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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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AP

TRABALHO PESADO
Em meio a gases tóxicos e destroços quentes, 300 cães farejadores foram usados para localizar vítimas. Vários se feriram. Pelo menos um morreu ao cair num buraco


Os funcionários da corretora Cantor Fitzgerald, na torre norte do World Trade Center, costumavam assumir o posto de trabalho, entre o 101º e o 105º andares, por volta das 7 horas da manhã. Ligados à operação da bolsa de valores, eles adiantavam a programação do dia e estavam com tudo arrumado quando se iniciava o pregão, às 9 e meia. Mais de 700 deles morreram quando os andares foram atingidos em cheio pelo Boeing 767 em 11 de setembro. Nenhum teve o corpo localizado até o fim da semana passada, e provavelmente só alguns dos que foram atirados para fora do prédio no momento da explosão poderão ter os restos mortais entregues à família. Quanto mais os bombeiros e voluntários escavam a cordilheira de entulho das torres do World Trade Center – uma pilha de prejuízos na casa das três dezenas de bilhões de dólares –, mais fica claro que milhares de parentes e amigos não poderão chorar sobre os corpos de seus mortos. Até o fim da semana passada, 60 000 toneladas de aço, vidro e concreto tinham sido tiradas do local. Isso não dá um décimo do volume deixado pelo atentado terrorista. Mas a montanha de destroços já foi vasculhada, num processo que levou a encontrar apenas 241 corpos – com um total de identificados abaixo de duas centenas.

As autoridades registraram 6 300 pessoas desaparecidas. De mais de metade delas já há amostras de DNA enviadas pelos familiares – fios de cabelo, roupas, escova de dentes. Noutros casos, pais e descendentes doaram amostras de material genético para comparação com o de vítimas desfiguradas. Mas só 400 partes de corpos foram encontradas. "São mínimas as possibilidades de ainda haver sobreviventes", resignou-se na terça-feira o prefeito Rudolph Giuliani. Dos escombros dos prédios, apenas sete vítimas saíram com vida. Dessas, quatro eram bombeiros aprisionados pelo desabamento do primeiro edifício. Dois outros bombeiros passaram horas perdidos num buraco de 5 metros de profundidade, no qual caíram quando tentavam escalar as ruínas de uma ala do conjunto. Somente uma mulher, Genelle Guzman, de 31 anos, pode ser considerada sobrevivente da catástrofe. Descendo pelas escadas, ela estava no 13º andar quando a estrutura ruiu. Duas grandes placas de concreto acabaram criando uma tenda sobre seu corpo, que a protegeu do esmagamento. Ela foi encontrada 26 horas depois e se tornou a exceção ao destino de quem não conseguiu fugir do local antes do desmoronamento.



Quando vem abaixo uma estrutura de aço e concreto de mais de 400 metros de altura, tudo se mistura na queda. Andares mais altos, construídos com materiais mais leves, podem acabar embaixo das partes mais pesadas, as inferiores. Não há lógica nos escombros. As equipes de resgate utilizam equipamentos e técnicas especiais para examinar os destroços. Com a coordenação de técnicos experimentados no trabalho em áreas atingidas por terremotos e furacões, elas agiram seguindo um manual específico para essas situações. Primeiro, bombeiros encharcaram toda a superfície, para resfriar o material e diminuir a poeira no ar. A água penetra no entulho, ajuda a reduzir focos de incêndio internos e, como já se viu em outros casos, permite que eventuais sobreviventes presos lá dentro tenham chance de se manter hidratados até ser alcançados pelo socorro. Na noite posterior ao atentado, uma chuva forte ajudou nesse trabalho. Os primeiros a entrar na área são especialistas em estruturas, que avaliam o risco de novos desabamentos e providenciam calços e redes para que outros trabalhem com segurança.

No passo seguinte, cães percorrem o terreno, para farejar vítimas soterradas. Quando encontram um morto, deitam-se no local. Se acham alguém vivo, começam a cavar. Cerca de 300 cachorros foram mandados para o WTC. Voluntários organizaram na rua um hospital veterinário para eles. A cada duas horas, os animais têm de parar para lavar os olhos, tomar injeção de antibiótico, fazer curativos em ferimentos provocados por escombros, tratar queimaduras e recuperar o faro. Até eles enfrentam dificuldade para trabalhar entre corpos em decomposição.

Cada pequeno destroço é catado e depositado em baldes. Partes de corpos vão para caminhões frigoríficos e dali para os necrotérios. O prefeito encomendou 30.000 sacos especiais para transportar mortos, membros ou órgãos achados na área. Quase nada ainda foi usado. O entulho segue para um aterro, onde será descarregado diante de outras equipes, que o examinarão novamente. O FBI fica com o que seja supostamente peça de algum dos aviões. Nos restos dos prédios, só então os serralheiros iniciam o corte das vigas e pilares grandes, que são removidos por guindastes que podem erguer um peso equivalente ao de 25 ônibus urbanos. Essa ordem de trabalho evita mais impacto sobre os soterrados, mas no WTC ela pouco ajuda. Os estragos provocados pelo atentado criaram um cenário inédito na história das catástrofes. Ali aconteceram, conjuntamente, uma explosão com o poder de destruição de 100 toneladas de dinamite, um incêndio de graduação comparável à de um forno crematório e o desmoronamento de duas das maiores estruturas verticais fincadas no planeta. Isso acabou pulverizando os restos mortais de centenas das vítimas.

 

 

   
 
   
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