Divina urna

Evangélicos que lideram as pesquisas escondem
apoio dos fiéis, enquanto católicos correm atrás

Rossi, líder na
disputa em São
Paulo: "Fui ingênuo
nas últimas eleições"
Foto: Frederic Jean  

Desde que começaram a crescer em ritmo acelerado, nos anos 80, os evangélicos passaram a ser um dos alvos prediletos dos candidatos. Com 16 milhões de almas, eles seguem à risca a orientação dos pastores e militam como petistas. A novidade em dois dos maiores eleitorados do país, São Paulo e Rio de Janeiro, é que os líderes na corrida ao governo dos dois Estados, Francisco Rossi e Anthony Garotinho, são evangélicos mas preferem ficar calados sobre essa particularidade. Seus adversários são católicos, no entanto não perdem uma oportunidade de fazer um teatrinho evangélico na frente de eleitores crentes. "Sinto que não devo usar a igreja para alavancar votos", diz Garotinho, primeiro lugar nas pesquisas no Rio, com 35%, convertido há quatro anos. O paulista Rossi também não se apresenta como evangélico nesta campanha. "Fui ingênuo nas últimas eleições e, agora, não vou deixar que me vinculem a minorias evangélicas", afirma. Em 1996, ele fazia campanha com a Bíblia na mão e bordões divinos no discurso. Guardou tudo no armário.

Já os candidatos que vão mal nas pesquisas fazem o oposto. Na semana passada, o governador licenciado Mário Covas, terceiro na disputa paulista, reuniu-se com oitenta líderes evangélicos. Saiu do encontro com a promessa dos pastores da criação de um comitê de apoio a sua candidatura. O ex-prefeito Paulo Maluf, segundo nas pesquisas, já montou seu comitê. Conta com o apoio da Assembléia de Deus, onde estão 30% dos evangélicos brasileiros. No Rio, o ex-prefeito Cesar Maia, segundo nas pesquisas, está tão interessado no rebanho que até ensaiou uma conversão durante uma vigília de 5.000 jovens num subúrbio carioca. Diante da multidão, o pastor perguntou ao ex-prefeito se ele já havia dado sua alma a Cristo. Maia disse que sim. Perguntado se já fizera essa confissão em público, respondeu que não. Convidado a fazê-la, empertigou-se diante dos fiéis e recitou, sob os aplausos da assistência: "Confesso que Jesus Cristo é o senhor e salvador de minha vida".

Seria ingênuo atribuir o sucesso de Rossi ou Garotinho a suas convicções religiosas. Embora sejam cada vez mais numerosos, os evangélicos não representam mais que 15% do eleitorado. Mas também é inegável que o apoio deles tem o poder de alavancar uma candidatura. "Uma das poucas coisas organizadas no Brasil é a Igreja", diz o cientista político Leandro Piquet Carneiro, da Universidade de São Paulo. "Nada é mais importante para um político que um grupo organizado para difundir suas idéias." A batalha pelo voto evangélico só não mobiliza os candidatos ao Planalto. O presidente Fernando Henrique Cardoso deverá ter, em breve, um comitê organizado pelo ex-ministro Iris Rezende. Mas foi um pedido dos próprios evangélicos, não do candidato. Luís Inácio Lula da Silva, do PT, satanizado nos cultos da Igreja Universal do Reino de Deus no passado, agora terá paz. Não tem o apoio da igreja, mas deixou de ser apresentado como o demônio de barba.

Alexandre Oltramari




Copyright © 1998, Abril S.A.

Abril On-Line