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26 de setembro de 2007
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Brasil
Metade seu, metade dele

Os contribuintes precisam trabalhar dobrado
para pagar tributos embutidos nos produtos


Julia Duailibi e Cíntia Borsato

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A CPMF, o "imposto do cheque", que suga 0,38% de cada operação bancária feita por pessoas e empresas, é uma jabuticaba sul-americana. Somente a Argentina e a Colômbia também a utilizam. No Brasil, ela incide, sem perdão, sobre todas as etapas de produção. Por que ela é tão rara no mundo? Porque se convencionou, nos países com sistemas tributários lógicos, que nenhum tributo deveria ter efeito cumulativo. Caso contrário elevam-se os preços e produzem-se distorções incontornáveis. Essas distorções são especialmente graves em um país como o Brasil, em que a carga tributária já responde pela metade do preço da maioria dos produtos que consumimos. Como mostra a ilustração nesta página, os impostos representam 42% do preço de carros. Nos xampus e aparelhos de DVD, esse porcentual já supera 50%. Essa carga é típica de estados de bem-estar social. Nos países em que escolas e hospitais caem aos pedaços, torna-se um escárnio. Na prática, os contribuintes brasileiros precisam trabalhar dobrado para pagar os impostos e as contribuições embutidos nos preços.

Sem atentar para esse fardo, a Câmara dos Deputados aprovou, na semana passada, em 1º turno, a recriação do "imposto do cheque", que tinha data para acabar, em dezembro. Mas o governo quer empurrar sua validade para 2011. Para ser aprovada, a prorrogação deve ainda passar por mais uma rodada de votação na Câmara e por outras duas no Senado – é preciso votar duas vezes em cada Casa por se tratar de matéria constitucional. Durante o esforço concentrado para manter a CPMF, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou, na semana passada, que o tributo "não causa o malefício que se diz" porque sua alíquota, de 0,38%, é muito baixa. Não é bem assim. Por ser cumulativo, paga-se muito mais do que isso. A CPMF representa 2,36% do preço final de um automóvel, por exemplo. Isso porque, da matéria-prima bruta até o consumidor, existem seis etapas. Paga-se o tributo em cada uma delas, sem que as empresas possam compensar o fardo na etapa seguinte.

A pedido de VEJA, o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) fez outra simulação reveladora. Uma pessoa que tem 4.000 reais por mês para gastar com a aquisição de bens e serviços, por exemplo, entrega ao governo 76,80 reais via CPMF em transações simples, como o pagamento de aluguel ou a compra de sabonete. Se aplicasse esses recursos num fundo de renda fixa por quatro anos, período pelo qual o governo deseja estender a CPMF, teria 4.500 reais. Em dezoito anos, seriam quase 50.000. Em seus onze anos de existência, a versão atual da CPMF, que deveria durar apenas dois anos, já sugou dos brasileiros mais de 250 bilhões de reais. Só no Ministério da Saúde foram injetados cerca de 121 bilhões de reais desse valor sem que hospitais tenham melhorado ou epidemias, como a dengue, desaparecido (veja reportagem). Nas mãos do governo, esse dinheiro tende a se perder no ralo do desperdício e da corrupção.

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