia de mercado.
Esta é compatível com a liberdade individual,
mas, sendo um processo competitivo feroz, ignora o desejo
de relativa igualdade impresso no DNA do Homo sapiens.
Sendo uma "competição", o mercado só
adquire o mínimo de moralidade quando todos os competidores,
no ponto de partida, têm capacidades relativamente iguais.
Esse é o papel das políticas sociais.
Encarar essa realidade
não é dar apoio à evidente ineficiência
do estado, mas reconhecer as condições objetivas
hoje existentes. Depois da Constituição de 1988,
não se pode esperar dele muito mais do que melhorar
a sua gestão no provimento dos bens públicos
que só ele pode fazer segurança interna
e externa, razoável grau de justiça, universalização
da saúde e da educação e a estabilidade
do valor da moeda. E, paralelamente, convencer os governos
que são o estado em trânsito de
que, se querem mesmo estimular o crescimento e o emprego,
devem levar em conta:
1. que não
há mágica: mais consumo presente é igual
a menor investimento futuro e, portanto, menor consumo futuro.
Em outras palavras, existe uma troca física intertemporal
entre o distributivismo e o crescimento que deve ser cuidadosamente
ponderada;
2. que a
solução fácil de aumentar a carga tributária
não pode mais ser repetida. Logo, os governos precisam
ser mais eficientes nos seus gastos e transferir para o setor
privado a infra-estrutura que podia fazer antes das tarefas
sociais que lhes impôs a Constituição
de 1988;
3. que os
sistemas de leilões desenvolvidos pela teoria econômica
permitem o mais eficiente uso dos recursos na transferência
para o setor privado das tarefas que o estado não pode
mais cumprir;
4. que o
setor privado só pode correr riscos bem avaliados e
limitados, o que exige, primeiro, o respeito absoluto à
propriedade privada e, segundo, a total estabilidade da regulação
por meio de agências bem concebidas;
5. que é
preciso estabilizar (não reduzir ou cortar) em termos
físicos, per capita, os gastos públicos, aprofundando
o seu controle para melhorar os serviços prestados
e, finalmente,
6. que é
necessário aproveitar o atual momento de bonança
para reduzir, lenta e seguramente, a relação
entre a carga tributária e o PIB.
Esses são
os estímulos fundamentais para colocar o Brasil na
trilha do crescimento acelerado com equilíbrio interno
e externo e mais justiça social.
* O economista Antonio Delfim Netto foi deputado
federal,
ministro da Agricultura e da Fazenda