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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Baile da saudade

Bob Dylan mergulha nos estilos do
passado em seu novo e
surpreendente
álbum, Love and Theft

Carlos Graieb

Quando um artista chega aos 60 anos ainda na ativa, sua única obrigação é não trair o espírito da própria obra. Mas qual o espírito da obra de Bob Dylan? Para seus fãs de primeira hora, aqueles que assistiram à sua espetacular entrada em cena, quatro décadas atrás, a resposta a essa pergunta provavelmente será: revolução. Dylan foi um dos grandes instigadores das estripulias dos anos 60: provocador de voz rascante e cheio de carisma, defensor dos direitos civis, destemido experimentador de drogas e autor daquelas longas letras enigmáticas. Se for esse o caso, porém, estamos diante de uma má notícia. Pois há muitíssimo tempo a música de Dylan não tem mais nada a ver com revolução. Talvez desde 1966, data da célebre turnê durante a qual a platéia com freqüência se transformava em campo de batalha, enquanto no palco um cantor invariavelmente entupido de "estimulantes" apresentava um show metade acústico, metade pura barulheira elétrica. Partamos então para outra hipótese: a de que o ícone Bob Dylan pode até ser um revolucionário, mas o cantor e compositor é antes de mais nada um genial arqueólogo do cancioneiro de seu país. Foi assim que ele estreou, em 1962, num álbum composto quase que exclusivamente de músicas antigas. E foi assim que voltou a se divertir nos anos 90, depois de mais de uma década de tropeços: revirando o baú das velharias musicais. "Todas as minhas canções, todos os estilos com que trabalho, se desenvolveram antes de eu nascer", disse ele numa entrevista recente. Se o espírito do trabalho de Dylan é reinterpretar o passado, então Love and Theft, seu novo disco, merece um lugar de destaque no catálogo do artista.

Love and Theft não traz propriamente músicas antigas, mas canções ao modo de épocas passadas. A gravação do álbum durou somente duas semanas. A maioria das doze faixas foi registrada em uma única vez, sem muitos ajustes posteriores. Dylan explora uma bela gama de gêneros, do country ao ragtime, da balada romântica ao blues de raiz. Há composições energéticas, como o rocão Tweedle Dee & Tweedle Dum e o rockabilly Summer Days, em que o cantor parece querer homenagear Little Richard, seu ídolo musical de infância. E há outras completamente inusitadas, como as baladas Moonlight e Bye and Bye. "Vou indo devagar, fazendo o que sei fazer / O futuro para mim já é coisa do passado", canta Dylan nesta última. Um crooner como Bing Crosby ou Dean Martin poderia ter interpretado a melodia – que, no entanto, ganha uma dimensão quase cômica na voz esganiçada de Dylan. O humor, aliás, é um traço marcante de Love and Theft. Inclusive no visual do cantor, que assumiu as roupas e o bigodinho de um vilão de vaudeville para divulgá-lo. Depois da atmosfera soturna de seu disco anterior, Time out of Mind (1997), Dylan certamente está se divertindo. E o ouvinte se diverte com ele.

 

   
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