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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Afeganistão, um país miserável e guerreiro
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Como a companhia aérea israelense se defende do terror
O cinema-catástrofe depois que a realidade superou a ficção
A rede do terrorismo
Os homens do presidente
Como mais de 6.000 corpos desapareceram nos escombros
O que é o Islã
O esforço de reconstrução e as previsões para a economia
Ódio à diferença: o milenar estranhamento entre os homens

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A batalha econômica

As providências tomadas depois
dos ataques terroristas nos EUA
podem possibilitar a retomada do
crescimento do país



Reuters
O TOURO DE WALL STREET
O símbolo da prosperidade do mercado foi limpo e cravado de bandeiras americanas para a reabertura dos negócios nas bolsas de valores, na última segunda-feira


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As guerras e a economia
O touro de metal está lá, no centro financeiro de Nova York, em posição de arrancada. Corretores quando passam por perto deslizam a mão sobre sua cabeça. É um gesto que, acreditam, atrai a sorte. O touro é o símbolo do capitalismo em seus momentos mais felizes. Para o afundamento do mercado, há outro ícone, o urso. E assim tem funcionado o capitalismo, alternando opulência e esfriamento desde que começou a existir, séculos atrás. Pois bem, o mundo entrou numa maré negativa que perseguiu o Japão por uma década, cercou a Europa e acabou amarrando as pernas até dos Estados Unidos nos últimos meses. Por fim, veio o terror do World Trade Center e do Pentágono – e as profecias tornaram-se instantaneamente apocalípticas. O golpe na economia mundial está sendo duro. As bolsas americanas caíram cinco dias seguidos. No Brasil, o dólar ultrapassou os 2,80 reais. Mas, por mais que pareça uma ofensa ao bom senso, o otimismo com a recuperação da economia não é infundado. Apesar dos escombros e do choque com o terror, as sementes do crescimento econômico estão bem plantadas e vão germinar.

Em sua história de altos e baixos, o capitalismo sempre se reinventou. Acabaria por se recuperar da recessão que o esfriou nos últimos tempos. Os Estados Unidos produzem cerca de 10 trilhões de dólares todos os anos. Têm sido a locomotiva que puxa o crescimento econômico do planeta. Ninguém acha que sua economia seja profundamente instável. Não há problemas bancários ou imobiliários sérios, não há desemprego em massa e não há inflação que impeça cortes nas taxas de juro. As providências para que o país saia do atoleiro estão sendo tomadas, e seus efeitos serão sentidos não apenas em território americano. O momento não parece apropriado para otimismo, mas existe chance real de que o mundo saia do furacão do World Trade Center mais integrado, e por isso com maior potencial de enriquecimento.


Reuters
A BOLSA DE NOVA YORK
Na terça-feira, uma semana depois das explosões, ainda havia tanta poeira em Wall Street que as pessoas tinham de usar máscaras para chegar à bolsa. O índice Dow Jones caiu 0,19%

A história mostra que os abalos econômicos têm
a vantagem de eliminar do sistema alguns de seus
pontos fracos. Também há, em crises como essa, em que os EUA se empenham em caçar o terror – e podem
até fazer guerra –, uma tendência paradoxal de incentivar avanços tecnológicos, que impulsionam o crescimento. O momento atual reúne os dois ingredientes.

Algumas razões para não ser tão pessimista:

A economia passou a ser tratada como questão estratégica. Os países capitalistas estão trabalhando em conjunto para garantir que o sistema se mantenha saudável. Na última segunda-feira, os bancos centrais da União Européia, Suíça, Canadá, Japão e Estados Unidos cortaram suas taxas internas de juro. Além disso, injetaram cerca de 120 bilhões de dólares no mercado financeiro. A operação coordenada é inédita. Foi acertada por telefone em menos de seis dias – o que dá a medida da importância que as autoridades econômicas estão atribuindo ao momento atual. "Espera-se que a recuperação mundial venha à medida que a América entre em processo de cicatrização", diz Stephen Roach, economista-chefe e diretor de economia global do banco Morgan Stanley.

Na última década, os americanos flertaram com o isolacionismo. Hoje, embora haja alguns espasmos protecionistas e xenófobos, os Estados Unidos sabem que só poderão combater o terrorismo se criarem uma coalizão de escala planetária. Os acordos políticos deverão refletir-se em aproximações comerciais. Por que isso é importante? Porque o comércio é responsável por um quarto da produção global de riqueza. Se ele cresce, o mundo prospera. "O isolacionismo está definitivamente fora da mesa de debates", diz Francis Fukuyama, professor de política econômica internacional na Universidade Johns Hopkins.

No ano passado, as bolsas americanas lidaram com papéis cujo valor de mercado era 155% maior que o PIB americano – um exagero flagrante. Na semana passada, quando as bolsas de Nova York reabriram, após o atentado ao World Trade Center, a capitalização do mercado de ações já correspondia a 100% do PIB americano. "Uma fatalidade acabou fazendo com que os ajustes ocorressem mais rapidamente do que se esperava. Daqui a um ano acho que olharemos para trás e diremos: 'Sim, foi um evento terrível, mas não empurrou a economia precipício abaixo'", diz William Poole, presidente do Federal Reserve de Saint Louis, um dos bancos centrais regionais americanos.

Reuters
UNIÃO CONTRA A RECESSÃO
Presidentes de sindicatos de trabalhadores de montadoras de automóveis reuniram-se para tentar impedir um maior esfriamento da economia

Houve uma grande queda nos estoques mantidos pelas empresas americanas no primeiro semestre deste ano. Somados, eles caíram cerca de 65 bilhões de dólares. Se o consumidor não ficar de carteira fechada em decorrência do medo da crise, é de esperar que as empresas comecem agora a repor seu estoque. E há espaço para isso. A utilização da capacidade instalada da indústria é a menor desde 1983. Crescer, portanto, não é complicado. "Os americanos já perceberam que existe um esforço organizado para manter a estabilidade econômica, e por isso deverão ficar mais confiantes, o que é fundamental para a retomada do crescimento econômico", diz Gail Fosler, do Conference Board, organismo do governo que apura o índice de confiança do consumidor americano.

O governo americano está abrindo os cofres. O Congresso aprovou um pacote de 40 bilhões de dólares para gastos de emergência, e mais verbas provavelmente virão quando começar o planejamento para aumentar a segurança interna e efetuar ações militares. As empresas de aviação civil, as maiores prejudicadas pelos atentados terroristas, serão socorridas. E na última quarta-feira o presidente George W. Bush anunciou que sua equipe está preparando um pacote adicional de medidas para reativar a economia. "Esse é o melhor modo de promover o crescimento. Os gastos do governo criam empregos agora, quando precisamos deles. E gente empregada consome", diz o economista Paul Krugman, professor da Universidade Princeton.

O movimento dos consumidores americanos é responsável por dois terços do que se produz nos Estados Unidos. Eles andavam meio desanimados nos últimos meses. Estavam endividados e havia uma onda de demissões que trazia insegurança. Agora, em meio a uma enxurrada de anúncios de demissões, muitos aparentemente estão acreditando que tempos melhores poderão vir. Os juros caíram, existe a perspectiva de criação de empregos no bojo do esforço pela recuperação do país e o governo autorizou um corte nos impostos. Os americanos receberão um reforço de caixa de 40 bilhões de dólares. "No curtíssimo prazo, obviamente, haverá conseqüências adversas, mas não vejo razão para ficar menos otimista a partir de 2002", diz Glenn Hubbard, presidente do conselho de assessores econômicos do presidente George W. Bush.

Um passeio pela história demonstra que tradicionalmente os americanos reagem bem a períodos críticos. Terminada a I Guerra Mundial, o país experimentou mais de uma década de prosperidade crescente. A renda per capita aumentou 25% entre 1921 e 1929. Em 1929, a General Motors produzia 35% dos automóveis consumidos no mundo, a United States Steel, 32% do aço, e a Kodak, 75% dos produtos fotográficos utilizados no planeta.


AFP
Reuters
TITÃS DE WALL STREET
O investidor George Soros, que teme a recessão, e o presidente do banco central, Alan Greenspan, que se diz confiante na recuperação americana

A embriaguez foi tamanha que resultou na quebra da bolsa, em 1929, e na II Guerra Mundial, uma década mais tarde. Essa fase foi terrível. Só nos Estados Unidos faliram 4.000 bancos e 85.000 empresas. O PIB do país caiu à metade. Mas a reação veio rápido. O governo de Franklin Roosevelt concedeu crédito ilimitado aos bancos, subsidiou o salário-desemprego, fixou preços. Ao final da II Guerra, os Estados Unidos produziam 50% da riqueza mundial. Houve crescimento também após a Guerra da Coréia, a do Vietnã e a do Golfo. E depois da crise do petróleo da década de 70. "Em momentos de ameaça, os americanos se unem em torno de suas bandeiras", diz o economista Rudiger Dornbusch, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Este, aparentemente, é um daqueles momentos históricos em que a falência do sistema revela o germe da recuperação. É preciso, no entanto, não simplificar demais as coisas. O mundo terá de enfrentar um período de dificuldade antes de poder afrouxar o cinto. A experiência mostra que a economia se recupera mais rapidamente de guerras curtas, como a do Golfo, em 1990, que de longos combates, como a Guerra do Vietnã. Para o bem de todos, seria muito bom se o embate contra o terrorismo pudesse ser relâmpago.

 
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