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vão
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China Photos/Getty Images![]() |
"Os operadores de Wall Street mais espertos vão aprender
a dirigir tratores, para trabalhar para os fazendeiros, que serão os
verdadeiros ricos" |
Os operadores da Bolsa de Nova York terão de procurar emprego como motoristas de táxi. Os melhores conseguirão trabalho como tratoristas. Quem faz a previsão com a ironia e a autoridade características é o investidor americano James "Jim" Rogers, de 66 anos. A fama dele vem dos anos 70, quando, ao lado de George Soros, criou e administrou o Quantum, fundo de investimentos que obteve até então a maior valorização da história do capitalismo 4 000% em seus primeiros dez anos. Na mesma década, as ações de empresas americanas subiram, em média, meros 50%. Rogers e Soros tiveram nas finanças reconhecimento equivalente ao desfrutado na biologia por Francis Crick e James Watson, descobridores da forma da molécula do DNA. Na dupla de cientistas, gênio mesmo foi Crick. Na de financistas, Rogers. Ele falou a VEJA de seu escritório em Cingapura, para onde se mudou a fim de acompanhar de perto a economia asiática.
A economia mundial dá mostras de recuperação,
e as ações voltaram a se valorizar. Já é possível
dizer que o pior ficou para trás?
Não apostaria nisso.
Nos próximos anos, haverá poucos empregos em Wall Street. Sempre
brinco dizendo que os corretores de investimentos terão de dirigir táxis.
Os mais espertos, contudo, aprenderão a dirigir tratores, para que possam
trabalhar para os fazendeiros, que serão os verdadeiros ricos dos próximos
trinta anos. Os fazendeiros serão os donos dos Lamborghinis no futuro,
não mais esses espertalhões do mercado financeiro.
Por que os agricultores ficarão tão ricos?
A
agricultura é a única área da economia mundial cujos fundamentos,
até onde eu sei, estão realmente melhorando. Ela deve ser o primeiro
setor a crescer quando o mundo sair da crise. É bastante provável
que nos próximos anos eu aplique a maior parte de meus recursos em commodities
agrícolas. A sorte do Brasil, em particular, é ter um agronegócio
bastante expressivo e competitivo e contar com abundância de recursos
naturais. Certamente haverá oportunidades no mercado de produtos agrícolas.
Por isso, o Brasil está mais bem posicionado que outros países
na atual situação da economia mundial. Os frutos virão,
desde que, é claro, o governo mantenha a seriedade na política
econômica.
A economia brasileira pode se candidatar, então, a ser
uma das que mais crescerão no mundo pós-crise?
Países
bem administrados e com grandes quantidades de recursos naturais têm mais
a ganhar. Eles tendem a se beneficiar do crescimento da única área
cujos fundamentos não foram abalados pela crise, o mercado internacional
de commodities. Mas, independentemente disso, aquelas nações que
conseguiram amealhar fortunas em reservas internacionais também largam
na dianteira. China e Cingapura, por exemplo, são países com reservas
gigantescas que financiam as vitais obras de infraestrutura. Não precisam
tomar empréstimos, imprimir dinheiro ou aumentar os impostos para ampliar
a arrecadação. Eles possuem reservas suficientes para se reerguer
mais rapidamente.
| "O Brasil tem um agronegócio competitivo, além
de possuir enorme quantidade
de recursos naturais. Haverá muitas oportunidades.
O país está bem posicionado nesta crise" |
Que países terão mais dificuldade para se livrar
dos efeitos negativos deixados pela crise?
Os Estados Unidos e
a Inglaterra foram os mais afetados, porque se atolaram mais fundo em dívidas.
Assim, acredito que também serão os últimos a sair de fato
dela e a superar suas consequências. Acho estranho quando ouço
alguns analistas dizer que estão otimistas com os indicadores econômicos
daqueles países. O que eles estão vendo? Ainda não vejo
dados encorajadores.
Muito se fala que a crise foi a mais severa desde a Depressão
dos anos 30. O senhor corrobora essa avaliação?
Para muitos
países, foi, sem dúvida. Os Estados Unidos e a Inglaterra sofrerão
por muitos anos ainda os efeitos da crise. Não ficarei surpreso se a
economia americana tiver uma década perdida. Como muitos pareciam imaginar,
no fim das contas os Estados Unidos mostraram que não são uma
terra encantada, onde nada de ruim pode acontecer. O país enfrentará,
sim, desafios sérios, como já enfrentou no passado. A recessão
poderá até se prolongar se o governo americano continuar a cometer
erro atrás de erro.
Que erros foram esses?
O maior equívoco foi
o fato de o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) e o Tesouro
dos Estados Unidos não terem permitido, na última década,
que nenhuma grande instituição financeira fosse à lona.
Toda vez que alguém se via às voltas com alguma encrenca, chamava
logo o Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, e dizia: "Salve-me, salve-me,
salve-me!". O governo abraçava a causa e salvava a empresa. Para
isso era necessário imprimir mais dinheiro. O Fed e o Tesouro fizeram
isso diversas vezes. Por isso são os maiores culpados pela enrascada.
Eles sinalizaram que não havia risco, pois sempre correriam ao resgate
dos incautos. Em 1998, o Long Term Capital Management (LTCM) enfiou os pés
pelas mãos e chegou à beira da falência. Era uma grande
empresa de investimentos vitimada por apostas que pareciam espetaculares até
que sobreveio a moratória russa. O Fed e o Tesouro deveriam ter deixado
o LTCM afundar. Teria sido uma lição para todos, e hoje, como
resultado dela, o Lehman Brothers (banco de investimentos que faliu em setembro
passado) ainda estaria no negócio e o Bear Stearns (outro falido) também.
Mas não havia o risco de recessão?
Não.
O risco maior foi sinalizar para o mercado que eles estavam atuando sob proteção.
Isso explica por que muita gente boa assumiu riscos que acabaram mais tarde
envenenando as instituições financeiras. Em um mercado sem risco,
os mecanismos de depuração do capitalismo deixam de funcionar
e os incompetentes são premiados com a permissão de continuar
no jogo quando deveriam ter sido banidos. Aliás, o Fed deveria ter varrido
os incompetentes logo depois do estouro da bolha da internet, no ano 2000. Ali
também, a pretexto de evitarem a recessão, as autoridades foram
frouxas e acabaram permitindo a formação de uma bolha de consumo
nos Estados Unidos que insuflou outra bolha especulativa, a do mercado imobiliário.
Repetindo, os problemas começaram mesmo depois que o governo americano
e seu banco central impediram a falência de quem, de outra forma, estaria
fora do jogo, sem condições de cometer mais erros. Agora, todos
nós vamos pagar por isso durante um bom tempo.
Que efeitos tiveram as ações de emergência
da equipe econômica de Barack Obama?
O Geithner (Timothy
Geithner, secretário do Tesouro) está "por aí"
há duas décadas, e veja tudo o que já fez. Ele cometeu
muitos erros. Esteve envolvido na crise asiática, no fim dos anos 90,
quando trabalhava na divisão de assuntos internacionais do Tesouro. Ele
ajudou a agravar a crise asiática! Nos últimos anos, antes de
ser indicado para dirigir o Tesouro, Geithner havia sido o presidente do Federal
Reserve de Nova York, órgão ao qual cabia justamente a supervisão
das atividades de Wall Street e dos bancos. Quando esses bancos começaram
a apresentar problemas, ele ajudou a resgatá-los, em vez de deixá-los
quebrar. Se fosse dar uma nota, diria que Geithner é pior que zero! E
o que dizer do Summers (Lawrence Summers, conselheiro econômico de
Obama)? Foi ele que ajudou a arquitetar o plano de resgate do LTCM em 1998,
quando estava no Tesouro, durante o governo de Bill Clinton. Como vimos, isso
foi um divisor de águas na história das finanças. Ele marcou
o início da era da leniência com os gestores incompetentes e imprudentes.
Esses senhores têm agido assim por anos a fio. Eles conseguem estar sempre
errados.
Mas alguma coisa certa eles fizeram, pois o risco de falência
sistêmica foi afastado, não?
Nós estamos ainda
em uma situação de risco sistêmico! O risco vai estar conosco
enquanto os bancos forem vistos como instituições grandes demais
para que possam ser deixadas à própria sorte quando se metem em
encrencas. Durante séculos, sempre foi normal bancos irem à bancarrota.
Isso nunca foi o fim do mundo. O correto é deixar meia dúzia de
pessoas se arruinar justamente para que outros indivíduos mais competentes
apareçam, assumam os ativos bons e comecem tudo de novo. Isso é
o capitalismo. Os grupos que tiram do bolso a carta da iminência do risco
sistêmico estão apenas dramatizando a situação para
tentar conseguir algum tipo de ajuda salvadora. São eles que clamam aos
governos: "Salvem-nos, salvem-nos, salvem-nos! Se não fizerem isso,
o mundo vai acabar!". É compreensível que ajam assim, porque
só o que querem é ser salvos.
| "Nos Estados Unidos, o consumo e o endividamento inflaram demais. Os americanos precisam reduzir drasticamente o ritmo de seus gastos, ampliar rapidamente a taxa de poupança e começar tudo de novo" |
Qual seria a melhor maneira de agir?
Veja o caso dos bilhões
de dólares destinados ao resgate de bancos. Se o governo tivesse ajudado
apenas os competentes, o resultado teria sido muito melhor. Mas vêm sendo
usados recursos para tentar revigorar ativos de má qualidade. Essa ideia
mostra que o governo americano atingiu o pico da insanidade. Isso significa
enfiar dinheiro pelo buraco! Quanto mais capital for torrado com ativos ruins,
menos recursos sobrarão para ser investidos em coisas que realmente contam.
A duração dos efeitos danosos da crise é diretamente proporcional
aos valores desperdiçados.
Muitos analistas justificam o salvamento dos bancos com base
na grande lição deixada pela crise dos anos 30 a de que
agir rápido é fundamental...
Os governos hoje têm
sido, de fato, mais rápidos. Mas o problema é que continuam agindo
errado. No passado recente, viu-se uma correria para tomar decisões que
culminaram em planos de resgate e outros tipos de intervenção.
Não raro, passado certo período, muita coisa era refeita. Em algumas
situações, gostaria até que eles fossem mais lentos. Assim,
levariam mais tempo para agir e, quem sabe, não cometeriam tantos erros
e tão rapidamente. Mesmo na década de 30, o país não
precisava ter passado por uma retração tão acentuada. Assim
como hoje, o problema não foi se o socorro veio cedo ou tarde. O que
levou à Grande Depressão foi o fato de os governantes terem cometido
erros terríveis.
Então, os bons números atuais não podem
ser vistos como garantia de que a economia americana está efetivamente
se recuperando?
Tivemos dez ou quinze anos dos piores excessos
já vistos no mercado de crédito não só da
história americana, mas de todo o mundo. Quando se vive um exagero gigantesco
como esse, alguém tem de pagar o preço. Não se pode simplesmente
acordar de manhã e dizer: "Está tudo bem agora. Vamos esquecer
o que foi feito nos últimos quinze anos". É inevitável
que os Estados Unidos tenham de sofrer. O grande problema da economia americana
é que o consumo e o endividamento inflaram demais. Agora, na tentativa
de reverter esse problema, optou-se por mais dívidas, mais consumo e
mais empréstimos. É insano imaginar que uma distorção
possa se resolver com mais daquilo que foi sua causa original. Os americanos
precisam reduzir dramaticamente seu ritmo de consumo, ampliar significativamente
sua taxa de poupança e começar tudo de novo. Não estou
sugerindo que esse é um processo prazeroso. Mas é o que tem de
ser feito.
Ficará mais difícil prosperar no mundo que se desenha
daqui para a frente?
Sempre existem oportunidades para ganhar dinheiro.
Aposto que muitas pessoas vão conseguir enriquecer nos próximos
vinte a trinta anos. Os agricultores, é óbvio, ficarão
riquíssimos! É bom lembrar que, mesmo durante a Grande Depressão,
houve famílias que construíram fortunas. Por outro lado, repito
que não haverá mais oportunidades como as que se podiam encontrar
em Wall Street ou na City londrina. Agora, riqueza mesmo virá do campo.