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Perfil Contra
o humor a favor Com mordacidade e inteligência,
o cartunista Angeli usa a piada para produzir uma devastadora crônica
da era Lula Lailson
Santos
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cartunista Angeli: "Humor a favor não é comigo. Deixo para os publicitários" |
Nenhum presidente escapou incólume
do seu traço. Por meio dos pincéis do cartunista paulistano Angeli,
José Sarney virou um ator mexicano de segunda categoria, Fernando Collor
surgiu envergando uma faixa presidencial feita de correntes de ferro, Itamar Franco
teve comentadas suas propagadas limitações intelectuais e Fernando
Henrique Cardoso, sua ilimitada vaidade. Mas foi com o presidente Lula que o artista
se superou. A coleção de mais de 200 charges produzidas desde o
início do governo petista, em janeiro de 2003, traça um perfil devastador
da era Lula que Angeli, ao contrário da maioria de seus colegas,
acompanhou com olhos críticos desde o primeiro dia. "Humor a favor não
é comigo. Deixo isso para os publicitários", diz. 
Autodenominado franco-atirador, o cartunista, prestes a completar 50 anos, está
acostumado a ir contra a corrente. Nos primeiros meses de 2003, enquanto boa parte
dos chargistas brasileiros gastava suas tintas para saudar a chegada do ex-operário
e líder sindical à Presidência da República, ele já
farejava excesso de marketing e escassez de conteúdo no programa Fome Zero,
o então carro-chefe do governo. Quando estourou o escândalo Waldomiro
Diniz, envolvendo José Dirceu, o ex-homem forte de Lula, o cartunista produziu
uma charge premonitória, em que mostrava o "encolhimento" do presidente
e de seu governo (veja desenho).
Angeli, ex-punk e ex-militante do Partido Comunista, diz ter encarado com desconfiança
a chegada dos petistas ao poder. "Sempre me incomodou aquele nariz empinado deles
e aquela postura de detentores da honestidade", afirma. A crise do mensalão
viria mostrar que ele estava certo. "Angeli é o melhor chargista do Brasil",
diz o cartunista Laerte. "Ele fez o que todo humorista deve fazer, que é
manter-se cético em relação a qualquer governo. Nenhum deles
jamais vai conseguir sua adesão." Não que alguns já não
tenham tentado. Em 1988, emissários do então senador Mario Covas
sondaram o chargista com uma proposta: criar o símbolo do recém-fundado
PSDB, o partido dos tucanos. Angeli não quis nem conversa.
Ex-office-boy, Arnaldo Angeli Filho começou a desenhar aos 14 anos, influenciado
pelo cartunista americano Robert Crumb. "Não há um desenhista da
minha geração que não tenha sofrido a influência do
Crumb", diz. Outro de seus ídolos é Millôr Fernandes, colunista
de VEJA. "Ele tem uma originalidade e uma capacidade incrível de surpreender."
Millôr, por sua vez, afirma que Angeli "anagrama perfeito de genial"
é mais do que um chargista político. "Ele é um comentarista
gráfico que já há bastante tempo atingiu o ponto de absoluta
competência", afirma. Para preencher
o espaço de 11 centímetros quadrados que detém há
33 anos na página 2 da Folha de S.Paulo, jornal para o qual colabora
desde os 17 anos, o cartunista se vale de dez xícaras de café por
dia e dois maços de cigarro, combustível obrigatório num
processo de criação que já teve lá suas crises. Em
1983, por exemplo, Angeli decidiu abandonar a charge política. "Nesse período,
de início de abertura, houve um certo enaltecimento dos políticos
por parte de veículos e desenhistas, empolgados com a nova situação",
lembra ele. Essa "cumplicidade" entre os artistas e seus retratados fazia com
que as charges, segundo o desenhista, ao contrário de despertar o senso
crítico do leitor, acabassem por virar decoração de gabinete
de deputado. "Eles gostavam de aparecer nos desenhos. Como eu não queria
desenhar bichinhos engraçadinhos, resolvi mudar de tática." Por
dez anos, voltou-se para as tiras em quadrinhos e criou personagens antológicos,
como o Meia-Oito, caricatura do "revolucionário" de esquerda, a dupla Wood
& Stock, de hippies saudosos, e a tresloucada Rê Bordosa, "assassinada"
pelo autor em 1987, no auge da fama. Ultimamente, Angeli confessa que anda pensando,
novamente, em "dar um tempo" no humor político: "Não me canso da
charge, e sim da repetição", diz. "Os governos parecem todos iguais."
Os governos podem ser, mas os cartunistas, não. Com
reportagem de Renata Peña |