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Este país já está arrasadoO
miserável Afeganistão diante
da
A montanha é o outro aliado desse país de geografia caprichosa, bordado por penhascos e desfiladeiros onde guerreiros de ferocidade legendária infligiram derrotas tremendas a dois impérios o britânico, em meados do século XIX, e o soviético, no fim do século XX. O Afeganistão é tão isolado no coração da Ásia Central, tão protegido pelas fortalezas naturais fornecidas pela Cordilheira do Hindu Kush, que resistiu a todas as tentativas de conquistas permanentes nos últimos 500 anos. O trauma sofrido pelos ingleses na histórica batalha de 1842 16 000 mortos, entre britânicos, tropas coloniais e civis foi imortalizado nos versos agora tão relembrados de Rudyard Kipling. "Quando estiveres ferido e abandonado nas planícies do Afeganistão/ E as mulheres chegarem para picar o que restou/ Toma do teu rifle e estoura os miolos", escreveu, de maneira bastante crua, o cronista do colonialismo britânico. Reunido na semana passada em Cabul com seus colegas de turbante para, ostensivamente, decidir o destino de Osama bin Laden, o chefe religioso Mawlawi Abdul Zahir invocou esse passado. "Estamos prontos para nos defender se os americanos atacarem", disse. "Nós já derrotamos seus avós ingleses e seus irmãos russos." O incauto senhor certamente ignora a potência da máquina militar americana e a posição que a resposta ao terror passou a ocupar no cerne do interesse nacional dos Estados Unidos. A represália dos EUA terá uma força e uma capacidade tecnológica nem sequer sonhadas pelos afegãos. É difícil imaginar que o Afeganistão do Talibã subsista à operação. Nunca se verá, talvez, a face do líder supremo do Talibã, o mulá Mohamed Omar Akhund, que exemplifica em sua própria e misteriosa persona o radicalismo do movimento. Aos 42 anos, caolho, com a barba e o turbante obrigatórios, o mulá nunca foi fotografado como o Corão proíbe a reprodução da figura humana, os fundamentalistas estendem essa interdição, feita há mais de 1 300 anos, a fotos e imagens transmitidas por TV ou cinema. O mulá não aparece em público nem fala aos fiéis, como fazem habitualmente os outros líderes religiosos. Antes do confronto com os Estados Unidos, não saía de Kandahar, a cidade arruinada onde o Talibã fincou raízes a partir de 1994 (e desde então edificou somente três obras: a mesquita, uma casa para o próprio mulá Omar e a prisão, esta a maior delas). Perto da casa nova de Omar ficava um dos muitos refúgios de Osama bin Laden no Afeganistão. O chefe terrorista saudita, um milionário com experiência internacional, sempre soube como agradar o mulá ignorante. Em pronunciamentos públicos, jura-lhe obediência e respeito. Trata esse filho de camponeses como "comandante dos crentes", título supremo dos grandes dirigentes que unem a autoridade política à religiosa, reservado no passado aos sultões do Império Otomano e, hoje, a monarcas considerados descendentes do profeta. O mimo mais precioso foi-lhe oferecido um dia antes dos atentados nos Estados Unidos. Dois agentes suicidas despachados por Bin Laden, disfarçados de jornalistas de TV, estraçalharam com uma câmara-bomba o maior inimigo do Talibã, Ahmed Shah Massoud, o carismático comandante de uma força que resiste ao domínio dos mulás num pequeno território no norte do Afeganistão. Pela ótica tribal do mulá e sua turma, é bem possível que o assassinato de Massoud seja considerado muito mais importante que a hecatombe em Nova York. Pelos padrões modernos, o Afeganistão nem sequer pode ser considerado uma nação. Sua história, nos últimos séculos, tem sido forjada no confronto entre as tentativas de unificação sob um poder central e a resistência das tribos, apegadas a atividades autônomas que vão desde a cobrança de tributos às caravanas no passado ao tráfico de heroína no presente. O rei Amanollah, que comandou a independência afegã do fugaz controle britânico, em 1919, foi uma das vítimas dessa tensão. Ele tentou fazer um governo comparativamente modernizador, com novidades quase desconhecidas, como a criação de escolas para meninas. Foi deposto no bojo da rebelião iniciada por uma tribo do norte, furiosa por perder o direito de tributo, agravada pelo repúdio popular desencadeado quando a mulher do rei teve o azar de ser fotografada com o rosto a descoberto numa viagem ao exterior. Aos olhos do mundo ocidental, o Afeganistão começou a existir efetivamente no século XIX, quando caiu na teia de interesses das potências da época. O império britânico, que já tinha a Índia, queria mais: impedir um avanço da Rússia czarista até o Oceano Índico, garantindo-se assim a hegemonia sobre toda a Ásia Central. O coração estratégico da região era, e continua sendo, o legendário Desfiladeiro de Kiber, a passagem através das montanhas geladas da Cordilheira do Hindu Kush, que no trecho mais estreito chega a ter apenas 3 metros de largura. Foi lá o palco do "maior desastre militar da história" da Grã-Bretanha no subcontinente indiano, ocorrido em 1842. Derrotado pela furiosa resistência à presença britânica em Cabul, o general William Elphinstone negociou a retirada de sua gente, ao todo 16.000 almas (4.000 militares, entre britânicos e indianos recrutados para o exército colonial, e 12.000 civis). Com a exceção de um único soldado, foram todos rigorosamente massacrados. Na segunda investida inglesa, entre 1878 e 1880, ataques suicidas de afegãos envoltos nas bandeiras verdes do Islã mais uma vez expulsaram as forças coloniais, que bateram em retirada deixando para trás 1.320 mortos, 1.000 rifles e 600 espadas. Não é o nacionalismo que move os afegãos, tradicionalmente fracionados entre etnias rivais a maior delas é formada pelos patanes, de onde se originaram os talibãs. O espírito de resistência nasce da tradição guerreira, característica dos povos das montanhas, e do enorme poder da religião. Um exemplo da força do Islã é a peculiar trajetória do Partido Popular Democrático do Afeganistão, a organização comunista que tomou o poder em 1978, com o "pacote marxista" completo: luta de classes, reforma social, emancipação da mulher, e assim por diante. Em um ano, já apelava a Alá, tentando cooptar os mulás. Até a charia, a forma mais primitiva de aplicação dos preceitos muçulmanos, foi incorporada. Os comunistas afegãos, teratológica criação de Moscou, engalfinharam-se entre si, propiciando um período de extraordinária instabilidade. Em um ano e oito meses, o país teve três presidentes golpistas, todos derrubados e assassinados. Foi aí que sobreveio a intervenção direta da União Soviética, com os resultados catastróficos cujos desdobramentos chegam aos dias de hoje. Os estrategistas soviéticos, sabe-se agora, desaconselharam vivamente a ocupação militar. A liderança política, sob o comando do gerontocrata Leonid Brejnev, não deu ouvidos. O Afeganistão tornou-se, notoriamente, o Vietnã do império vermelho. Agora, a possibilidade iminente de uma ação militar americana no Afeganistão está revirando o baú de memórias dos russos. Alexander Lebed, ex-general do Exército vermelho, lembrou na semana passada os reveses sofridos ante o Mujahidin, o movimento de resistência, e o ânimo retaliatório dos afegãos. A tática soviética de destruir aldeias inteiras falhou miseravelmente. "Para cada aldeia aniquilada, morria somente um combatente mujahidin", disse Lebed. "Os sobreviventes nos odiavam e viviam com uma única idéia: a vingança. Eles são uns lobos." Apesar da conhecida ferocidade dos combatentes afegãos, a vitória da resistência só foi possível por causa da Operação Ciclone, a gigantesca máquina de ajuda aos mujahidin montada pelos Estados Unidos. A Arábia Saudita cobria cada dólar colocado pela CIA em mãos da resistência. No Paquistão, o serviço secreto fazia as compras e entregava em mãos aos combatentes. Além do dinheiro, a CIA forneceu a arma que mudou o rumo da guerra: os Stinger, mísseis portáteis guiados por laser. Com essa máquina mortífera apoiada no ombro, os mujahidin praticamente anularam o único armamento efetivo dos russos, os helicópteros de combate que iam caçá-los nos buracos nas montanhas. Foi nessa época que começou a se formar também a chamada conexão árabe, a vasta rede de voluntários que foram combater os russos no Afeganistão e lá se formaram no extremismo mais absoluto o ninho da serpente onde vicejaram Osama bin Laden e companhia. Combater os infiéis russos ao lado dos irmãos afegãos virou moda no mundo árabe. A empresa aérea da Arábia Saudita dava 75% de desconto na passagem. "Todo mundo queria ir, mesmo que não fosse para lutar", relatou anos depois um desses voluntários, o sírio Karim Omar, em depoimento registrado pelo jornalista inglês Mark Huband no livro Warriors of the Prophet (Guerreiros do Profeta). "Tinha gente que andava com prostitutas em Bangcoc e depois ia lá, para se sentir purificada pela guerra santa." Quando os soviéticos bateram em retirada, em 1989, a direção da CIA, comandada por George Bush pai, comemorou com champanhe a extraordinária vitória. Também começou, lentamente, a desativar os quadros estrangeiros, os militantes dos países árabes, ciente de que não era conveniente continuar criando corvos. A maioria deles voltou para seu país de origem, onde passaram a se dedicar a combater os regimes que os haviam enviado ao Afeganistão. Em comum, tinham o propósito de instaurar teocracias islâmicas e o ódio total e absoluto aos Estados Unidos. Da Argélia às Filipinas, do Sudão a Nova Jersey, os afganis, como esses árabes ficaram conhecidos, plantaram a bandeira ensangüentada de sua causa. Alguns acabaram voltando ao Afeganistão quando o Talibã, um grupo praticamente desconhecido, saiu dos acampamentos para refugiados no Paquistão para tomar o poder em Kandahar, primeiro, e depois no resto do país, destroçado pelas disputas entre os mujahidin. Osama bin Laden financiou e amparou ideologicamente os talibãs. De seus vastos recursos saiu o dinheiro que bancou a compra de 2.000 jipes Toyota Hilux, os veículos utilizados pelo Talibã para dominar rapidamente a província de Kandahar. Até hoje os jipes são usados pela polícia religiosa, que controla o tamanho da barba dos homens, o uso daquela roupa que cobre todo o rosto, a burqa, pelas mulheres, e também a hora obrigatória da reza para todo mundo. Agora, o destino de Osama bin Laden está de novo amarrado ao do Talibã enquanto os afegãos esperam, outra vez, a guerra. Esta, se vier, poderá ser a maior de todas.
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