Edição 1966 . 26 de julho de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Gente
Auto-retrato
Veja.com
Veja essa
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Perfil
Contra o humor a favor

Com mordacidade e inteligência,
o cartunista Angeli usa a piada
para produzir uma devastadora
crônica da era Lula

 

Lailson Santos
O cartunista Angeli: "Humor a favor não é comigo. Deixo para os publicitários"

EXCLUSIVO ON-LINE
Mais charges

Nenhum presidente escapou incólume do seu traço. Por meio dos pincéis do cartunista paulistano Angeli, José Sarney virou um ator mexicano de segunda categoria, Fernando Collor surgiu envergando uma faixa presidencial feita de correntes de ferro, Itamar Franco teve comentadas suas propagadas limitações intelectuais e Fernando Henrique Cardoso, sua ilimitada vaidade. Mas foi com o presidente Lula que o artista se superou. A coleção de mais de 200 charges produzidas desde o início do governo petista, em janeiro de 2003, traça um perfil devastador da era Lula – que Angeli, ao contrário da maioria de seus colegas, acompanhou com olhos críticos desde o primeiro dia. "Humor a favor não é comigo. Deixo isso para os publicitários", diz.

Autodenominado franco-atirador, o cartunista, prestes a completar 50 anos, está acostumado a ir contra a corrente. Nos primeiros meses de 2003, enquanto boa parte dos chargistas brasileiros gastava suas tintas para saudar a chegada do ex-operário e líder sindical à Presidência da República, ele já farejava excesso de marketing e escassez de conteúdo no programa Fome Zero, o então carro-chefe do governo. Quando estourou o escândalo Waldomiro Diniz, envolvendo José Dirceu, o ex-homem forte de Lula, o cartunista produziu uma charge premonitória, em que mostrava o "encolhimento" do presidente e de seu governo (veja desenho). Angeli, ex-punk e ex-militante do Partido Comunista, diz ter encarado com desconfiança a chegada dos petistas ao poder. "Sempre me incomodou aquele nariz empinado deles e aquela postura de detentores da honestidade", afirma. A crise do mensalão viria mostrar que ele estava certo. "Angeli é o melhor chargista do Brasil", diz o cartunista Laerte. "Ele fez o que todo humorista deve fazer, que é manter-se cético em relação a qualquer governo. Nenhum deles jamais vai conseguir sua adesão." Não que alguns já não tenham tentado. Em 1988, emissários do então senador Mario Covas sondaram o chargista com uma proposta: criar o símbolo do recém-fundado PSDB, o partido dos tucanos. Angeli não quis nem conversa.

Ex-office-boy, Arnaldo Angeli Filho começou a desenhar aos 14 anos, influenciado pelo cartunista americano Robert Crumb. "Não há um desenhista da minha geração que não tenha sofrido a influência do Crumb", diz. Outro de seus ídolos é Millôr Fernandes, colunista de VEJA. "Ele tem uma originalidade e uma capacidade incrível de surpreender." Millôr, por sua vez, afirma que Angeli – "anagrama perfeito de genial" – é mais do que um chargista político. "Ele é um comentarista gráfico que já há bastante tempo atingiu o ponto de absoluta competência", afirma.

Para preencher o espaço de 11 centímetros quadrados que detém há 33 anos na página 2 da Folha de S.Paulo, jornal para o qual colabora desde os 17 anos, o cartunista se vale de dez xícaras de café por dia e dois maços de cigarro, combustível obrigatório num processo de criação que já teve lá suas crises. Em 1983, por exemplo, Angeli decidiu abandonar a charge política. "Nesse período, de início de abertura, houve um certo enaltecimento dos políticos por parte de veículos e desenhistas, empolgados com a nova situação", lembra ele. Essa "cumplicidade" entre os artistas e seus retratados fazia com que as charges, segundo o desenhista, ao contrário de despertar o senso crítico do leitor, acabassem por virar decoração de gabinete de deputado. "Eles gostavam de aparecer nos desenhos. Como eu não queria desenhar bichinhos engraçadinhos, resolvi mudar de tática." Por dez anos, voltou-se para as tiras em quadrinhos e criou personagens antológicos, como o Meia-Oito, caricatura do "revolucionário" de esquerda, a dupla Wood & Stock, de hippies saudosos, e a tresloucada Rê Bordosa, "assassinada" pelo autor em 1987, no auge da fama. Ultimamente, Angeli confessa que anda pensando, novamente, em "dar um tempo" no humor político: "Não me canso da charge, e sim da repetição", diz. "Os governos parecem todos iguais." Os governos podem ser, mas os cartunistas, não.

 

3/2/2003
Enquanto colegas saudavam a chegada do ex-operário ao poder, Angeli desconfiava: a charge acima foi feita no segundo mês do governo Lula
28/3/2004
Lula e Dirceu após o escândalo Waldomiro

1º/3/2006
Sobre o deslumbre do presidente com as benesses do cargo

14/5/2004
Desenho do presidente publicado dois dias depois da tentativa de expulsão do país do jornalista Larry Rohter, que escreveu que Lula bebia demais
28/8/2005
Charges publicadas na Folha no auge da crise do mensalão: "Sempre me incomodou o nariz empinado dos petistas e a postura de detentores da honestidade"
5/8/2005

Com reportagem de Renata Peña

 
 
 
 
topovoltar