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AP

TRABALHO
PESADO
Em meio a gases tóxicos e destroços quentes, 300 cães
farejadores foram usados para localizar vítimas. Vários
se feriram. Pelo menos um morreu ao cair num buraco |
Os funcionários da corretora Cantor Fitzgerald, na torre norte
do World Trade Center, costumavam assumir o posto de trabalho, entre o
101º e o 105º andares, por volta das 7 horas da manhã.
Ligados à operação da bolsa de valores, eles adiantavam
a programação do dia e estavam com tudo arrumado quando
se iniciava o pregão, às 9 e meia. Mais de 700 deles morreram
quando os andares foram atingidos em cheio pelo Boeing 767 em 11 de setembro.
Nenhum teve o corpo localizado até o fim da semana passada, e provavelmente
só alguns dos que foram atirados para fora do prédio no
momento da explosão poderão ter os restos mortais entregues
à família. Quanto mais os bombeiros e voluntários
escavam a cordilheira de entulho das torres do World Trade Center
uma pilha de prejuízos na casa das três dezenas de bilhões
de dólares , mais fica claro que milhares de parentes e amigos
não poderão chorar sobre os corpos de seus mortos. Até
o fim da semana passada, 60 000 toneladas de aço, vidro e concreto
tinham sido tiradas do local. Isso não dá um décimo
do volume deixado pelo atentado terrorista. Mas a montanha de destroços
já foi vasculhada, num processo que levou a encontrar apenas 241
corpos com um total de identificados abaixo de duas centenas.
As
autoridades registraram 6 300 pessoas desaparecidas. De mais de metade
delas já há amostras de DNA enviadas pelos familiares
fios de cabelo, roupas, escova de dentes. Noutros casos, pais e descendentes
doaram amostras de material genético para comparação
com o de vítimas desfiguradas. Mas só 400 partes de corpos
foram encontradas. "São mínimas as possibilidades de ainda
haver sobreviventes", resignou-se na terça-feira o prefeito Rudolph
Giuliani. Dos escombros dos prédios, apenas sete vítimas
saíram com vida. Dessas, quatro eram bombeiros aprisionados pelo
desabamento do primeiro edifício. Dois
outros bombeiros passaram horas perdidos num buraco de 5 metros de profundidade,
no qual caíram quando tentavam escalar as ruínas de uma
ala do conjunto. Somente uma mulher, Genelle Guzman, de 31 anos, pode
ser considerada sobrevivente da catástrofe. Descendo pelas escadas,
ela estava no 13º andar quando a estrutura ruiu. Duas grandes placas
de concreto acabaram criando uma tenda sobre seu corpo, que a protegeu
do esmagamento. Ela foi encontrada 26 horas depois e se tornou a exceção
ao destino de quem não conseguiu fugir do local antes do desmoronamento.
Quando vem
abaixo uma estrutura de aço e concreto de mais de 400 metros de
altura, tudo se mistura na queda. Andares mais altos, construídos
com materiais mais leves, podem acabar embaixo das partes mais pesadas,
as inferiores. Não há lógica nos escombros. As equipes
de resgate utilizam equipamentos e técnicas especiais para examinar
os destroços. Com a coordenação de técnicos
experimentados no trabalho em áreas atingidas por terremotos e
furacões, elas agiram seguindo um manual específico para
essas situações. Primeiro, bombeiros encharcaram toda a
superfície, para resfriar o material e diminuir a poeira no ar.
A água penetra no entulho, ajuda a reduzir focos de incêndio
internos e, como já se viu em outros casos, permite que eventuais
sobreviventes presos lá dentro tenham chance de se manter hidratados
até ser alcançados pelo socorro. Na noite posterior ao atentado,
uma chuva forte ajudou nesse trabalho. Os primeiros a entrar na área
são especialistas em estruturas, que avaliam o risco de novos desabamentos
e providenciam calços e redes para que outros trabalhem com segurança.
No passo
seguinte, cães percorrem o terreno, para farejar vítimas
soterradas. Quando encontram um morto, deitam-se no local. Se acham alguém
vivo, começam a cavar. Cerca de 300 cachorros foram mandados para
o WTC. Voluntários organizaram na rua um hospital veterinário
para eles. A cada duas horas, os animais têm de parar para lavar
os olhos, tomar injeção de antibiótico, fazer curativos
em ferimentos provocados por escombros, tratar queimaduras e recuperar
o faro. Até eles enfrentam dificuldade para trabalhar entre corpos
em decomposição.
Cada pequeno
destroço é catado e depositado em baldes. Partes de corpos
vão para caminhões frigoríficos e dali para os necrotérios.
O prefeito encomendou 30.000 sacos especiais
para transportar mortos, membros ou órgãos achados na área.
Quase nada ainda foi usado. O entulho segue para um aterro, onde será
descarregado diante de outras equipes, que o examinarão novamente.
O FBI fica com o que seja supostamente peça de algum dos aviões.
Nos restos dos prédios, só então os serralheiros
iniciam o corte das vigas e pilares grandes, que são removidos
por guindastes que podem erguer um peso equivalente ao de 25 ônibus
urbanos. Essa ordem de trabalho evita mais impacto sobre os soterrados,
mas no WTC ela pouco ajuda. Os estragos provocados pelo atentado criaram
um cenário inédito na história das catástrofes.
Ali aconteceram, conjuntamente, uma explosão com o poder de destruição
de 100 toneladas de dinamite, um incêndio de graduação
comparável à de um forno crematório e o desmoronamento
de duas das maiores estruturas verticais fincadas no planeta. Isso acabou
pulverizando os restos mortais de centenas das vítimas.
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