O pesadelo do fim do século

Um estudo mostra como impedir que a multidão
de desempregados continue crescendo

Eliana Simonetti

O desemprego é a principal preocupação política dos governos neste final de século e uma chaga que tem estragado uma economia que melhorou muito em termos tecnológicos e de bem-estar das pessoas. A inflação foi liquidada na maior parte do mundo, os produtos caíram de preço e o capital voltou aos países em desenvolvimento. Mas o desemprego assombra. Segundo o Banco Mundial, ele é de 12% na França, 9% na Alemanha e 22% na Espanha. Até o Japão, que funcionou em regime de pleno emprego nos últimos cinqüenta anos, está às voltas com o problema. No Brasil, é uma das interrogações do momento. A taxa de desemprego chegou a 8% e não há certeza de que vá cair no futuro. Essa questão tem sido foco de estudo de muita gente. Foram criados termos na teoria econômica como desemprego estrutural, que é aquele provocado pela nova distribuição do trabalho, fruto da maior abertura dos países ao processo de globalização. Há também o desemprego tecnológico, que é a troca da mão-de-obra humana pelo trabalho do computador ou da máquina.

Ninguém até agora tinha observado com muito rigor técnico a dinâmica econômica interna dos países para ver se velhos vícios não estão estimulando, também, o despejo de empregados. Um estudo da consultoria americana McKinsey fez essa averiguação nas economias da França, Espanha, Alemanha, Japão e Estados Unidos. O resultado é surpreendente. Não são só a máquina de última geração ou o baixo custo da mão-de-obra nos países em desenvolvimento que tomam emprego de franceses, espanhóis e alemães. É, principalmente, o excesso de proteção ao trabalho e de regulamentos que entrava o bom funcionamento da indústria e do setor de serviços. Essa é a razão pela qual as montadoras européias de carros investem pesadamente no exterior e não em seus países de origem. Também é o motivo pelo qual o investimento estrangeiro direto se está dirigindo firmemente para países emergentes — apesar da instabilidade gerada pelo capital volátil.

Praga — Dos cinco países analisados, apenas um, os Estados Unidos, aplicaram decididamente uma política de desregulamentação econômica e deixaram os contratos entre patrões e trabalhadores nas mãos das duas partes. O resultado é que os americanos, hoje em dia, praticamente não conhecem o desemprego. Aliás, faltam trabalhadores. Muitas empresas estão buscando mão-de-obra fora do país. Nos outros a situação é muito diferente. A França não cria um emprego líquido há vinte anos. A Alemanha, que é a terceira potência industrial do mundo, foi incapaz de manter taxas razoáveis de desemprego nos últimos sete anos. E na Espanha, o país do célebre pacto de Moncloa, em que trabalhadores e patrões se ajustaram para não haver demissões nem greves, a situação é desastrosa. Dois em cada dez espanhóis estão de mãos abanando. Isso num país que recebe milhões de turistas e tem uma indústria maior do que a brasileira.

O problema apontado pela McKinsey é de simples entendimento. Nos lugares onde o desemprego é uma praga, o trabalhador é tão protegido que o industrial tem medo de contratá-lo, porque na hora da demissão terá de pagar uma fortuna. A Espanha ensaiou uma redução dos custos trabalhistas, mas os sindicatos impediram a reforma. Na velha cabeça sindical espanhola, mais vale um trabalhador com estabilidade e salário alto do que três pessoas empregadas. A questão do excesso de regulamentação trabalhista agrava-se na França. Há vinte anos a carga de trabalho vem sendo reduzida no país, numa tentativa de abrir novas vagas. Só que o salário não cai. Com essa equação pouco viável, os empresários franceses preferem reduzir a produção a contratar. "A proteção tende a ter efeito inverso ao esperado", diz Heinz-Peter Elstrodt, sócio da McKinsey.

Amarras — A regulamentação econômica é outro problema. A Alemanha proíbe que o comércio abra depois das 6 horas da tarde. É uma burocracia de cabeça oca, pois é justamente nesse horário que as pessoas podem sair do trabalho e fazer compras. O estudo da McKinsey prova que nos lugares onde o comércio é livre para funcionar quando quiser há 50% mais trabalhadores por consumidor. Nos Estados Unidos, onde a legislação facilita a criação de novos negócios e não interfere nos contratos de trabalho, quem perdeu o emprego na indústria encontrou uma vaga nos serviços. Os salários não caíram e, o que é mais notável, metade dos postos de trabalho criados na década de 90 é para profissionais de alto nível, como executivos, administradores, advogados e analistas de sistemas.

A McKinsey conclui que a criação de empregos exige um Estado pouco interventor, que estimule a economia a se tornar produtiva e a crescer sem interferir demais no funcionamento das empresas e na vida dos trabalhadores. "Os governos são a principal razão por que o processo de evolução econômica vai melhor em alguns países do que em outros", informa o relatório da empresa de consultoria. É possível verificar essa tese. No início dos anos 90, o governo Menem promoveu uma série de reformas na Argentina. Privatizou empresas estatais e admitiu treze formas diferentes de contratos trabalhistas (para jovens, com menos encargos sociais e por tempo parcial, entre outros). Três anos atrás, 19% dos trabalhadores argentinos estavam desempregados. Hoje são 13%. É uma taxa alta, mas decrescente. O mesmo acontece na Inglaterra, onde a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher privatizou empresas, desregulamentou a economia e a legislação trabalhista. O país entrou numa fase de crescimento quando o restante da Europa estava patinando. O desempenho inglês só não tem sido melhor porque a dama de ferro e seus sucessores não conseguiram tirar as amarras do setor de serviços — responsável por 70% dos empregos nos países desenvolvidos.

O Brasil tem avançado nessa área. Hoje o comércio já pode abrir aos domingos. As microempresas estão autorizadas a contratar trabalhadores por tempo determinado, com encargos reduzidos (desde que o sindicato seja o intermediário da negociação). Há uma proposta do governo que permite redução da jornada semanal de trabalho para 25 horas, com redução equivalente de salário. "São passos tímidos, mas estão na direção certa", diz José Pastore, professor da Universidade de São Paulo especialista em trabalho e emprego. Pelo que mostra a McKinsey, com menos regulamentos haverá mais investimentos no Brasil. Foi assim em outros países. O PIB poderia dobrar nos próximos dez anos e o desemprego cairia para patamares suportáveis.

 


 





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