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Edição 1 719 - 26 de setembro de 2001
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Como a companhia aérea israelense se defende do terror
O cinema-catástrofe depois que a realidade superou a ficção
A rede do terrorismo
Os homens do presidente
Como mais de 6.000 corpos desapareceram nos escombros
O que é o Islã
O esforço de reconstrução e as previsões para a economia
Ódio à diferença: o milenar estranhamento entre os homens

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"Ou estão do nosso
lado ou do lado
dos terroristas"

Com um fervor patriótico e
união nacional nunca vistos
desde a II Guerra Mundial,

os Estados Unidos vão ao
contra-ataque ao terror.
Para a civilização ocidental,

a opção é vencer ou vencer

Reuters

Sem raiva do inimigo, que eles mal conheciam, com a opinião pública mundial e doméstica francamente contra, os militares americanos assim mesmo fizeram do Vietnã um campo experimental da brutalidade armamentista. Na guerra, que acabou em derrota para eles, em 1973, os americanos utilizaram contra o inimigo vietnamita todo o arsenal moderno de destruição – armas químicas, bombas incendiárias e de fragmentação, bombardeios diuturnos a cidades e aniquilamento de aldeias inteiras. Só não usaram armas nucleares. O conflito declarado na quinta-feira passada por um discurso histórico do presidente George W. Bush ao Congresso americano pode ser ainda mais devastador para o inimigo.

Antes que se examinem as hipóteses bélicas da guerra contra o terrorismo anunciada por Bush, é preciso lembrar que os Estados Unidos entraram, desta vez, num conflito em que têm uma única opção: vencer ou vencer. A vitória dos americanos na guerra que começou na semana passada está assegurada até mesmo pelo absurdo insustentável da hipótese contrária: um Ocidente dominado por mulás islâmicos enlouquecidos pelo poder absoluto exercido por meio do braço armado de seus terroristas suicidas. Essa é a primeira guerra do império americano que começa com a simpatia de todas as nações livres do mundo. É a primeira também à qual eles se lançam impulsionados por uma opinião pública irada com o assassinato premeditado de 6.000 civis, imolados num palco de exposição planetária, Nova York, a cidade mais cosmopolita da Terra. O que a máquina de guerra dos Estados Unidos é capaz de fazer nessas circunstâncias?

AFP
Reuters
VIVO OU MORTO
Em meio à ira e às lágrimas dos americanos, um cartaz ao estilo do Velho Oeste, em Nova York, põe a cabeça de Osama bin Laden a prêmio. Acusação: assassinato em massa

Ouçamos seu comandante-em-chefe, Bush, no discurso de quinta-feira: "Nossa reação envolve muito mais que ataques isolados. Americanos não devem esperar uma batalha, mas, sim, uma campanha longa, diferente de qualquer outra que nós já vimos. Ela pode incluir ataques dramáticos mostrados pelas televisões e operações tão secretas que até mesmo seu sucesso permanecerá sigiloso. Vamos cortar os financiamentos dos terroristas, jogar uns contra os outros, fazê-los correr de um lugar para o outro até que não haja mais refúgio nem descanso. Vamos perseguir nações que ofereçam ajuda ou abrigo seguro ao terrorismo. Cada país tem uma decisão a tomar. Ou está do nosso lado ou do lado dos terroristas". Os americanos lançaram-se numa guerra de aniquilação ao terrorismo com uma força moral que eles só tiveram a seu lado na II Guerra Mundial. Todos os conflitos isolados que travaram contra o comunismo durante a Guerra Fria, o da Coréia e o do Vietnã, foram lutas inglórias, inconclusas, inexplicáveis para um mundo sedento de paz. Foram guerras travadas contra uma causa um tanto abstrata e longe de ser unânime, o avanço do comunismo. O regime comunista, mesmo diante de inúmeras evidências de fracasso do modelo, nunca foi traduzido imediatamente no Ocidente como a encarnação do mal. Agora não. Agora se luta contra o terror, algo tão desumano e atroz que o apoio universal está assegurado. A unanimidade dentro dos Estados Unidos é quase total. As pesquisas mostram que 95% dos americanos querem a guerra, mesmo que ela resulte em baixas. Vão para a batalha com o mesmo ímpeto com que marchariam para a II Grande Guerra caso os terrores do holocausto promovido pelos nazistas fossem conhecidos antes do armistício. Os terroristas islâmicos e seus patrocinadores falam em Guerra Santa. Os americanos estavam tomados por uma ira santa, ao final do discurso de George W. Bush: "O desenvolvimento desse conflito é desconhecido, mas seu final é certo. Venceremos".



SETECENTAS VÍTIMAS
O âncora de televisão Dan Rather chora (foto) e Howard Lutnick se desespera: 700 de seus 1 000 funcionários da corretora Cantor Fitzgerald morreram no atentado terrorista ao World Trade Center

Mas quando e como será o ataque? Bush esforçou-se na retórica para assegurar à opinião pública que o uso da força contra os agressores de Nova York e Washington é iminente. "A hora de agir está chegando", disse ele, referindo-se aos militares. "Vocês nos deixarão orgulhosos." Bush não admitiu, mas a verdade é que os Estados Unidos foram atingidos em seus valores mais amados: as liberdades individuais e o bem-estar de uma rotina de prosperidade sem precedentes. O terror atingiu em cheio o modo de vida americano. A economia andou de pernas bambas, e os cidadãos passarão em breve a conviver com leis que limitarão sua liberdade de ir e vir. Na semana passada, eles viram Dan Rather, o âncora de televisão mais frio e durão da atualidade, ir às lágrimas ao comentar o ataque terrorista no programa de entrevistas de outro símbolo do país, David Letterman. Ele próprio disse que só voltou ao trabalho para atender a um apelo de Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, que tenta restabelecer a normalidade em sua cidade. Viram a lendária revista The New Yorker circular de capa preta, sem suas tradicionais charges, que nunca antes haviam deixado de sair mesmo em meio a catástrofes nacionais, como o assassinato do presidente John Kennedy, em 1963.

Rufaram os tambores da guerra até por quem fez carreira com a virtude da frieza e do distanciamento. "Nós vamos fincar o polegar no olho dos assassinos", disse Paul O'Neill, secretário de Tesouro, conhecido pela enorme gentileza no trato pessoal. "Dessa vez é diferente, é sujo, estamos lidando com terroristas, e não respondendo a nenhum conflito mundial", declarou Peter MacBride, filho de Sean MacBride, prêmio Nobel da Paz em 1974. "Temos uma espada bem afiada que será usada em breve", disse Dan Rather, depois de enxugar as lágrimas. Num clima desses, o inimigo não é visto como um bando de guerreiros montados em cavalos e camelos, empunhando fuzis antiquados, que efetivamente é. O inimigo passa a ser perigoso como as armas que usou no atentado – aviões a jato e o fogo das explosões – e por sua retórica de destruição, como a dos versos escritos pouco tempo atrás pelo principal alvo dos americanos, o terrorista Osama bin Laden: "Os pedaços de corpos de infiéis voando como partículas de pó / Se seus olhos vissem isso, seu coração se encheria de alegria".

 
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