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A guerra será suja e longaEstados
Unidos mobilizam sua máquina
A formidável maquinaria bélica dos Estados Unidos começou a se movimentar na semana passada para a guerra contra os terroristas que atacaram Nova York e Washington. Não se trata de um conflito como outro qualquer, mas de um ataque em escala global a uma rede de terror espalhada por mais de meia centena de países e dotada de espantosa capacidade de se reorganizar. A partir de agora, o campo de batalha é qualquer lugar do planeta onde se abriguem terroristas islâmicos. "Será um negócio repugnante, perigoso e sujo", nas palavras duras do vice-presidente Dick Cheney. "Não é como a Guerra do Golfo, na qual nós tivemos vários meses de preparativos, quatro dias de combate e foi tudo. Vai ser o tipo de trabalho que provavelmente levará anos, pois o foco não é apenas um indivíduo." Na noite de quinta-feira, em pronunciamento ao Congresso, o presidente George W. Bush deu dimensão mais concreta à enormidade da campanha em que seu governo está empenhado: "Usaremos todos os recursos a nossa disposição, todas as gestões diplomáticas, todos os dados de inteligência, todos os instrumentos legais, toda a influência financeira e todas as armas de guerra que forem necessárias para derrotar a rede mundial de terrorismo". A determinação americana é tamanha que o Departamento de Defesa chegou a pensar no impensável: lançar mão do arsenal atômico. Ainda sob o impacto da destruição do World Trade Center e do prédio do Pentágono, há duas semanas, chegou ao presidente Bush uma lista de alternativas para o enfrentamento dos grupos terroristas. Entre as possibilidades, constava o uso de armas nucleares táticas em ações retaliatórias. São bombas de curto alcance e potência bem menor que a de suas congêneres instaladas em mísseis intercontinentais, para uso em alvos específicos, como um quartel ou um reduto subterrâneo de terroristas no deserto. Cogumelos nucleares na paisagem lunar do Afeganistão, contudo, estão por ora descartados mas não a ofensiva com armas convencionais. Na quarta-feira passada, no primeiro grande deslocamento ostensivo de forças militares, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld ordenou o envio de dúzias de jatos de combate e bombardeiros de longo alcance e de uma frota de catorze navios, capitaneada pelo porta-aviões Theodore Roosevelt, para reforçar o arsenal americano no Golfo Pérsico e no Oceano Índico. O Roosevelt é a materialização em aço do poder militar que se levanta contra o terrorismo. Leva a bordo 75 aviões de combate, 24 lançadores de mísseis, dezoito canhões e 5.000 marujos. Seus paióis blindados guardam ogivas nucleares. O especialista em assuntos militares Roberto Godoy escreveu que o poder de fogo embarcado desse grupo de batalha é maior que o de todos os bombardeios executados na Europa pelos aliados e pelos alemães na II Guerra. Entre forças aérea e naval, o Pentágono já dispunha na região do Golfo Pérsico de músculos suficientes para se envolver numa guerra em grande escala. Com os reforços, tornou-se forte o bastante para atacar qualquer país no hemisfério oriental.
"Há movimentação de forças, e vocês vão ver ainda mais movimentações", disse o subsecretário da Defesa Paul Wolfowitz aos repórteres. "A coisa vai ser grande." O primeiro objetivo americano é capturar, vivo ou morto, o milionário saudita Osama bin Laden, mentor da rede terrorista islâmica responsável pelos atentados do dia 11 de setembro. Não apenas ele. Também os outros terroristas que vivem a sua volta. Osama bin Laden mora há anos no Afeganistão, protegido pelo Talibã, a milícia fundamentalista muçulmana que controla 90% do país. Nenhum estrategista duvida de que a eliminação de Bin Laden passa pela destruição do poder do Talibã, que dispõe de 40.000 milicianos em armas. Mas uma superforça-tarefa americana para combater esse exército do Quarto Mundo, num país que está entre os mais pobres do planeta? A movimentação americana parece conter um pouco de teatro, destinado a satisfazer a expectativa de vingança que se instalou no coração de cada cidadão dos EUA. No entanto, ninguém desloca tantos armamentos e repete tantas ameaças diretas, como fez o presidente George W. Bush na semana passada, para depois trazer a soldadesca de volta para casa sem nenhuma ação nos ninhos dos terroristas. Os EUA certamente vão atacar. A questão é: quais serão os alvos e a extensão do combate. Parece improvável que se repitam contra o Afeganistão operações de bombardeios aéreos pesados, que tanto sucesso fizeram contra a Iugoslávia há dois anos. A devastação e a morte de grande número de civis teriam pouca utilidade militar e poderiam provocar indignação internacional, sobretudo nos países de população muçulmana. É mais provável que a guerra comece com uma onda de ataques concentrada sobre acampamentos de treinamento de terroristas e instalações militares do Talibã. Nesse cenário, a ofensiva seria completada por expedições de pequenas unidades de forças especiais, tendo na retaguarda grande contingente de soldados estacionado no vizinho Paquistão e em ex-repúblicas soviéticas fronteiriças. Os afegãos gostam de lembrar a derrota que infligiram ao Exército Vermelho nos anos 80. Um século antes, tinham repelido expedições do poderoso Império Britânico. Diante de um ataque americano por terra, os milicianos do Talibã teriam as mesmas vantagens do passado: o conhecimento do terreno, a experiência na guerra de guerrilhas e a disposição de morrer por Alá. Mas só num conto das mil e uma noites a turma do turbante teria chance real diante da atual determinação dos Estados Unidos. Quando enfrentaram a União Soviética, os guerrilheiros islâmicos tinham o apoio da CIA e do Paquistão e a dinheirama vinda da Arábia Saudita. Todos esses estão agora na coalizão contra o terror. Podem-se esperar ataques rápidos para exterminar guarnições e capturar chefes terroristas ou do Talibã. De qualquer forma, os americanos devem se preparar para muitas baixas em suas fileiras. Desde a Guerra do Vietnã, que acabou nos anos 70, os Estados Unidos desenvolveram grande intolerância com a visão de seus rapazes voltando de guerras distantes dentro de urnas funerárias. Para evitar mortes de soldados americanos, aproveitaram-se da tecnologia, do poder aéreo, de bombas inteligentes e de foguetes guiados por satélite. Na Guerra do Golfo, morreram apenas 150 militares dos EUA. No conflito que dobrou a Iugoslávia, em 1999, nenhum. Só o horror do ataque ao World Trade Center explica que os políticos de Washington estejam agora flexíveis na questão de expor a vida de soldados americanos nos grotões afegãos. Na quinta-feira, uma assembléia de ulamás, os caciques religiosos do Afeganistão, decidiu que Bin Laden deveria ser convidado a deixar o país voluntariamente e quando quiser. Num desafio de um rato que ruge, ameaçaram declarar uma Jihad, guerra santa islâmica, contra os Estados Unidos. É irônico, pois foi em nome de uma Jihad pessoal que Bin Laden teria organizado o ataque ao World Trade Center e ao Pentágono. Em seu discurso no Congresso, na noite de quinta-feira, o presidente Bush descartou concessões. Exigiu a entrega dos líderes da organização de Bin Laden, o desmantelamento dos campos de treinamento de terroristas e o acesso para os Estados Unidos conferirem se foram realmente fechados. A movimentação da semana passada significa apenas o primeiro lance de uma guerra mais extensa. A nova forma de terrorismo que o Ocidente enfrenta não será desmantelada com a prisão de alguns famélicos afegãos. O desafio está em estabelecer em vários países as responsabilidades de governos, chefes militares e líderes religiosos no apoio ao terrorismo. De acordo com a declaração do presidente Bush, esses serão legalmente tratados com o mesmo rigor que se reserva aos que explodem bombas ou seqüestram aviões. No fundo, é uma luta moral e ética que permite à vítima de agora, os Estados Unidos, tantas vezes acusada de belicismo, traçar a linha de combate. A guerra contra as redes do terror precisará ser travada por uma rede de Estados e suas respectivas Forças Armadas e policiais. A hora da definição chegou para os regimes que apóiam terroristas, fazem vista grossa a suas atividades ou os toleram por serem eles próprios ilegítimos ou impopulares demais. O caso do Afeganistão é o mais destacado. Por isso, será o primeiro a ser enfrentado. O país tornou-se uma incubadora de malfeitores embalados pela impunidade e pela facilidade de arregimentação de mão-de-obra entre multidões de miseráveis desesperançados. A situação do Iraque certamente exigirá uma abordagem que combine diplomacia, sanções econômicas e constrangimento militar. Os serviços de inteligência estão lidando com centenas de pistas e indícios de envolvimento dos serviços secretos iraquianos em atos terroristas praticados no exterior. Os israelenses dizem que há tempos Saddam Hussein descobriu a vantagem de contratar os serviços de organizações terroristas para fazer o trabalho sujo. Um grupo relevante na paisagem do terror, a facção do palestino Abu Nidal, reconhecidamente se valeu de recursos materiais e de logística do Iraque. Entre ações reconhecidas pelo grupo e outras a ele atribuídas, os terroristas de Abu Nidal têm contas a acertar com a Justiça de duas dezenas de países. Foi condenado à morte até pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP), de Yasser Arafat. O grupo de Abu Nidal teria matado e ferido, em suas ações, uma multidão de 900 pessoas. Pelo menos dois países, o Irã dos aiatolás e a Líbia do ditador Muamar Kadafi, parecem estar fazendo um esforço legítimo para sair da lista das nações que mantêm ligações com o terror. Os iranianos têm realizado eleições que observadores internacionais consideram cada vez mais legítimas, enquanto o poder temporal dos líderes religiosos vem diminuindo. Ainda assim, pesa sobre seus serviços secretos a acusação de fornecer ajuda a grupos terroristas. O líder líbio, Muamar Kadafi, por sua vez, não perde a oportunidade de publicamente condenar o terror. Bolsões radicais das Forças Armadas líbias, porém, continuam aparecendo nas avaliações ocidentais como patrocinadores desses grupos.
"Temos de quebrar os elos da conexão. Dessa forma, toda a corrente do terrorismo ficará mais fraca", disse Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, na semana passada. O terrorismo de grandes operações não pode existir sem a sustentação de países hostis. A estratégia dos Estados Unidos é obrigar os terroristas a fugir de país em país, de porão em porão, de modo que sua existência física passe a ser prioritária. A própria Al Qaeda ("A Base"), organização comandada por Bin Laden, é uma coligação de células terroristas independentes. Agem com autonomia e continuarão existindo mesmo que Bin Laden seja morto. Depois de caçar os responsáveis diretos pela carnificina em Manhattan e no Pentágono, os americanos vão precisar fazer aquilo que o ex-diretor da CIA Jim Woolsey chamou de "drenar o pântano". A analogia é a seguinte: uma vez eliminados os mosquitos (Bin Laden e seu grupo), será preciso sanear o ambiente em que o terror prolifera. Significa não apenas identificar e punir Estados que protegem o terrorismo, mas também ir atrás dos ricaços que dão dinheiro aos movimentos fundamentalistas islâmicos. Muitos deles são figurões da Arábia Saudita, país de grande peso na rede antiterror liderada pelos Estados Unidos. Alguma coisa ainda precisará ser feita no Egito, outro aliado dos EUA. Ali atua uma das principais fontes de recrutamento de terroristas, formada pelos movimentos fundamentalistas egípcios. Há versões de que o governo do Cairo (o maior beneficiário de ajuda externa americana depois de Israel) fez um acordo com os radicais: podem recrutar à vontade, desde que não cometam atentados dentro do próprio Egito. Um ponto fraco dos americanos é a baixa qualidade das informações de que dispõem, conseqüência da queda no nível de seus serviços de espionagem nos últimos tempos, escreveu o espanhol Manuel Castells, professor de sociologia na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Washington espera compensar essa lacuna com a ajuda israelense, palestina e, sobretudo, dos paquistaneses. O Talibã é uma criação do serviço secreto do Paquistão, que acabou fugindo ao controle daqueles que inicialmente patrocinaram o movimento. "Nenhum funcionário da CIA no Paquistão tem condições de penetrar em escolas religiosas, que são os celeiros de idéias e de pessoal para Bin Laden", diz Reuel Gerecht, que foi funcionário da CIA até recentemente. "Qualquer um deles que tentar passar por nativo e fundamentalista cairá no ridículo." Nesta nova guerra, o serviço secreto americano desempenhará papel fundamental. Para facilitar os movimentos da CIA, a Casa Branca quer eliminar algumas restrições impostas à agência nas últimas décadas. Uma delas é a licença para matar. Em 1976, atormentado por uma série de denúncias sobre ações ilegais do serviço de espionagem dentro e fora dos Estados Unidos, o presidente Gerald Ford o proibiu de se envolver em assassinatos no exterior. "O jogo é sujo e perigoso e não podemos deixar nossos serviços secretos de mãos amarradas", disse o atual vice-presidente, Dick Cheney. Em meados da década de 90, um novo escândalo a descoberta que um militar guatemalteco a soldo da CIA estava envolvido na morte de um cidadão americano e de um guerrilheiro esquerdista casado com uma americana levou a uma nova restrição, a de não contratar estrangeiros com crimes na folha corrida. "Isso não importa mais", afirmou o senador democrata Robert Graham, presidente do subcomitê de Serviços de Inteligência do Congresso. "O tipo de gente que os agentes da CIA precisam não se encontra nos conventos." A naturalidade com que isso é dito é reveladora da gravidade do momento. A CIA é famosa por seu passado de conspirações no exterior. De acordo com uma versão, no Irã ela precisou de apenas cinco agentes e 1 milhão de dólares para desestabilizar o governo do primeiro-ministro Mohammad Mosaddeq e entregar o poder ao xá Reza Pahlevi, em 1953. A agência deu uma mão na derrubada do presidente Salvador Allende, no Chile, em 1973, e suspeita-se de que participou do assassinato de seu ex-chanceler Orlando Letelier, a apenas 2 quilômetros de distância da Casa Branca, em 1976. Os constrangimentos criados pela desinibição da CIA foram tantos que os americanos acabaram por criar freios para seus agentes que não existem em outros serviços secretos. Depois do fim da Guerra Fria, apesar de dispor de 2.000 agentes espalhados pelo mundo, a CIA deu prioridade à espionagem eletrônica. Os tempos do bom-mocismo da CIA parecem estar agora com os dias contados. Jogaram-se fora trinta anos de conquistas éticas em nome do combate a um inimigo complexo. É mesmo um tempo de guerra suja.
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