A política e os bons costumes

As últimas de Clinton e de Fernando Henrique, à
luz do paradigma oferecido por Mirabeau

Entre Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso, dois personagens da semana, fiquemos com... Mirabeau, personagem de dois séculos atrás. Mais precisamente, com Mirabeau tal qual o vê Ortega y Gasset. Mirabeau (1749-1791), o leitor sabe, foi uma das maiores figuras da Revolução Francesa, formidável encarnação do grande orador, grande líder e grande inteligência, tanto quanto do mulherengo incontido, do encrenqueiro e do caloteiro eternamente perseguido pelos credores. Ao morrer, foi enterrado com todas as honras no Panthéon, o templo leigo, em Paris, destinado aos grandes homens. Pouco depois se descobriu que, ao mesmo tempo que se arvorava em um dos chefes da nova ordem, Mirabeau mantinha uma correspondência secreta com o rei Luís XVI, na qual desempenhava o papel de seu conselheiro. Traidor! Com a memória coberta de infâmia, ele teve seus restos retirados do Panthéon. Entrou para a História como símbolo, tanto da genialidade quanto da imoralidade do político.

Imoralidade? Num famoso ensaio, intitulado "Mirabeau, ou o Político", o filósofo espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955) toma Mirabeau como representante supremo — ou arquétipo, para usar a exata palavra do filósofo — desse ser tão vilipendiado, exatamente pela, digamos, fraqueza moral, que é o político, para repropor a questão em outros termos. "Não acusemos de imoralidade o grande político", escreve. "Digamos que lhe faltem escrúpulos. Um homem escrupuloso, porém, não pode ser um homem de ação. (...) O mundo antigo, quando decidiu ser escrupuloso — no estoicismo —, teve de eleger como norma suprema a epoché, a inação."

O deputado que pediu a expulsão dos restos de Mirabeau do Panthéon, Joseph Chénier, argumentou que "não há grande homem sem virtude". Ortega y Gasset agarra-se a essa frase para, ao longo do ensaio, demoli-la. Escreve: "Chénier exige de Mirabeau que seja Mirabeau e, além disso, que seja o senhor Duval, um dos muitos milhões de senhores Duval que compõem a mediocridade da França ou de qualquer outra nação, em qualquer época. Porque, efetivamente, esses milhões de homens são virtuosos: não trapaceiam, não mentem... Todo o seu valor se resume em não fazer essas coisas, de fato imorais". Às "pequenas virtudes" do homem comum Ortega opõe "as virtudes criadoras, de grandes dimensões, as virtudes magnânimas" de que seria dotado um grande político, ocupado com valores que não costumam atormentar os senhores Duval, como a organização do Estado e da sociedade, a liberdade, a justiça, o futuro. "Não há grande homem com virtude", conclui Ortega, colocando do avesso a frase de Chénier. "Entenda-se: com pequena virtude", precisa.

Bill Clinton é acusado de prevaricação sexual. Mirabeau, que se definia como "atleta do amor", também foi. Clinton é acusado de mentir. Mirabeau também foi. Os grandes políticos, diz Ortega y Gasset, possuem o "dom da mentira". O leitor perguntará a essa altura o que se pretende nesta página com essa salada de Ortega y Gasset e Clinton, Clinton e Mirabeau. Absolver Clinton? Não. Isso de condenação ou absolvição é com os americanos e, ademais, urge colocar ambos os políticos referidos, Mirabeau e Clinton, nas devidas proporções. Clinton, por bom presidente que seja, não é Mirabeau. Também é duvidoso que se enquadre na categoria de "grande político" contemplada por Ortega y Gasset. O que se oferece aqui é uma visão alternativa, apenas isso. Um lado a se levar em conta quando um político está em julgamento.

E Fernando Henrique Cardoso, citado acima, que teria a ver com esta história? Mais uma vez, coloquem-se as coisas nas proporções devidas. O presidente brasileiro nem de longe enfrentava uma acusação como a que atingia o americano nem corria os perigos que este corre, mas esteve igualmente às voltas, na semana passada, com um problema que não deixa de ter seu aspecto, com perdão da palavra, "moral". A campanha eleitoral marcou a espetacular reunião, num mesmo outdoor, em São Paulo, de Fernando Henrique e Paulo Maluf, um candidato a presidente, outro a governador. Fernando Henrique e Maluf, juntos! Jamais os antigos seguidores do presidente haviam sido espicaçados — ou ofendidos, talvez seja mais próprio dizer — de maneira tão gráfica com as conseqüências de sua política de alianças. Num evento do PSDB a que compareceu o próprio Fernando Henrique, o economista André Franco Montoro Filho, integrante do governo paulista de Mário Covas e filho do ex-governador do mesmo nome, qualificou o cartaz de "revoltante".

A estes, aos que ainda se escandalizam com manobras como o acoplamento, num mesmo outdoor, de Fernando Henrique e Maluf, oferece-se o ensaio de Ortega y Gasset como consolo. Escreve o filósofo que a política de Mirabeau, com um olho na revolução e outro no rei, um na nova ordem e outro na velha, "postulava, como toda política autêntica, a união dos contrários". Quem sabe não seja um consolo? Sirva-se, quem achar que é.




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