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Home  »  Revistas  »  Edição 2127 / 26 de agosto de 2009


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Esporte

Um atleta além dos limites

O desempenho espetacular de Usain Bolt, que quebrou
novamente o recorde dos 100 metros, põe em dúvida todas
as previsões científicas sobre a velocidade máxima que
o corpo humano é capaz de atingir


Duda Teixeira

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Qual o tempo mínimo em que um homem pode completar os 100 metros rasos? Nos últimos 100 anos, desde a primeira Olimpíada moderna, vários centros de pesquisa tentaram estabelecer esse limite por meio de cálculos estatísticos, dados demográficos ou análises das características físicas de recordistas do passado. Apesar de todo esse esforço científico, a única resposta possível no momento vem das pistas. O limite do corpo humano não está mais sendo estabelecido pelos matemáticos ou fisiologistas, mas por Usain Bolt. No domingo 16, no Mundial de Atletismo em Berlim, o corredor jamaicano quebrou o recorde mundial com o tempo de 9,58 segundos. Na quinta-feira, ele ainda definiu um novo tempo, 19,19 segundos, para os 200 metros rasos. É uma verdadeira revolução no mundo das bioestatísticas. Uma conceituada instituição japonesa, depois de estudar demoradamente a evolução do esporte, chegou à conclusão de que a marca de 9,69 segundos seria alcançada em 2030 e a de 9,58, só em 2080. No ano passado, um estudo do Instituto de Pesquisa Biomédica e de Epidemiologia do Esporte, de Paris, estimou o derradeiro recorde em 9,67 segundos, limite que Bolt ultrapassou com impressionante facilidade.

Uma estimativa ainda válida foi feita em um estudo da Universidade Stanford, no ano passado. Baseados nos registros de tempo das corridas de cães e cavalos, cujos limites já são conhecidos, os pesquisadores cravaram o tempo de 9,48 segundos para os seres humanos. Usain Bolt diz que o recorde que ele próprio considera humanamente insuperável é de 9,40 segundos. Alguns treinadores acreditam que ele chegará a um resultado ainda melhor. "Se algum cientista estipulou um limite de 9,48 segundos, certamente terá de rever os cálculos em breve", disse a VEJA Katsuhico Nakaya, técnico da seleção brasileira feminina de atletismo. Bolt já quebrou três vezes o tempo da prova. Desde maio do ano passado, ele diminuiu o tempo mínimo em catorze centésimos. Antes dele, uma redução dessa dimensão demorou dezessete anos para acontecer.

Bolt é jovem – completou 23 anos na última sexta-feira – e pratica uma modalidade esportiva em que os atletas atingem o auge entre os 24 e os 28 anos. "Existem muitas razões para acreditar que ele vai bater novos recordes, e a idade é uma das principais", disse a VEJA o fisiologista americano Peter Weyand, que estudou por seis anos o físico dos 45 melhores corredores da história. Outro motivo para esperar mais de Bolt é seu ponto fraco, o baixo desempenho na largada. Com 1,93 metro, mais alto que a média dos corredores, ele não brilha nos primeiros 10 metros de prova. Se melhorasse em um décimo de segundo seu tempo nessa primeira etapa, já seria o bastante para que atingisse o limite estabelecido pela Universidade Stanford.

A velocidade humana tem barreiras físicas bem conhecidas (veja quadro). A dificuldade está em adaptar a teoria a um atleta específico. Parte da facilidade com que Usain Bolt supera seus adversários se deve às origens étnicas. No passado, populações isoladas desenvolveram capacidades físicas específicas que ficaram impressas nos genes. Corredores com herança genética da África Oriental, como os etíopes e os quenianos, têm nos músculos grande quantidade de fibras de contração lenta, o que os torna vencedores naturais de maratonas. "Já indivíduos com genes da África Ocidental, de onde provavelmente vieram os ascendentes do corredor jamaicano, têm mais fibras de contração rápida. São ótimos em provas de aceleração explosiva", disse a VEJA o antropólogo Daniel Lieberman, da Universidade Harvard.

O recorde dos 100 metros rasos para mulheres foi batido pela última vez pela americana Florence Griffith-Joyner, há 21 anos. Em cerca de 10% das modalidades olímpicas, os recordes são os mesmos há duas décadas. Só Usain Bolt pode nos dizer qual é o limite do homem.

Com reportagem de Leandro Narloch

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