Maílson da Nóbrega
Lula e o mistério
do desenvolvimento
"O Brasil também viveu avanços
institucionais e mentais que
nos trouxeram a democracia e a estabilidade. Lula
não pode
reivindicar o mérito exclusivo pelos respectivos frutos"
O presidente Lula parece considerar-se uma espécie de marco zero. Nada
de bom teria acontecido antes dele neste país. O atual ciclo de desenvolvimento
decorreria exclusivamente de sua ação e do zelo inédito devotado
aos pobres. Não é bem assim.
O desenvolvimento
é um processo complexo, que deriva de vasta gama de fatores entre
os quais se realça a educação e precisa de tempo para
enraizar-se. É obra construída pela contribuição sistemática
de vários governos. Depende da produtividade, que se nutre da ciência,
das inovações e, assim, dos avanços na tecnologia.
Na
verdade, a humanidade somente começou a viver o desenvolvimento depois
da Revolução Industrial, iniciada no século XVIII na Inglaterra.
A estagnação da renda per capita havia sido a característica
da história. A Revolução desarmou a Armadilha Malthusiana
e deu início à Grande Divergência.
A Armadilha
deve seu nome ao demógrafo inglês Thomas Malthus (1766-1834), para
quem o potencial de crescimento era limitado pela oferta de alimentos. A evolução
da renda per capita dependia das taxas de natalidade e mortalidade. Exemplo: a
peste negra aumentou o bem-estar dos sobreviventes. Malthus pregava a redução
da natalidade como saída para a prosperidade.
A Grande
Divergência começou em 1820. A renda per capita da Inglaterra passou
a crescer descolada da demografia, graças ao aumento da produtividade da
agricultura e da exploração do potencial agrícola da América.
Antes, do nascimento de Cristo à Revolução Industrial, a
produtividade evoluíra 24%. A economia crescia apenas 5% a cada século.
Uma
instigante análise dessa realidade está no livro A Farewell to
Alms (Um Adeus às Esmolas), de Gregory Clark, da Universidade da Califórnia,
que se juntou aos muitos que investigaram as razões pelas quais uns países
ficam ricos e outros não. Além disso, ele buscou entender por que
a Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra e não no Japão,
na Índia ou na China.
Polêmico, Clark descartou
teorias explicativas desse mistério, inclusive a mais aceita hoje: a do
papel exercido pela Revolução Gloriosa inglesa (1688). Em clássico
artigo, Douglass North e Barry Weingast sustentam que as mudanças institucionais
de 1688 puseram fim ao absolutismo, criando as condições para a
Revolução Industrial. Clark diz que tais condições
já existiam. Ele também valoriza as instituições,
mas interpreta que elas contribuíram, ao longo do tempo, para as mudanças
culturais que permitiram à Inglaterra livrar-se da Armadilha Malthusiana.
Para ele, tais mudanças culturais estão na origem
do sucesso dos atuais países ricos. Elas os fizeram abandonar instintos
primitivos de violência, impaciência e preguiça. De fato, as
lutas mortais dos gladiadores, entre si e com as feras, divertiam os romanos.
Execuções públicas eram populares na Inglaterra até
o século XVIII. Esses instintos foram substituídos por hábitos
fundamentais para o desenvolvimento: trabalho duro, racionalidade e valorização
da educação. Alfabetização disseminada e habilidades
aritméticas, antes irrelevantes, adquiriram importância para a Revolução
Industrial.
O homem moderno teria emergido da ruptura da era
malthusiana, em decorrência basicamente de quatro mudanças: a queda
nas taxas de juros (ao lado do fim das leis de usura), a expansão da educação,
o aumento das horas de trabalho e o declínio na violência interpessoal.
A classe média cresceu. Valores como poupança, prudência,
negociação e disposição para o trabalho se firmaram
nas sociedades bem-sucedidas.
Clark mostra que o desenvolvimento
depende também de sorte, de acidentes e de contingências, tais como
o crescimento populacional na Inglaterra depois de 1760, suas vitórias
nas guerras napoleônicas e a expansão econômica dos EUA no
século XIX, que foram fundamentais para a ruptura.
O
Brasil também viveu avanços institucionais e mentais que nos trouxeram
a democracia e a estabilidade. Lula não pode reivindicar o mérito
exclusivo pelos respectivos frutos. Sua contribuição, decisiva,
foi preservar a política econômica. Ele também deixará
más heranças. Entre outras, um regime fiscal pior, os equívocos
da política externa e, queira Deus que não, a lei do pré-sal.
Maílson
da Nóbrega é economista |