"O
pior mesmo é que a semelhança entre um caso e outro irrompe naquilo que há
de mais repulsivo nos dois esquemas: o desvio de dinheiro público"
Então, são todos iguais? Então, no escuro do poder, petistas
viram petralhas e tucanos viram tucanalhas? A pior coisa que pode acontecer para
o Brasil é triunfar a noção, cada vez mais disseminada, de
que todos os políticos são iguais. Afinal, um país se constrói
pela via da política. E a idéia de que todos são iguais,
sendo igualmente desonestos e picaretas, não desmoraliza apenas os políticos.
Atinge a própria política. E o sentido da política, já
dizia Hannah Arendt, é a liberdade. Renunciar à política
é, portanto, renunciar à liberdade.
A comparação linear entre o mensalão do PT e o trambique
do tucano Eduardo Azeredo em Minas Gerais é incorreta. Não são
esquemas iguais. Eles se parecem na forma, mas se distinguem no conteúdo.
A semelhança aparece porque, nos dois casos, o operador é o ex-carequinha
Marcos Valério, os empréstimos fajutos são feitos junto ao
Banco Rural, os repasses clandestinos saem do cofre da SMPB.
O conteúdo, no entanto, é distinto. No caso tucano, pelo que se
sabe até agora, é um caixa dois eleitoral. É um crime, mas
o crime é esse. No caso petista, o mensalão também teve seu
lado de caixa dois eleitoral, mas foi bem mais do que isso. Serviu sobretudo para
subornar outro poder, trocando apoio por dinheiro e violando um princípio
basilar da democracia. Simbolicamente, os petistas fecharam as portas da Câmara
dos Deputados e foram às compras. No bazar das consciências de suas
excelências, arremataram as mais baratas, as mais convenientes. É
corrupção ativa e passiva. E é, também, um crime de
lesa-democracia.
O esquema
do PT em Brasília é pior do que o do PSDB em Minas? Talvez seja,
sobretudo porque o mensalão tomou a estrutura do PT, com adesão
de toda a sua antiga cúpula, mostrando que a roubalheira tinha uma espécie
de chancela institucional. No caso tucano, não há indicações
de que a pilantragem de Eduardo Azeredo tenha sido organizada e executada pela
cúpula nacional do PSDB. É uma diferença de escala. Mas o
pior mesmo é que as diferenças entre um caso e outro não
vão muito além disso. E as semelhanças irrompem naquilo que
há de mais repulsivo nos dois esquemas: o desvio de dinheiro público.
No mensalão do PT,
as investigações levantaram a suspeita de que o esquema foi abastecido
com dinheiro público desviado do Banco do Brasil, da Eletronorte, dos Correios
e do Ministério do Esporte, além da própria Câmara
dos Deputados. No caso tucano, o relatório da Polícia Federal aponta
indícios bastante sólidos de que o caixa dois de Azeredo foi irrigado
com dinheiro público desviado por meio de contratos celebrados por Marcos
Valério com o banco mineiro e mais três estatais, dos setores de
mineração, energia elétrica e saneamento. Aqui, petistas
viram petralhas e tucanos viram tucanalhas. São ladrões. São
trombadinhas de impostos. São assaltantes dos cofres públicos.
Os tucanos ainda têm uma chance de marcar a diferença. Em vez de
fazer como o PT, que miou fininho diante da roubalheira, o PSDB deve expulsar
Azeredo de suas fileiras já. Aliás, deveria ter feito isso há
muito tempo. Do contrário, tucanos e petistas ficarão cada vez mais
iguais. E vamos todos ficar reduzidos àquela comparação infame: