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Ponto
de vista: Lya Luft Quem
ama cuida
"Uma dose de realismo
no trato com crianças ajudará
a dar-lhes o necessário discernimento,
habilidade para perceber o positivo
e o negativo, e escolher melhor"
Somos uma geração perplexa, somos uma geração insegura,
somos uma geração aflita mas, como tudo tem seu lado bom,
somos uma geração questionadora. O que existe por aí não
nos satisfaz. Sofremos com a falta de uma espinha dorsal mais firme que nos sustente,
com a desmoralização generalizada que contamina velhos e jovens,
com a baixa auto-estima e o descaso que, penso eu, transpareceram em nossa equipe
de futebol na Copa do Mundo. Algum remédio deve ser buscado na realidade,
sem desprezar a força da imaginação e a raiz das tradições
até no trato com as crianças.
Uma duradoura influência em minha vida, meu trabalho e arte foram os contos
de fadas. Esses relatos, plenos de fantasia, falam de realidades e mitos arcaicos
que transcendem linguagem, raça e geografia e revelam muito a respeito
de nós mesmos. Nessa literatura infantil
reúnem-se dois elementos que me apaixonam: o belo e o sinistro. Ela abre,
através da imaginação, olhos e medos para a vida real, tecida
de momentos bons e ameaças sinistras, experiências divertidas e outras
dolorosas também na infância. Na realidade nem sempre os fortes
vencem e os frágeis são anulados: a força da inteligência
de pessoas, grupos ou povos ditos "fracos" inúmeras vezes derrota a brutalidade
dos "fortes" menos iluminados. Porém o mal existe, a perversão existe,
atualmente a impunidade reina neste nosso país, confundindo critérios
que antes nos orientavam. Cabe à família, à escola e a qualquer
pessoa bem-intencionada reinstaurar alguns fundamentos de vida e instaurar novos.
Ilustração
Atômica Studio
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Não
vejo isso em certa não generalizada tendência para
uma educação imbecilizante de nossas crianças, segundo a
qual só se deve aprender brincando. A escola passou a ser quase um pátio
tumultuado, e a falta de respeito reproduz o que acontece tanto em casa quanto
em alguns altos escalões do país. Essa mesma corrente de pensamento
quer mutilar histórias infantis arcaicas como a de Chapeuzinho Vermelho:
agora, o Lobo acaba amigo da Vovó... e nada de devorar a velha, nada de
abrir a barriga da fera e retirá-la outra vez. Tudo numa boa, todos na
mais santa paz, tudo de brincadeirinha como não é a vida.
Modificam-se textos de cantigas como "Atirei um
pau no gato", transformando-a em um ridículo "Não atire o pau no
gato" e outras bobajadas, porque o gato é bonzinho e nós devemos
ser idem, no mais detestável politicamente correto que já vi. O
mundo não é assim. Coisas más e assustadoras acontecem, por
isso nossas crianças e jovens devem ser preparados para a realidade. Não
com pessimismo ou cinismo, mas com a força de um otimismo lúcido.
Medo faz parte de existir, e de pensar. Não
precisa ser o terror da violência doméstica, física ou verbal,
ou da violência nas ruas mas o medo natural e saudável que
nos torna prudentes (não acovardados), pois nem todo mundo é bonzinho,
adultos e mesmo crianças podem ser maus, nem todos os líderes são
modelos de dignidade. Uma dose de realismo no trato com crianças ajudará
a dar-lhes o necessário discernimento, habilidade para perceber o positivo
e o negativo, e escolher melhor. Temos muitos adolescentes infantilizados pelo
excesso de proteção paterna ou pela sua omissão, na gravíssima
crise de autoridade que nos assola; temos jovens adultos incapazes porque quase
nada lhes foi exigido, nem na escola nem em casa. Talvez lhes tenham faltado a
essencial atenção e o interesse dos pais, na onda do "tudo numa
boa". Dar a volta por cima significará mudar
algumas posturas e opções, exigir mais de nós mesmos e de
nossos filhos, dos professores e dos alunos, dos governos e das instituições.
Ou vamos transformar as novas gerações em fracotes despreparados,
vítimas fáceis das armadilhas que espreitam de todos os lados, no
meio do honrado e do amoroso que também existem e precisam se multiplicar.
Não prego desconfiança básica, mas uma perspectiva menos
alienada. Nem todos os amigos, vizinhos, parentes, professores ou autoridades
nos amam e nos protegem. Nem todos são boas pessoas, nem todos são
preparados para sua função, nem todos são saudáveis.
Para construir de forma mais positiva nossa vida,
é preciso, repito, dispor da melhor das armas, que temos de conquistar
sozinhos, duramente, quando não a recebemos em casa nem na escola: o discernimento.
Capacidade de analisar, argumentar e escolher para nosso bem o que nem
sempre significa para nossa comodidade ou sucesso fácil. Quem ama cuida:
de si mesmo, da família, da comunidade, do país. Pode ser difícil,
mas é de uma assustadora simplicidade, e não vejo outro caminho.
Lya Luft é escritora |