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Baile
da saudade
Bob
Dylan mergulha nos estilos do
passado em seu novo e surpreendente
álbum, Love and Theft
Carlos
Graieb
Quando
um artista chega aos 60 anos ainda na ativa, sua única obrigação
é não trair o espírito da própria obra. Mas
qual o espírito da obra de Bob Dylan? Para seus fãs de primeira
hora, aqueles que assistiram à sua espetacular entrada em cena,
quatro décadas atrás, a resposta a essa pergunta provavelmente
será: revolução. Dylan foi um dos grandes instigadores
das estripulias dos anos 60: provocador de voz rascante e cheio de carisma,
defensor dos direitos civis, destemido experimentador de drogas e autor
daquelas longas letras enigmáticas. Se for esse o caso, porém,
estamos diante de uma má notícia. Pois há muitíssimo
tempo a música de Dylan não tem mais nada a ver com revolução.
Talvez desde 1966, data da célebre turnê durante a qual a
platéia com freqüência se transformava em campo de batalha,
enquanto no palco um cantor invariavelmente entupido de "estimulantes"
apresentava um show metade acústico, metade pura barulheira elétrica.
Partamos então para outra hipótese: a de que o ícone
Bob Dylan pode até ser um revolucionário, mas o cantor e
compositor é antes de mais nada um genial arqueólogo do
cancioneiro de seu país. Foi assim que ele estreou, em 1962, num
álbum composto quase que exclusivamente de músicas antigas.
E foi assim que voltou a se divertir nos anos 90, depois de mais de uma
década de tropeços: revirando o baú das velharias
musicais. "Todas as minhas canções, todos os estilos com
que trabalho, se desenvolveram antes de eu nascer", disse ele numa entrevista
recente. Se o espírito do trabalho de Dylan é reinterpretar
o passado, então Love and Theft, seu novo disco,
merece um lugar de destaque no catálogo do artista.
Love
and Theft não traz propriamente músicas antigas, mas
canções ao modo de épocas passadas. A gravação
do álbum durou somente duas semanas. A maioria das doze faixas
foi registrada em uma única vez, sem muitos ajustes posteriores.
Dylan explora uma bela gama de gêneros, do country ao ragtime, da
balada romântica ao blues de raiz. Há composições
energéticas, como o rocão Tweedle Dee & Tweedle Dum
e o rockabilly Summer Days, em que o cantor parece querer homenagear
Little Richard, seu ídolo musical de infância. E há
outras completamente inusitadas, como as baladas Moonlight e Bye
and Bye. "Vou indo devagar, fazendo o que sei fazer / O futuro para
mim já é coisa do passado", canta Dylan nesta última.
Um crooner como Bing Crosby ou Dean Martin poderia ter interpretado a
melodia que, no entanto, ganha uma dimensão quase cômica
na voz esganiçada de Dylan. O humor, aliás, é um
traço marcante de Love and Theft. Inclusive no visual do
cantor, que assumiu as roupas e o bigodinho de um vilão de vaudeville
para divulgá-lo. Depois da atmosfera soturna de seu disco anterior,
Time out of Mind (1997), Dylan certamente está se divertindo.
E o ouvinte se diverte com ele.
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