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"Ou estão
do nosso
lado ou do lado
dos terroristas"
Com
um fervor patriótico e
união nacional nunca vistos
desde a II Guerra Mundial,
os Estados Unidos vão ao
contra-ataque ao terror.
Para a civilização ocidental,
a opção é vencer ou vencer
Reuters
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Sem
raiva do inimigo, que eles mal conheciam, com a opinião pública
mundial e doméstica francamente contra, os militares americanos
assim mesmo fizeram do Vietnã um campo experimental da brutalidade
armamentista. Na guerra, que acabou em derrota para eles, em 1973, os
americanos utilizaram contra o inimigo vietnamita todo o arsenal moderno
de destruição armas químicas, bombas incendiárias
e de fragmentação, bombardeios diuturnos a cidades e aniquilamento
de aldeias inteiras. Só não usaram armas nucleares. O conflito
declarado na quinta-feira passada por um discurso histórico do
presidente George W. Bush ao Congresso americano pode ser ainda mais devastador
para o inimigo.
Antes que
se examinem as hipóteses bélicas da guerra contra o terrorismo
anunciada por Bush, é preciso lembrar que os Estados Unidos entraram,
desta vez, num conflito em que têm uma única opção:
vencer ou vencer. A vitória dos americanos na guerra que começou
na semana passada está assegurada até mesmo pelo absurdo
insustentável da hipótese contrária: um Ocidente
dominado por mulás islâmicos enlouquecidos pelo poder absoluto
exercido por meio do braço armado de seus terroristas suicidas.
Essa é a primeira guerra do império americano que começa
com a simpatia de todas as nações livres do mundo. É
a primeira também à qual eles se lançam impulsionados
por uma opinião pública irada com o assassinato premeditado
de 6.000 civis, imolados num palco de exposição
planetária, Nova York, a cidade mais cosmopolita da Terra. O que
a máquina de guerra dos Estados Unidos é capaz de fazer
nessas circunstâncias?
AFP
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Reuters
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VIVO
OU MORTO
Em meio à ira e às lágrimas dos americanos,
um cartaz ao estilo do Velho Oeste, em Nova York, põe a cabeça
de Osama bin Laden a prêmio. Acusação: assassinato
em massa |
Ouçamos
seu comandante-em-chefe, Bush, no discurso de quinta-feira: "Nossa reação
envolve muito mais que ataques isolados. Americanos não devem esperar
uma batalha, mas, sim, uma campanha longa, diferente de qualquer outra
que nós já vimos. Ela pode incluir ataques dramáticos
mostrados pelas televisões e operações tão
secretas que até mesmo seu sucesso permanecerá sigiloso.
Vamos cortar os financiamentos dos terroristas, jogar uns contra os outros,
fazê-los correr de um lugar para o outro até que não
haja mais refúgio nem descanso. Vamos perseguir nações
que ofereçam ajuda ou abrigo seguro ao terrorismo. Cada país
tem uma decisão a tomar. Ou está do nosso lado ou do lado
dos terroristas". Os americanos lançaram-se numa guerra de aniquilação
ao terrorismo com uma força moral que eles só tiveram a
seu lado na II Guerra Mundial. Todos os conflitos isolados que travaram
contra o comunismo durante a Guerra Fria, o da Coréia e o do Vietnã,
foram lutas inglórias, inconclusas, inexplicáveis para um
mundo sedento de paz. Foram guerras travadas contra uma causa um tanto
abstrata e longe de ser unânime, o avanço do comunismo. O
regime comunista, mesmo diante de inúmeras evidências de
fracasso do modelo, nunca foi traduzido imediatamente no Ocidente como
a encarnação do mal. Agora não. Agora se luta contra
o terror, algo tão desumano e atroz que o apoio universal está
assegurado. A unanimidade dentro dos Estados Unidos é quase total.
As pesquisas mostram que 95% dos americanos querem a guerra, mesmo que
ela resulte em baixas. Vão para a batalha com o mesmo ímpeto
com que marchariam para a II Grande Guerra caso os terrores do holocausto
promovido pelos nazistas fossem conhecidos antes do armistício.
Os terroristas islâmicos e seus patrocinadores falam em Guerra Santa.
Os americanos estavam tomados por uma ira santa, ao final do discurso
de George W. Bush: "O desenvolvimento desse conflito é desconhecido,
mas seu final é certo. Venceremos".

SETECENTAS
VÍTIMAS
O âncora de televisão Dan Rather chora (foto)
e Howard Lutnick se desespera: 700 de seus 1 000 funcionários
da corretora Cantor Fitzgerald morreram no atentado terrorista ao
World Trade Center |
Mas quando
e como será o ataque? Bush esforçou-se na retórica
para assegurar à opinião pública que o uso da força
contra os agressores de Nova York e Washington é iminente. "A hora
de agir está chegando", disse ele, referindo-se aos militares.
"Vocês nos deixarão orgulhosos." Bush não admitiu,
mas a verdade é que os Estados Unidos foram atingidos em seus valores
mais amados: as liberdades individuais e o bem-estar de uma rotina de
prosperidade sem precedentes. O terror atingiu em cheio o modo de vida
americano. A economia andou de pernas bambas, e os cidadãos passarão
em breve a conviver com leis que limitarão sua liberdade de ir
e vir. Na semana passada, eles viram Dan Rather, o âncora de televisão
mais frio e durão da atualidade, ir às lágrimas ao
comentar o ataque terrorista no programa de entrevistas de outro símbolo
do país, David Letterman. Ele próprio disse que só
voltou ao trabalho para atender a um apelo de Rudolph Giuliani, prefeito
de Nova York, que tenta restabelecer a normalidade em sua cidade. Viram
a lendária revista The New Yorker circular de capa preta,
sem suas tradicionais charges, que nunca antes haviam deixado de sair
mesmo em meio a catástrofes nacionais, como o assassinato do presidente
John Kennedy, em 1963.
Rufaram
os tambores da guerra até por quem fez carreira com a virtude da
frieza e do distanciamento. "Nós vamos fincar o polegar no olho
dos assassinos", disse Paul O'Neill, secretário de Tesouro, conhecido
pela enorme gentileza no trato pessoal. "Dessa vez é diferente,
é sujo, estamos lidando com terroristas, e não respondendo
a nenhum conflito mundial", declarou Peter MacBride, filho de Sean MacBride,
prêmio Nobel da Paz em 1974. "Temos uma espada bem afiada que será
usada em breve", disse Dan Rather, depois de enxugar as lágrimas.
Num clima desses, o inimigo não é visto como um bando de
guerreiros montados em cavalos e camelos, empunhando fuzis antiquados,
que efetivamente é. O inimigo passa a ser perigoso como as armas
que usou no atentado aviões a jato e o fogo das explosões
e por sua retórica de destruição, como a dos
versos escritos pouco tempo atrás pelo principal alvo dos americanos,
o terrorista Osama bin Laden: "Os pedaços de corpos de infiéis
voando como partículas de pó / Se seus olhos vissem isso,
seu coração se encheria de alegria".

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