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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Sumário
Especial
 

A promessa de ataque
Guerra suja e longa
Afeganistão, um país miserável e guerreiro
Bin Laden, o homem mais procurado do mundo
Como a companhia aérea israelense se defende do terror
O cinema-catástrofe depois que a realidade superou a ficção
A rede do terrorismo
Os homens do presidente
Como mais de 6.000 corpos desapareceram nos escombros
O que é o Islã
O esforço de reconstrução e as previsões para a economia
Ódio à diferença: o milenar estranhamento entre os homens

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Este país já está arrasado

O miserável Afeganistão diante da
ameaça de ataque
dos EUA: uma
história feita
de resistência e tragédias,
e muito pouco a ser destruído

 
AP
A CAPITAL EM ESCOMBROS
Depois do risco de ataque, afegãos trocam a desolação da avenida principal de Cabul por campos de refugiados; num deles, menino (acima) chora para não se separar da mãe


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O cerco ao Afeganistão
O Afeganistão tem dois aliados que nunca falharam: a miséria e a montanha. O atraso endêmico e a destruição provocada por 22 anos de guerras sucessivas são de tal ordem que há poucos alvos dignos do nome ao alcance da operação de mobilização militar desfechada para vingar os atentados terroristas contra os Estados Unidos. Não é fácil escolher o que bombardear num país sem estradas, sem hidrelétricas, sem pontes nem instalações de telecomunicações. Pior: o Afeganistão, além de tudo isso, já teve sua economia primitiva devastada por guerra anterior. Hoje, o país afegão é um lugar de cidades fantasmas. A população está em fuga para o campo, para as montanhas, para as cavernas abertas na rocha bruta, onde, nos casos mais extremos, as pessoas conseguem sobreviver comendo os sais minerais colhidos de terra fervida. Como tornar ainda pior a vida de um povo que come terra? Como intimidar uma população mantida num estado tal de ignorância que, embora soubesse da possibilidade de um bombardeio americano, a maioria não tinha idéia do motivo real? Os terríveis ataques contra Nova York e Washington nunca foram divulgados pelo Talibã, o grupo fundamentalista que permite apenas transmissões de uma única rádio, a sua, e proíbe a televisão. Tão logo tomou o poder, o Talibã pendurou televisões estraçalhadas nos postes, para mostrar ao povo o que pensava desse satânico agente da decadência ocidental.

A montanha é o outro aliado desse país de geografia caprichosa, bordado por penhascos e desfiladeiros onde guerreiros de ferocidade legendária infligiram derrotas tremendas a dois impérios – o britânico, em meados do século XIX, e o soviético, no fim do século XX. O Afeganistão é tão isolado no coração da Ásia Central, tão protegido pelas fortalezas naturais fornecidas pela Cordilheira do Hindu Kush, que resistiu a todas as tentativas de conquistas permanentes nos últimos 500 anos. O trauma sofrido pelos ingleses na histórica batalha de 1842 – 16 000 mortos, entre britânicos, tropas coloniais e civis – foi imortalizado nos versos agora tão relembrados de Rudyard Kipling. "Quando estiveres ferido e abandonado nas planícies do Afeganistão/ E as mulheres chegarem para picar o que restou/ Toma do teu rifle e estoura os miolos", escreveu, de maneira bastante crua, o cronista do colonialismo britânico. Reunido na semana passada em Cabul com seus colegas de turbante para, ostensivamente, decidir o destino de Osama bin Laden, o chefe religioso Mawlawi Abdul Zahir invocou esse passado. "Estamos prontos para nos defender se os americanos atacarem", disse. "Nós já derrotamos seus avós ingleses e seus irmãos russos." O incauto senhor certamente ignora a potência da máquina militar americana – e a posição que a resposta ao terror passou a ocupar no cerne do interesse nacional dos Estados Unidos. A represália dos EUA terá uma força e uma capacidade tecnológica nem sequer sonhadas pelos afegãos. É difícil imaginar que o Afeganistão do Talibã subsista à operação.

Nunca se verá, talvez, a face do líder supremo do Talibã, o mulá Mohamed Omar Akhund, que exemplifica em sua própria e misteriosa persona o radicalismo do movimento. Aos 42 anos, caolho, com a barba e o turbante obrigatórios, o mulá nunca foi fotografado – como o Corão proíbe a reprodução da figura humana, os fundamentalistas estendem essa interdição, feita há mais de 1 300 anos, a fotos e imagens transmitidas por TV ou cinema. O mulá não aparece em público nem fala aos fiéis, como fazem habitualmente os outros líderes religiosos. Antes do confronto com os Estados Unidos, não saía de Kandahar, a cidade arruinada onde o Talibã fincou raízes a partir de 1994 (e desde então edificou somente três obras: a mesquita, uma casa para o próprio mulá Omar e a prisão, esta a maior delas).

Perto da casa nova de Omar ficava um dos muitos refúgios de Osama bin Laden no Afeganistão. O chefe terrorista saudita, um milionário com experiência internacional, sempre soube como agradar o mulá ignorante. Em pronunciamentos públicos, jura-lhe obediência e respeito. Trata esse filho de camponeses como "comandante dos crentes", título supremo dos grandes dirigentes que unem a autoridade política à religiosa, reservado no passado aos sultões do Império Otomano e, hoje, a monarcas considerados descendentes do profeta. O mimo mais precioso foi-lhe oferecido um dia antes dos atentados nos Estados Unidos. Dois agentes suicidas despachados por Bin Laden, disfarçados de jornalistas de TV, estraçalharam com uma câmara-bomba o maior inimigo do Talibã, Ahmed Shah Massoud, o carismático comandante de uma força que resiste ao domínio dos mulás num pequeno território no norte do Afeganistão. Pela ótica tribal do mulá e sua turma, é bem possível que o assassinato de Massoud seja considerado muito mais importante que a hecatombe em Nova York.

Pelos padrões modernos, o Afeganistão nem sequer pode ser considerado uma nação. Sua história, nos últimos séculos, tem sido forjada no confronto entre as tentativas de unificação sob um poder central e a resistência das tribos, apegadas a atividades autônomas que vão desde a cobrança de tributos às caravanas no passado ao tráfico de heroína no presente. O rei Amanollah, que comandou a independência afegã do fugaz controle britânico, em 1919, foi uma das vítimas dessa tensão. Ele tentou fazer um governo comparativamente modernizador, com novidades quase desconhecidas, como a criação de escolas para meninas. Foi deposto no bojo da rebelião iniciada por uma tribo do norte, furiosa por perder o direito de tributo, agravada pelo repúdio popular desencadeado quando a mulher do rei teve o azar de ser fotografada com o rosto a descoberto numa viagem ao exterior.

Aos olhos do mundo ocidental, o Afeganistão começou a existir efetivamente no século XIX, quando caiu na teia de interesses das potências da época. O império britânico, que já tinha a Índia, queria mais: impedir um avanço da Rússia czarista até o Oceano Índico, garantindo-se assim a hegemonia sobre toda a Ásia Central. O coração estratégico da região era, e continua sendo, o legendário Desfiladeiro de Kiber, a passagem através das montanhas geladas da Cordilheira do Hindu Kush, que no trecho mais estreito chega a ter apenas 3 metros de largura. Foi lá o palco do "maior desastre militar da história" da Grã-Bretanha no subcontinente indiano, ocorrido em 1842. Derrotado pela furiosa resistência à presença britânica em Cabul, o general William Elphinstone negociou a retirada de sua gente, ao todo 16.000 almas (4.000 militares, entre britânicos e indianos recrutados para o exército colonial, e 12.000 civis). Com a exceção de um único soldado, foram todos rigorosamente massacrados. Na segunda investida inglesa, entre 1878 e 1880, ataques suicidas de afegãos envoltos nas bandeiras verdes do Islã mais uma vez expulsaram as forças coloniais, que bateram em retirada deixando para trás 1.320 mortos, 1.000 rifles e 600 espadas.

Não é o nacionalismo que move os afegãos, tradicionalmente fracionados entre etnias rivais – a maior delas é formada pelos patanes, de onde se originaram os talibãs. O espírito de resistência nasce da tradição guerreira, característica dos povos das montanhas, e do enorme poder da religião. Um exemplo da força do Islã é a peculiar trajetória do Partido Popular Democrático do Afeganistão, a organização comunista que tomou o poder em 1978, com o "pacote marxista" completo: luta de classes, reforma social, emancipação da mulher, e assim por diante. Em um ano, já apelava a Alá, tentando cooptar os mulás. Até a charia, a forma mais primitiva de aplicação dos preceitos muçulmanos, foi incorporada. Os comunistas afegãos, teratológica criação de Moscou, engalfinharam-se entre si, propiciando um período de extraordinária instabilidade. Em um ano e oito meses, o país teve três presidentes golpistas, todos derrubados e assassinados. Foi aí que sobreveio a intervenção direta da União Soviética, com os resultados catastróficos cujos desdobramentos chegam aos dias de hoje. Os estrategistas soviéticos, sabe-se agora, desaconselharam vivamente a ocupação militar. A liderança política, sob o comando do gerontocrata Leonid Brejnev, não deu ouvidos. O Afeganistão tornou-se, notoriamente, o Vietnã do império vermelho.

Agora, a possibilidade iminente de uma ação militar americana no Afeganistão está revirando o baú de memórias dos russos. Alexander Lebed, ex-general do Exército vermelho, lembrou na semana passada os reveses sofridos ante o Mujahidin, o movimento de resistência, e o ânimo retaliatório dos afegãos. A tática soviética de destruir aldeias inteiras falhou miseravelmente. "Para cada aldeia aniquilada, morria somente um combatente mujahidin", disse Lebed. "Os sobreviventes nos odiavam e viviam com uma única idéia: a vingança. Eles são uns lobos." Apesar da conhecida ferocidade dos combatentes afegãos, a vitória da resistência só foi possível por causa da Operação Ciclone, a gigantesca máquina de ajuda aos mujahidin montada pelos Estados Unidos. A Arábia Saudita cobria cada dólar colocado pela CIA em mãos da resistência. No Paquistão, o serviço secreto fazia as compras e entregava em mãos aos combatentes. Além do dinheiro, a CIA forneceu a arma que mudou o rumo da guerra: os Stinger, mísseis portáteis guiados por laser. Com essa máquina mortífera apoiada no ombro, os mujahidin praticamente anularam o único armamento efetivo dos russos, os helicópteros de combate que iam caçá-los nos buracos nas montanhas.

Foi nessa época que começou a se formar também a chamada conexão árabe, a vasta rede de voluntários que foram combater os russos no Afeganistão e lá se formaram no extremismo mais absoluto – o ninho da serpente onde vicejaram Osama bin Laden e companhia. Combater os infiéis russos ao lado dos irmãos afegãos virou moda no mundo árabe. A empresa aérea da Arábia Saudita dava 75% de desconto na passagem. "Todo mundo queria ir, mesmo que não fosse para lutar", relatou anos depois um desses voluntários, o sírio Karim Omar, em depoimento registrado pelo jornalista inglês Mark Huband no livro Warriors of the Prophet (Guerreiros do Profeta). "Tinha gente que andava com prostitutas em Bangcoc e depois ia lá, para se sentir purificada pela guerra santa."

Quando os soviéticos bateram em retirada, em 1989, a direção da CIA, comandada por George Bush pai, comemorou com champanhe a extraordinária vitória. Também começou, lentamente, a desativar os quadros estrangeiros, os militantes dos países árabes, ciente de que não era conveniente continuar criando corvos. A maioria deles voltou para seu país de origem, onde passaram a se dedicar a combater os regimes que os haviam enviado ao Afeganistão. Em comum, tinham o propósito de instaurar teocracias islâmicas e o ódio total e absoluto aos Estados Unidos. Da Argélia às Filipinas, do Sudão a Nova Jersey, os afganis, como esses árabes ficaram conhecidos, plantaram a bandeira ensangüentada de sua causa. Alguns acabaram voltando ao Afeganistão quando o Talibã, um grupo praticamente desconhecido, saiu dos acampamentos para refugiados no Paquistão para tomar o poder em Kandahar, primeiro, e depois no resto do país, destroçado pelas disputas entre os mujahidin. Osama bin Laden financiou e amparou ideologicamente os talibãs. De seus vastos recursos saiu o dinheiro que bancou a compra de 2.000 jipes Toyota Hilux, os veículos utilizados pelo Talibã para dominar rapidamente a província de Kandahar. Até hoje os jipes são usados pela polícia religiosa, que controla o tamanho da barba dos homens, o uso daquela roupa que cobre todo o rosto, a burqa, pelas mulheres, e também a hora obrigatória da reza para todo mundo. Agora, o destino de Osama bin Laden está de novo amarrado ao do Talibã – enquanto os afegãos esperam, outra vez, a guerra. Esta, se vier, poderá ser a maior de todas.

 
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