Livros
À luz da economia
Por que a "ciência lúgubre" continua a
ser
uma arma poderosa da razão e da política

Giuliano Guandalini
O ensaísta britânico Thomas Carlyle (1795-1881)
chamou a economia de "a ciência lúgubre" (the dismal
science, no original). Isso foi há 150 anos, mas a cada crise os
economistas voltam a ser alvo de galhofa e de escárnio, inclusive por
parte dos próprios economistas, por causa dos erros eventuais de suas
análises e modelos teóricos. Não foi de outra maneira na
recente tormenta financeira, ao ponto de a revista inglesa The Economist ter ironizado: "De todas as bolhas econômicas que estouraram, poucas
o fizeram tão espetacularmente como a própria reputação
da ciência econômica". É uma avaliação
dura e um tanto injusta. O entendimento de como funcionam os mercados evoluiu
tremendamente nos últimos dois séculos, colaborando de maneira
inequívoca para o aprimoramento da qualidade de vida em boa parte do
planeta. Apesar de as incertezas e as crises serem implícitas à
sua atividade, os economistas conseguem hoje explicar com clareza diversos fenômenos
não apenas econômicos, mas também sociais e comportamentais.
Uma ótima e em nada lúgubre introdução
ao que de mais atual existe sobre o pensamento econômico está no
recém-lançado Sob a Lupa do Economista (Campus/Elsevier;
248 páginas; 59,90 reais), de Carlos Eduardo Gonçalves e Mauro
Rodrigues. Os autores, ambos jovens professores da USP, tiveram como inspiração
sucessos internacionais como Freakonomics e O Economista Clandestino ao escrever um livro divertido e que recorre a exemplos inusitados, muitos deles
do cotidiano, para ilustrar conceitos essenciais e apresentar os resultados
de pesquisas recentes, sobretudo no campo da economia comportamental. Economistas
são usualmente vistos como profissionais que tratam de assuntos de digestão
difícil como taxa de juros, câmbio e contas públicas.
Esses temas aparecem nas páginas de Sob a Lupa, mas o livro conta
também o que novos estudos têm a dizer sobre fatos tão diversos
como a média de gols nos jogos de futebol, o comportamento dos terroristas,
os fãs de Harry Potter e as multas de trânsito dos diplomatas que
moram em Nova York. O livro é composto de capítulos breves (ou
crônicas). O estilo é similar ao de Economia sem Truques, lançado
no ano passado e que também teve Gonçalves como um dos autores.
O novo livro, no entanto, é mais abrangente e ainda melhor.
No quadro abaixo, há exemplos de alguns episódios
narrados no livro e as lições deixadas por eles. Um deles conta
como a Revolução Gloriosa (1688) impôs a disciplina fiscal
aos monarcas britânicos, permitindo a queda dos juros exemplo lapidar
de como um avanço institucional favorece o crescimento. Outro capítulo
conta como o protestantismo estimulou a alfabetização na Europa
a partir do século XVI. Mais que a ética protestante de que falou
o sociólogo alemão Max Weber, essa teria sido a contribuição
fundamental da religião para a ascensão do capitalismo e o desenvolvimento
econômico. A insensatez das campanhas de ajuda à África
promovidas por celebridades, que redundam em nada por carecer de lógica
econômica mínima, é tema de uma crônica ácida.
O livro também explica como os erros dos governos (e não apenas
a ganância e a irresponsabilidade dos bancos) permitiram que estourasse
a crise financeira atual.
Mais que oferecer um compêndio de curiosidades, Sob a
Lupa mostra a força da pesquisa econômica como ferramenta da
razão e da política. "Teorizar é divertido",
dizem os autores. "Mas teoria sem suporte dos dados va-le pouca coisa,
pois na prática quem escolhe o rumo das políticas públicas
precisa conhecer a eficácia concreta de cada medida em particular."
Apenas essa já seria uma contribuição luminosa dos economistas.
CRÔNICAS ECONÔMICAS E SUAS LIÇÕES
Ilustrações Rob
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RISCO SOBERANO Os reis ingleses viviam endividados, mas não
viam problema nisso, porque davam calote sem o menor pudor. Em 1688, com a Revolução
Gloriosa, os monarcas deixaram de estar acima da lei. Resultado: o governo,
que antes precisava pagar juros de ao menos 10% ao ano para se endividar, viu
as taxas caírem para 3%, porque diminuiu o risco de inadimplência. |
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A BOMBA EXPLODIU No filme Dr. Fantástico (1964), a máquina
do juízo final ativa o arsenal soviético ao menor sinal de um
ataque americano. O dispositivo, paradoxalmente, ajuda a manter a paz, porque
dissuade os bombardeios. Da mesma maneira, os bancos deveriam ter restringido
empréstimos e evitado o estouro da crise atual. Mas deixaram a bomba
explodir, porque sabiam que haveria o socorro governamental. |
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BÁSICO INSTINTO Em uma reunião do Fórum Econômico
Mundial, Sharon Stone foi às lágrimas ao "saber" que
milhões de crianças morrem de malária na África
por causa da falta de mosquiteiros. A atriz lançou uma campanha pela
doação de recursos para a compra dos mosquiteiros. A iniciativa
foi inútil. Os tecidos comprados foram parar nos mercados populares africanos
e viraram véus para vestidos de noiva. |
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BÍBLIA DO DESENVOLVIMENTO Max Weber (1864-1920) argumentou
que a ética protestante, ao contrário da católica, era
favorável à acumulação de riquezas. Isso explicaria
o maior desenvolvimento de países protestantes. Mas estudos recentes
revelam que, com a Reforma Protestante (século XVI), os fiéis
foram estimulados a ler a Bíblia. O analfabetismo diminuiu, e o maior
nível de estudo (e não a "ética") estimulou o
desenvolvimento. |
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