O ministro
Mares Guia deve ser denunciado ao Supremo por operar o caixa dois dos tucanos
mineiros em 1998
Alexandre
Oltramari e José Edward
Gustavo
Miranda/Ag.O Globo
Mares
Guia: a Polícia Federal tem indícios de que ele chefiava o financiamento ilegal
da campanha de Eduardo Azeredo
O ministro das Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia,
é uma das estrelas do governo. Com grande capacidade de diálogo
e a confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, organizou
a maioria do governo no Congresso e, na semana passada, mostrou seu valor ao Planalto
ao conseguir aprovar a CPMF na Câmara. Apesar de vitórias como essa,
o futuro do ministro depende do procurador-geral da República, Antonio
Fernando Souza. Nas próximas semanas, Souza denunciará ao Supremo
Tribunal Federal os envolvidos nas operações de caixa dois realizadas
pelo PSDB mineiro em 1998, para abastecer a campanha de reeleição
do então governador do estado, Eduardo Azeredo. Oficialmente, o procurador
se nega a informar quem será incluído no rol dos acusados, mas confidenciou
a seus assessores que Mares Guia estará entre eles, juntamente com Azeredo.
O ministro, por sua vez, disse que deixará o governo se for denunciado.
O que se conclui dessas duas afirmações é que a permanência
de Mares Guia no Planalto é apenas uma questão de tempo.
O calvário de Mares Guia começou quando foi divulgada parte do inquérito
da Polícia Federal que investigou o esquema de financiamento ilegal da
campanha dos tucanos de Minas Gerais em 1998. Naquele ano, o ministro, que era
vice-governador de Azeredo, concorria a um mandato de deputado federal. Ele foi
substituído na chapa da reeleição de Azeredo pelo empresário
Clésio Andrade, então sócio do lobista carequinha Marcos
Valério. Andrade introduziu Marcos Valério no tucanato mineiro para
operar o caixa dois da eleição. No inquérito, o ministro
Mares Guia aparece na coordenação do esquema. Para provar sua tese,
a polícia apresentou três folhas manuscritas nas quais o ministro
lista as despesas da campanha. Os gastos descritos em apenas uma das folhas somam
12 milhões de reais. Azeredo, no entanto, só declarou 8,6 milhões
de reais à Justiça Eleitoral. A diferença foi coberta com
recursos de caixa dois. A investigação também revelou que
os serviços prestados pelo marqueteiro Duda Mendonça a Azeredo custaram
4,5 milhões de reais. Na prestação oficial de contas, Azeredo
informa que só pagou 700.000 reais a Duda. Em depoimento à polícia,
o tesoureiro da campanha, Cláudio Mourão, declarou que pagou a diferença,
com recursos do caixa dois, por ordem de Mares Guia.
A Polícia Federal conseguiu rastrear a origem de parte dos recursos gastos
por Azeredo. Descobriu que um bolo significativo saiu dos cofres públicos.
As empresas estatais de Minas, como a companhia energética e o banco estadual,
patrocinaram eventos esportivos promovidos pelas agências de publicidade
SMPB e DNA, ambas de Marcos Valério. Os contratos foram superfaturados
e o dinheiro que sobrou deles alimentou o caixa dois. Outra parte dos recursos
do tucanoduto veio de empréstimos bancários contraídos pela
SMPB e pela DNA pagos, é claro, com recursos de empreiteiras e fornecedores
contratados pelo governo mineiro.
Roberto
Jayme/AE
Azeredo:
hoje senador, ele se beneficiou do esquema coordenado por Mares Guia
O
tucanoduto também teria beneficiado aliados de Azeredo que estavam em campanha
naquele ano. Uma lista cuja autoria é atribuída ao tesoureiro Cláudio
Mourão arrola 159 políticos. A PF coletou provas contra 82 deles.
Não há nenhum indício concreto de que os demais 77 tenham
sido beneficiados. O procurador Antonio Fernando Souza está debruçado
sobre os documentos e depoimentos colhidos pela Polícia Federal para finalizar
sua denúncia. Ele estuda em que tipo de crime pode enquadrar cada um dos
operadores e beneficiários do esquema. O ministro Mares Guia pediu-lhe
um prazo de duas semanas para apresentar uma nova defesa. Sua permanência
no ministério torna-se mesmo inviável se ele não provar sua
inocência ao procurador e acabar denunciado ao Supremo Tribunal Federal.