O
senador Renan Calheiros escapou do primeiro processo de cassação
com a ajuda dos parlamentares do PT e o aval do governo. Em troca, assumiu o compromisso
de se afastar da presidência do Congresso até a conclusão
dos outros três processos que tramitam contra ele no Conselho de Ética.
Na semana passada, depois de um breve descanso em Maceió, Renan voltou
à presidência. Ele negou que tivesse feito algum acordo. Mas fez
e, pior, não cumpriu.
Os petistas,
com razão, espernearam. O sempre discreto senador Tião Viana, vice-presidente
do Congresso, reagiu: "A curto prazo, o cenário é de crise intensa;
a disposição de Renan de se manter no comando da Casa causará
problemas ao governo". Depois foi a vez de Aloizio Mercadante, o mais ativo defensor
da absolvição de Renan e fiador do acordo: "O melhor para o senador
Renan é que ele se licencie da presidência do Senado. Eu já
disse isso reservadamente a ele, mas hoje me associo a todos os que pensam dessa
forma". O presidente Lula, de quem Renan esperava uma manifestação
de apoio mais contundente, continuou dizendo que o caso é um problema interno
do Senado.
Para não cumprir o acordo,
Renan Calheiros apontou para o peito dos aliados do PT sua arma predileta: a chantagem.
Renan é dono de um arquivo de informações que, usadas irresponsavelmente
contra seus colegas de Parlamento, podem ser devastadoras. Ele começou
a fazer vazar para a imprensa segredos que podem arranhar a imagem dos petistas.
A primeira vítima foi exatamente o senador Tião Viana, tão
zeloso na tarefa anterior de absolver Renan. Assessores de Renan cuidaram de divulgar
que Viana mantinha uma funcionária-fantasma em seu gabinete.
Ed
Viggiani/AE
Protesto
nas ruas de São Paulo contra a absolvição do senador por
falta de decoro parlamentar
A corda entre os petistas e Renan Calheiros começou a esticar já
na segunda-feira passada. Renan foi procurado em seu gabinete pelo próprio
Tião Viana, portador de uma mensagem partidária: os petistas exigiam
seu afastamento imediato, conforme o combinado. Renan disse que não arredaria
o pé da presidência e fez ameaças veladas. Tentou mostrar
que uma cisão com os petistas não interessaria a ninguém
muito menos a ele, Tião Viana. No dia seguinte, o jornal Correio
Braziliense publicou que o petista mantinha uma funcionária-fantasma
em seu gabinete. Silvania Gomes Timóteo, segundo o departamento pessoal
do Senado, recebia mais de 6.000 reais de salário, mas nunca apareceu para
trabalhar. Ela batia ponto na sede nacional do PT, em Brasília, onde assessora
o tesoureiro do partido. Constrangido, Tião foi obrigado a dar explicações
sobre o caso. Entre os petistas não há dúvidas de que a denúncia
saiu do gabinete de Renan. "Não vou entrar no mérito agora nem acusar
sem provas. Mas vou descobrir o autor dessa injustiça", afirma Viana. Não
era propriamente uma injustiça, tanto que Tião Viana demitiu a funcionária-fantasma.
Renan Calheiros montou seu dossiê
com informações comprometedoras contra os colegas usando a estrutura
funcional do Senado atitude indecorosa que, sozinha, já seria causa
para abertura de um processo administrativo contra Calheiros. Logo após
a revelação de que ele tinha as despesas pessoais pagas por um lobista
de empreiteira, o senador começou a preparar sua artilharia de defesa.
Convocou a seu gabinete o diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, a secretária
da Mesa, Cláudia Lyra, e o primeiro-secretário, senador Efraim Morais.
Distribuiu tarefas a cada um deles. Agaciel foi encarregado de listar todas as
contratações feitas pelos senadores. Efraim recebeu a missão
de escarafunchar a prestação de contas da verba indenizatória
que os parlamentares recebem a cada mês e elaborar uma relação
de todas as viagens oficiais feitas por cada um dos senadores. Cláudia
Lyra fez um mapeamento de projetos de interesse dos senadores junto ao governo.
Renan ainda pediu a assessores do gabinete que reunissem detalhes dos processos
criminais que tramitam na Justiça contra cada um dos senadores. Em um computador,
Renan acrescentou aos arquivos dados de sua própria memória das
relações com o governo, em que não faltam histórias
de favores, nem sempre lícitos, prestados a alguns colegas. A munição
reunida, segundo assessores do presidente, poderia levar um terço dos senadores
ao Conselho de Ética. Seria um trunfo para Renan provar que não
é pior do que ninguém no Senado.
A oposição acredita que pelo menos dez senadores do PSDB e do DEM
tenham votado pela absolvição de Renan Calheiros motivados pelo
que consta sobre eles nas fichas do presidente do Congresso. Agora, o arsenal
está apontado para a testa dos petistas que ameaçam se rebelar.
Além de Tião Viana, outros três senadores do PT estão
na mira de Renan. O ex-líder do governo, Aloizio Mercadante, surpreendeu
todos ao pedir votos contra a cassação do presidente do Congresso.
Mercadante tinha lá seus compromissos com o governo, mas Renan deu uma
ajudazinha. Fez chegar a Mercadante a notícia de que ele guarda reminiscências
de uma certa reunião ocorrida no fim do ano passado, logo depois da eleição
presidencial, da qual participaram, além do próprio Renan, líderes
do PSDB e do Democratas. Mercadante teve assessores envolvidos no escândalo
do chamado "dossiê dos aloprados", e a oposição queria pedir
a abertura de um processo contra ele no Conselho de Ética. Com sua habilidade
negocial, Renan conseguiu convencer os líderes a desistir da idéia.
"Ele pode estar usando isso contra mim, mas nunca lhe pedi que me defendesse.
Não fui denunciado, não existe nenhuma prova do meu envolvimento",
diz Mercadante.
Na ficha que Renan guarda
sobre a senadora petista Serys Slhessarenko está registrada outra história
de gratidão. Serys foi apontada como um dos parlamentares envolvidos na
máfia dos sanguessugas. Seu genro, funcionário do gabinete em Brasília,
recebeu dinheiro da empresa beneficiada com verbas do Orçamento liberadas
a partir de emendas apresentadas pela senadora petista. Renan articulou com sucesso
para livrar a senadora de um processo de cassação e nunca revelou
os detalhes do que sabe sobre o envolvimento dos petistas com os sanguessugas.
"Renan nunca me ajudou e eu nunca precisei de ajuda, porque sou inocente", diz
Serys. A líder do partido, Ideli Salvatti, uma canina defensora de Calheiros,
é o alvo mais precioso das ameaças do senador. Renan já mandou
dizer à senadora que instalará a CPI das ONGs assim que Ideli ou
o PT derem sinal de que mudaram de lado. Ideli tem ligações umbilicais
com petistas de ONGs envolvidas em desvios e financiamentos irregulares de campanhas
em Santa Catarina, seu berço político. Na semana passada, em reunião
da bancada do PT, oito dos doze senadores do partido defenderam que se fizesse
uma manifestação formal pelo afastamento de Renan. Mas Ideli, ainda
exercendo o papel de diligente defensora de Calheiros, convenceu os colegas a
desistir da proposta em nome da "paz no Senado". Um confronto verdadeiro do PT
com Renan Calheiros seria letal para o senador. Mas os senadores do PT estão
dispostos a pagar o ônus para suas imagens que a artilharia de Renan pode
provocar? Tomara que sim. O Brasil agradeceria.