O furacão vermelho

Com a economia fora de controle, a Rússia
pede moratória e empurra o mundo para um
estado de ansiedade e desconfiança

Eliana Simonetti

Há duas semanas foi o Japão, na semana passada, Rússia e Venezuela, e para esta semana há uma bolsa de apostas sobre qual será a próxima bola a caminho da caçapa da crise financeira. Achatada por dívidas que não pode pagar, sem crédito entre investidores, com as exportações em queda, desemprego em alta e várias outras rupturas no tecido econômico, a Rússia entregou os pontos na semana passada. O governo determinou que empresas e bancos deixem de pagar seus compromissos externos pelos próximos noventa dias. A palavra delicada para a determinação é moratória. O termo mais compreensível é calote. Calote é a pior coisa que poderia acontecer. Quem faz isso perde os amigos, espalha desconfiança entre os que emprestam dinheiro, dificulta a vida de quem deve. Foram essas as conseqüências da moratória russa. No dia seguinte, o dinheiro começou a escapar dos países que baseiam seu desenvolvimento em empréstimo externo, entre eles o Brasil, que perdeu 1 bilhão de dólares.

Os títulos da dívida externa brasileira caíram de preço no mercado internacional. Um C-Bond era negociado na última quinta-feira por 61% de seu valor de face. Títulos do governo russo são oferecidos a 18%, o que é uma tremenda pechincha, mas ninguém quer esse mico. A Venezuela já estava havia tempos na corda bamba porque sua principal receita vem da exportação de petróleo, mercadoria cujo preço não pára de cair. Só neste ano, a receita deve cair 7 bilhões de dólares. A crise russa empurrou o país para a beira do poço. Na semana passada, o governo venezuelano aumentou os juros de 30% para 90% ao ano, sob o fogo de um ataque especulativo. Em seguida, os investidores olharam para o México, outro exportador de petróleo. E, de canto de olho, também para o Brasil.

Bruxa — O mundo voltou a boiar no caldeirão da bruxa, na semana passada — o que não chega mais a ser novidade. As bolsas caíram de norte a sul, com destaque para a bolsa alemã. Por tradição, ela é muito estável. Na sexta-feira, fechou com uma perda de 6%. Explicação: os alemães emprestaram 30 bilhões de dólares aos russos. São seus maiores credores. Em segundo lugar vêm os americanos, com créditos de 7 bilhões. Alemães e americanos foram os que mais se entusiasmaram com a queda do comunismo soviético e durante boa parte dos anos 90 acreditaram que a Rússia se transformaria rapidamente numa pérola de progresso. Descobriram agora que a passagem súbita da economia hipercontrolada para o sistema de mercado não é um processo fácil. Vai demorar, requer sacrifícios e pode gerar prejuízos no mundo inteiro.

A Rússia pediu moratória porque deve 40 bilhões de dólares a curto prazo aos bancos estrangeiros. Teria de desembolsar o dinheiro até o final de 1999. Mas só tem em suas reservas 17 bilhões de dólares. Precisa desse dinheiro para necessidades mais urgentes, como comprar comida. Está importando praticamente tudo o que o povo russo consome. A moratória veio cinco semanas após o FMI liberar a primeira parte de um empréstimo de 23 bilhões de dólares. Essa primeira parcela, de 4,8 bilhões, já foi torrada. Uma parte, cerca de 1 bilhão, o governo usou para tapar buracos no orçamento. O resto foi usado para deter ataques especulativos contra o rublo. O FMI não gostou e não dará mais dinheiro se não houver um rígido programa de recuperação econômica. O grupo dos sete maiores países industrializados quer colocar um bedel dentro do Kremlin para fiscalizar o uso do dinheiro do FMI.

O problema russo não é apenas de liquidez ou de defesa da moeda. Tem um número maior de braços. O primeiro deles é formado pelos defeitos estruturais na economia. Não se recolhem impostos no país, embora existam 200 tributos na legislação. Não há imposto porque não existem fiscais. Não existem fiscais porque na época do comunismo não se recolhiam impostos, e não existe sequer o cacoete da cobrança. Todo o sistema de cobrança e fiscalização terá de ser montado, mas o governo russo, em sete anos de ensaios capitalistas, não tomou essa providência. O país privatizou a maior parte de suas indústrias, mas eram todas tão velhas e produziam coisas tão arcaicas que estrangeiros não quiseram comprá-las. As estatais acabaram sendo vendidas para russos, em troca de rublos. O governo não fez caixa e o parque industrial do país fechou, faliu. Sem a menor idéia do que seja eficiência, qualidade e preço numa economia de mercado, os empresários russos fracassaram na administração das empresas.

Prataria — Os turistas podem ver o resultado dessa quebra nas ruas. Até caixas de fósforos são importadas. Como importações são pagas em divisas fortes, houve a sangria que quebrou o país. O problema é tão sério que os turistas são proibidos de comprar ouro, antiguidades, jóias e obras de arte. São considerados ativos financeiros pelo governo russo. Situação semelhante ocorreu apenas nos primeiros anos da revolução bolchevique, em que o país teve de vender até a prataria do czar para comprar trigo. Tamanha é a necessidade de fazer caixa que a Força Aérea aluga seus MIGs para passeios com turistas, e a Marinha faz o mesmo com seus submarinos.

A destruição econômica é produto de uma série de pequenos defeitos. O comerciante russo não trata bem a clientela, seja estrangeira ou russa. Os prestadores de serviço, como os garçons, donos de restaurante ou taxistas, têm o mesmo comportamento. Eles não entendem que, se trabalharem melhor, ganharão mais. Esse conhecimento comezinho do valor do trabalho foi apagado pelos setenta anos de economia planejada, moeda sem valor e desestímulo ao consumo. O valor que ficou foi o da obediência. O que se perdeu foi flexibilidade, essencial num ambiente de competição.

Na Rússia, com a falta de gente treinada para comprar e vender, investir, negociar, trocar títulos, quem apareceu para mandar na economia foram os piratas, que acumularam bens — e amigos — na antiga burocracia. Eles formam uma máfia que domina os grandes negócios. Muitos deles vieram da KGB, a polícia secreta soviética. A KGB sobreviveu ao fim do comunismo e sua função oficial, agora, é combater a corrupção. É a raposa controlando o galinheiro. Isso dificulta tremendamente o investimento estrangeiro produtivo, que gosta de autoridade e normas claras. Os bancos russos preocupam mais que o decadente arsenal nuclear. É difícil saber como fazem sua contabilidade, outra coisa inexistente no regime soviético. O que se sabe é que todos sobrevivem com dinheiro estrangeiro de curto prazo e especulam fortemente na bolsa. Como a bolsa já caiu 71% neste ano, a situação dos bancos é previsivelmente desastrosa.

Calafrios — Sete décadas de isolamento criaram uma economia distorcida e uma mentalidade que não percebe bem a cor do capitalismo. O governo permite que as pessoas transfiram apartamentos pertencentes ao Estado para seu nome, sem pagar um tostão. Apenas 20% das pessoas foram buscar a escritura. As outras nem ligaram. A Rússia está num tremendo sufoco e não pode continuar indefinidamente a consumir produtos importados sem exportar coisa alguma. A população não percebeu o perigo. Há duas semanas, quando o ataque especulativo contra o rublo se intensificou, a bolsa de valores, que no ano passado negociava 200 milhões de dólares por dia, passou a girar apenas 10 milhões de dólares ao dia. O presidente Boris Ieltsin e o presidente do BC russo, Sergei Dubinin, estavam de férias. Só retornaram a Moscou na segunda feira, para o anúncio do calote. Os deputados russos, que precisam aprovar reformas econômicas, tiraram uma folga na semana passada. Já avisaram que a votação do pacote fiscal, previsto para acontecer ainda neste mês, ocorrerá apenas lá pelo final do ano.

O que traz calafrios a respeito da desorientação russa é a questão política. Um quinto da população ainda é comunista de carteirinha. O Parlamento é dominado por comunistas e pediu na quinta-feira a renúncia de Ieltsin. O país carrega bombas atômicas, submarinos nucleares e um Exército que ainda mete medo. Por isso, em Washington, Londres, Paris e Bonn, o rolo russo é tratado como uma questão de segurança, e não propriamente de economia. O que não se quer é que um desequilibrado aproveite a confusão e assuma o comando. Essa particularidade se transformou numa esperança. A crise provavelmente será detida com ajuda dos países ricos do Ocidente.




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