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VEJA Recomenda CINEMA
Sob o Efeito da Água (Little Fish,
Austrália, 2005. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo e
no Rio de Janeiro) Tracy (Cate Blanchett) abandonou a heroína por
tempo suficiente para poder se declarar sóbria e tentar fazer algo da vida.
Mas não perdeu os hábitos de dissimulação e mentira
associados ao vício, e carrega ainda, como contrapeso, a mãe frustrada,
o irmão inconseqüente e o amigo junkie (Hugo Weaving, a léguas
de distância do Sr. Smith de Matrix). Todas essas pessoas têm
umas às outras em que se amparar; mas têm também algum vazio
impossível de preencher, que as puxa para baixo a cada passo. Pontuado
por excelentes atuações de todo o elenco, o filme do australiano
Rowan Woods um nome a guardar é uma espécie de lembrete
sobre a inesgotável capacidade humana para a infelicidade. Veja
cenas.
Divulgação
 | | Estamira:
tão surreal que parece ficção
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Estamira (Brasil,
2006. Estréia nesta sexta-feira no país) O suíço
Jean-Luc Godard afirmou certa vez que a melhor ficção deve ter a
veracidade dos documentários e estes devem parecer tão impossíveis
quanto a ficção. Em muitos de seus 115 minutos, Estamira
cumpre à risca essa regra. Em imagens soberbas, o diretor Marcos Prado
retrata o lixão do Gramacho, à margem da Baía de Guanabara,
como um lugar mais desolador e surreal do que qualquer coisa que a imaginação
pudesse conceber. Gramacho é também onde a sexagenária Estamira
cavouca as montanhas de detritos há vinte anos desde que começou
a manifestar sintomas de esquizofrenia. Pouco a pouco, o que se nota é
que ela encena ali uma metáfora: ao resgatar do monturo objetos que ainda
podem ser úteis, ela se lembra de que ainda tem valor, e sobrepuja assim
sua doença.
DVD Nocturne,
Siouxsie & the Banshees (Universal) Gravada em 1983 no Royal
Albert Hall, tradicional casa de espetáculos de Londres, essa apresentação
é o ponto alto da carreira do quarteto inglês Siouxsie & the
Banshees. Eles foram ícones do movimento gótico, célebre
pelas canções soturnas (e pelo peculiar senso de moda). Nocturne
é uma festa para os olhos, a começar pelas cenas da entrada do público
ao som de A Sagração da Primavera, do compositor russo Igor
Stravinsky. Siouxsie compensa a falta de carisma dos outros integrantes do grupo.
Descalça e com os olhos pintados como os de uma antiga rainha egípcia,
ela mostra fôlego em hits como Israel e Spellbound e faz teatro
em Voodoo Dolly. LIVROS A
Hora Azul, de Alonso Cueto (tradução de Eliana Aguiar; Objetiva;
336 páginas; 44,90 reais) Tal como seu compatriota Mario Vargas
Llosa, o peruano Alonso Cueto um dos nomes esperados para a Festa Literária
Internacional de Parati, em agosto tem criado obras que exploram os pesadelos
políticos de seu país. Grandes Miradas, seu romance anterior,
examinava os meandros autoritários do governo de Alberto Fujimori. A
Hora Azul trata do terror promovido pelo Sendero Luminoso nos anos 80
e da violência das forças armadas que lutavam contra o grupo terrorista.
Com um ritmo de thriller, a história narra as investigações
do advogado Adrián Ormache, filho de um oficial da Marinha, que sai em
busca da índia que seu pai seqüestrou e estuprou quando participava
de combates no interior do Peru. Leia
trecho. Quando
Fui Mortal, de Javier Marías (tradução de Eduardo
Brandão; Companhia das Letras; 160 páginas; 37 reais) Na
introdução, Javier Marías um dos melhores escritores
espanhóis contemporâneos explica que a maioria dos doze contos
reunidos nessa coletânea foi produzida sob encomenda para jornais e revistas.
E também diz que só aceitou essas encomendas porque acreditava que
poderia se divertir com elas. O resultado é igualmente divertido para o
leitor. Os contos quase sempre terminam com uma nota desconcertante. A Herança
Italiana começa como uma inocente crônica da vida de duas italianas
que moram em Paris, mas se encerra com um inesperado toque de humor negro. Domingo
de Carne parece apenas o retrato de um tedioso balneário da Espanha
mas traz um final violento e perturbador. Leia
trecho.
DISCOS The
Eraser, Thom Yorke (Sum) A crítica americana apelidou o
primeiro disco-solo do guitarrista e vocalista do Radiohead de "Kid B". É
uma alusão ao CD Kid A, de 2000, em que o grupo inglês abandonou
as melodias de seus três primeiros discos e embarcou numa viagem experimental.
The Eraser é ainda mais radical do que os trabalhos recentes do
Radiohead. Yorke constrói suas composições com teclados,
um violão aqui ou acolá e climas que lembram o dub uma espécie
de reggae psicodélico. O resultado, apesar da estranheza inicial, o confirma
como um dos músicos mais inventivos do rock. O destaque do disco é
Harrowdown Hill, que fala de David Kelly, assessor do governo inglês
para armas de destruição em massa, que mentiu num dossiê sobre
armas químicas no Iraque e depois se suicidou. American
V: a Hundred Highways, de Johnny Cash (Universal) O cantor e compositor
americano Johnny Cash (1932-2003) foi um dos pioneiros do rock'n'roll, ao lado
de nomes como Elvis Presley e Chuck Berry. Em meados da década passada,
ele renovou seu público graças à série American
Recordings, na qual misturou composições próprias e recriações
de sucessos da música pop. Esse quinto volume da série foi gravado
quando Cash já estava bastante debilitado pelo câncer, que acabou
por matá-lo. O vozeirão de barítono é pungente, embora
saia com dificuldade. As letras falam sobre morte e sobre o acerto de contas com
Deus, mas há um toque seco de humor. Como na faixa On the Evening Train,
sobre um homem que perde o caixão da mulher no trem errado.
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