Roberto Pompeu de Toledo
O poder do pijama
"Getúlio poderia ter vestido um terno. Poderia,
se
optasse por um aparato teatral, ter recorrido
a um smoking. Não. Nos
trajes mesmos em que
se deitara, deu-se o tiro"
O pijama de seda e de listras que o presidente Getúlio
Vargas usava quando se suicidou voltará a ser exibido, a partir desta
segunda-feira, 24 de agosto, no Museu da República, instalado no mesmo
Palácio do Catete em que se deu o fato. Fazia oito meses que o pijama
estava ausente da vista do público, recolhido para trabalhos de restauro.
Eis um prato cheio, para quem tem o gosto fetichista (e poucos não têm)
de contemplar um objeto que fez história. Pode-se ver até, à
esquerda, junto ao bolsinho, a marca da bala com que seu usuário alvejou
o próprio coração. O pijama de Getúlio é
uma das peças capitais da história do Brasil. Não tem o
esplendor da coroa de dom Pedro II, mas sua humildade só lhe aumenta
a carga simbólica. A data de sua volta aos olhos do público coincide
com o 55º aniversário da morte do dono.
Pijamas, com toda a singeleza de peça doméstica,
de uso na hora desprevenida em que se vai para a cama, podem fazer história.
O de Getúlio protagoniza um caso extremo, mas há outros. Ainda
recentemente, tivemos, no episódio da deposição do presidente
de Honduras, Manuel Zelaya, o detalhe capital de que ele foi retirado do palácio
ainda de pijama, assim arrastado até o aeroporto e assim depositado na
vizinha Costa Rica. Não foi a primeira vez que isso ocorreu, na crônica
dos golpes na América Latina. No Peru, em 1968, o presidente Belaúnde
Terry também foi arrancado do palácio de pijama pelos golpistas
do general Velasco Alvarado e assim conduzido ao exílio.
De pijama! O detalhe potencializa a feição selvagem
de que se reveste o golpe, traiçoeira como emboscada. As vítimas
são surpreendidas durante a noite, na hora sagrada do repouso e do silêncio.
Se fosse só isso já seria grave, mas a particularidade de não
lhes darem tempo de trocar de roupa acrescenta à traição
a vontade de humilhar. A intenção é exibi-las na fragilidade
da roupa íntima, só a um grau de distância da cueca, e a
dois graus da nudez. Se as circunstâncias foram semelhantes, nos casos
de Belaúnde e de Zelaya, a sequência os diferenciou. Belaúnde,
um homem pacato, assimilou a deposição humilhante e conformou-se
ao exílio. Zelaya, mais combativo, e sobretudo favorecido por uma era
em que os golpes não são mais aceitos como um fato da vida, como
nos tempos de Belaúnde, acrescentou o pijama às suas armas de
luta. Tanto o mencionou, para dramatizar o seu caso, que os inimigos passaram
a contra-atacar com a versão de que o pijama teria sido encomendado na
Costa Rica.
O pijama de Getúlio, tão convencional, como é
próprio dos pijamas, e tão inerte, como eles costumam ser quando
não têm o dono dentro, é ainda assim, para o Museu da República,
uma atração central como é a Mona Lisa no Museu
do Louvre. Recordem-se os acontecimentos daquele agosto de 55 anos atrás.
O presidente estava acuado por uma oposição que lhe exigia a renúncia.
Uma reunião ministerial para avaliar a situação começa
na noite do dia 23 e vara a madrugada, até quase raiar o dia 24. Getúlio
decide que tirará uma licença do cargo. Sobe então aos
aposentos íntimos do palácio, veste o pijama, deita-se na cama.
Dorme um pouco, se é que conseguiu dormir, e recebe a notícia
de que os militares não aceitarão a licença querem
a renúncia. Sai então do quarto, vai ao gabinete de trabalho e
ao voltar um funcionário nota que carrega algo volumoso por baixo do
paletó do pijama. Às 8h30, o tiro ressoa no palácio.
Foi sua obra-prima. No plano das ações de governo,
Getúlio é questão eternamente em aberto. Seu período
foi de industrialização e de desenvolvimento, mas foi também,
na fase ditatorial, da censura, da tortura e dos assassinatos. Realização
realmente incontroversa, porque acuou os inimigos, deu sobrevivência a
seu grupo e inflou a biografia que legou à história, foi o suicídio.
E o suicídio resultou ainda mais bem-acabado porque cometido de pijama.
Ele poderia ter vestido de volta o terno que usara até pouco antes. Poderia,
se optasse por um aparato teatral, ter se metido num smoking, ou ter se enlaçado
na faixa presidencial. Ficou no pijama mesmo. Com isso, ressaltou sua situação
indefesa, diante da ferocidade do inimigo, e, de quebra, aplicou a pincelada
final à cultivada imagem de homem simples, político despojado
e presidente amigo dos pobres. |