Brasil
"LULA NÃO FARÁ SEU SUCESSOR"
Oscar Cabral
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Carlos Augusto Montenegro é um dos mais experientes analistas
do cenário político nacional. Presidente do Ibope, empresa que
virou sinônimo de pesquisa de opinião pública no Brasil,
ele acompanhou com lupa todas as eleições realizadas no país
desde a volta à democracia, em 1985. Agora, faltando pouco mais de um
ano para a sucessão presidencial, Montenegro faz uma análise que
o consagrará se acertar. Se errar? Bem, dará às pessoas
o direito de igualarem seu ofício às brumas da especulação.
Em entrevista ao editor Alexandre Oltramari, Montenegro aposta que o governo,
apesar da imensa popularidade do presidente Lula, não conseguirá
fazer o sucessor no caso, a ministra Dilma Rousseff. Também afirma
que o PT está em processo de decomposição.
O que os acontecimentos da semana passada revelaram sobre o PT?
Que
o partido deu um passo a mais na direção de seu fim. O PT passou
vinte anos dizendo que era sério, que era ético, que trabalhava
pelo Brasil de uma maneira diferente dos outros partidos. O mensalão
minou todo o apelo que o PT havia acumulado em sua história. Ali acabou
o diferencial. Ali acabou o charme. Todas as suas lideranças foram destruí-das.
Estrelas como José Dirceu, Luiz Gushiken e Antonio Palocci se apagaram.
Eu não diria que o partido está extinto, mas está caminhando
para isso.
Mas por trás do apoio ao PMDB e ao senador Sarney não
está exatamente um projeto de poder do PT?
É um projeto
de poder do presidente Lula. O desempenho eleitoral do PT depois do mensalão
foi um vexame. Em 2006, com exceção da Bahia, o partido só
venceu em estados inexpressivos. Nas eleições municipais de 2008,
entre as 100 maiores cidades, perdeu em quase todas. Lula sempre foi contra
a reeleição e só resolveu disputá-la para tentar
salvar o PT. Sua reeleição foi um plebiscito para decidir se deveria
continuar governando mais quatro anos ou não. Mas tudo indica que agora
ele não fará o sucessor justamente por causa da mesmice na qual
o PT mergulhou.
Ao contrário do que muita gente acredita, o senhor aposta
que Lula, mesmo com toda a popularidade, não conseguirá eleger
o sucessor.
Uma coisa é ele participar diretamente de uma eleição.
Outra, bem diferente, é tentar transferir popularidade a alguém.
Sem o surgimento de novas lideranças no PT e com a derrocada de seus
principais quadros, o presidente se empenhou em criar um candidato, que é
a Dilma Rousseff. Mas isso ocorreu de maneira muito artificial. Ela nunca disputou
uma eleição, não tem carisma, jogo de cintura nem simpatia.
Aliás, carisma não se ensina. É intransferível.
"Mãe do PAC", convenhamos, não é sequer uma boa
sacada. As pessoas não entendem o que isso significa. Era melhor ter
chamado a Dilma de "filha do Lula".
Porém já existem pesquisas que colocam Dilma Rousseff
na casa dos 20% das intenções de voto.
A Dilma, em qualquer
situação, teria 1% dos votos. Com o apoio de Lula, seu índice
sobe para esse patamar já demonstrado pelas pesquisas, entre 15% e 20%.
Esse talvez seja o teto dela. A transferência de votos ocorre apenas no
eleitorado mais humilde. Mas isso não vai decidir a eleição.
Foi-se o tempo em que um líder muito popular elegia um poste. Isso acontecia
quando não havia reeleição. Os eleitores achavam que quatro
anos era pouco e queriam mais. Aí votavam em quem o governante bem avaliado
indicava, esperando mais quatro anos de sucesso.
Cristiano Mariz
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"O PT jogou a ética no lixo e vai ter de achar outro caminho. Deu as costas ao povo, à sociedade e às bandeiras tão caras a tantas pessoas. Tenho vergonha de estar no PT. Vou pedir à Justiça que concorde com meu argumento de que houve quebra do ideário partidário."
Senador Flávio Arns, ao anunciar na semana passada que está deixando o partido |
Diante do quadro político que se desenha, quais são
então as possibilidades dos candidatos anunciados até o momento?
Faltando
um ano para as eleições, o governador de São Paulo, José
Serra, lidera as pesquisas. Ele tem cerca de 40% das intenções
de voto. Em 1998, também faltando um ano para a eleição,
o líder de então, Fernando Henrique Cardoso, ganhou. Em 2002,
também um ano antes, Lula liderava e venceu. O mesmo aconteceu
em 2006. Isso, claro, não é uma regra, mas certamente uma tendência.
Um candidato que foi deputado constituinte, senador, ministro duas vezes, prefeito
da maior cidade do país e governador do maior colégio eleitoral
é naturalmente favorito. Ele pode cair? Pode. Mas pode subir também.
A entrada em cena de Marina Silva, que deixou o PT para disputar
a eleição presidencial pelo PV, altera o quadro sucessório?
A
Marina é a pessoa cuja história pessoal mais se assemelha à
do Lula. É humilde, foi agricultora, trabalhou como empregada doméstica,
tem carisma, história política e já enfrentou as urnas.
Além disso, já estava preocupada com o meio ambiente muito antes
de o tema entrar na agenda política. Ela dificilmente ganha a eleição,
mas tem força para mudar o cenário político. Ser mulher,
carismática e petista histórica é sem dúvida mais
um golpe na candidatura de Dilma.
Na hora de votar, o eleitor leva em consideração
o perfil ético do candidato?
Uma pesquisa do Ibope constatou que 70%
dos entrevistados admitem já ter cometido algum tipo de prática
antiética e 75 % deles afirmaram que cometeriam algum tipo de corrupção
política caso tivessem oportunidade. Isso, obviamente, acaba criando
um certo grau de tolerância com o que se faz de errado. Talvez esteja
aí uma explicação para o fato de alguns políticos
do PT e outros personagens muito conhecidos ainda não terem sido definitivamente
sepultados.
Alan Marques/ Folha Imagem
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"Tantos projetos que eu não consegui aprovar nestes anos... Se eu não consegui com o Lula, como vou lutar por mais oito anos com a Dilma? Não posso ficar no PT para convencer que o meio ambiente tem de ser prioridade. Este é um governo insensível às causas sociais."
Marina Silva, que deixou o PT e deve disputar
a Presidência pelo PV |
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