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Brasil Era
pior do que se pensava O chefe da máfia dos
sanguessugas revela que seu esquema corrompeu sessenta prefeitos e 20%
do Congresso e adentrou o gabinete de Humberto Costa  Marcelo
Carneiro
Cadu
Gomes/CBPRESS
 | Rose
Brasil/ABR
 | | Vedoin
(à esq.): visita de resultados ao gabinete do então ministro
Humberto Costa |
O caso da máfia dos sanguessugas já
era, na semana passada, um dos maiores escândalos de corrupção
descobertos no país. Nada menos do que 57 parlamentares estavam sob suspeita
de ter recebido suborno de uma empresa de ambulâncias, a Planam, para destinar
recursos do Orçamento federal a prefeituras compradoras dos veículos.
Na quinta-feira passada, porém, descobriu-se que tanto o número
de envolvidos no esquema quanto o seu alcance haviam sido subestimados. Os parlamentares
acusados de participar da máfia dos sanguessugas ultrapassam uma centena
o número exato é 112 , e o Legislativo não é
o único poder atingido por ela. O rastro do suborno e do tráfico
de influência alcança também o Executivo federal mais
precisamente a porta do gabinete do ex-ministro da Saúde Humberto Costa,
hoje candidato ao governo de Pernambuco pelo PT. As revelações foram
feitas pelo empresário Luiz Antônio Vedoin, um dos sócios
da Planam, ao longo de uma série de depoimentos sigilosos prestados à
Justiça Federal nas duas últimas semanas.
VEJA apurou que, nessa série de depoimentos, Vedoin contou que, no início
de 2003, quando o presidente Lula baixou um decreto restringindo o pagamento de
débitos contraídos na gestão anterior, a Planam ficou sem
ter como receber uma dívida de 8 milhões de reais da qual era credora
no Ministério da Saúde. Assim, Vedoin e seu pai, Darci Vedoin, também
sócio da Planam, procuraram o então ministro da Saúde Humberto
Costa para tentar uma solução para o problema. Por meio de um amigo
comum, que fez a aproximação, os Vedoin encontraram-se com Costa,
em seu gabinete, em fevereiro daquele ano. O ministro, segundo Vedoin, disse que
não poderia liberar a verba, mas, no fim da reunião, apresentou
aos empresários seu chefe-de-gabinete, Antônio Alves de Souza, hoje
secretário de Gestão Estratégica do Ministério da
Saúde. Segundo contou Vedoin, Costa disse que Souza poderia estudar a possibilidade
de conseguir a liberação do pagamento.
No
mês seguinte, o dono da Planam foi procurado por um certo José Caubi
Diniz. Na conversa, que aconteceu durante uma feira de negócios em Brasília,
Diniz disse ter sido informado por Souza, o chefe-de-gabinete de Costa, de que
a Planam estava tentando obter seu pagamento do governo federal. Afirmou que poderia
conseguir a liberação do dinheiro. Para isso, contaria com a ajuda
do petista José Airton Cirilo, que, segundo ele, teria grande influência
junto ao ministro Humberto Costa. Cirilo, integrante do Diretório Nacional
do PT, foi presidente do partido no Ceará, duas vezes prefeito da cidade
de Icapuí e candidato a governador do Ceará em 2002. Por indicação
do presidente Lula, também participou do governo federal: ocupou um dos
postos de direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres
(ANTT). Dias depois do encontro na feira de negócios,
Vedoin e o pai acompanhados de Diniz e Cirilo desembarcaram na ante-sala
do gabinete de Humberto Costa, no Ministério da Saúde. Lá,
Cirilo despachou sozinho com o ministro por cerca de duas horas. Ao fim da audiência,
o petista disse aos presentes que havia conseguido a liberação do
dinheiro da Planam, em quatro parcelas. No dia 1º de abril, assim que os
Vedoin receberam o primeiro pagamento, repassaram a Cirilo, conforme havia sido
combinado, 35.000 reais a primeira parte de uma "comissão" que totalizou
400.000 reais. O dinheiro, afirmou Vedoin, foi depositado na conta de um sobrinho
de Cirilo, chamado Raimundo Lacerda. Os comprovantes dos depósitos foram
entregues à Justiça. O esquema montado pela quadrilha deu tão
certo que Cirilo e Vedoin decidiram ampliá-lo. Segundo o empresário,
o dirigente petista disse que havia combinado com o próprio ministro Humberto
Costa a liberação de 30 milhões de reais de recursos extra-orçamentários
que seriam destinados à aquisição de equipamentos hospitalares
para municípios do interior. Para que a Planam lucrasse com o negócio,
bastaria ganhar fraudulentamente as licitações, com a ajuda dos
prefeitos, e, ao fim do processo, pagar 15% de propina a Cirilo. A empresa de
Vedoin chegou a efetuar algumas vendas, mas o processo foi interrompido assim
que começaram a ser presos os primeiros envolvidos no esquema dos sanguessugas.
De acordo com os depoimentos de Vedoin, o número
de parlamentares suspeitos de participar dos negócios escusos que,
segundo a Polícia Federal, teriam movimentado pelo menos 110 milhões
de reais desde 2001 chega a quase 20% do Congresso. VEJA reproduz nesta
edição a lista completa dos deputados e senadores apontados pelo
empresário como participantes daquele que é, provavelmente, o mais
bem documentado escândalo de corrupção da história
do Brasil. Vedoin, em seus depoimentos, não se limitou a indicar, um a
um, os deputados e senadores que recebiam propina de sua empresa em geral,
10% do valor de cada emenda ao Orçamento aprovada e liberada pelo governo
federal. O empresário forneceu à Justiça mais de uma centena
de cópias de transferências bancárias e depósitos
feitos ora em conta corrente de "laranjas", ora diretamente na conta de parlamentares
e prefeitos. Sessenta prefeitos foram acusados por Vedoin (veja
lista) de participação no esquema dos sanguessugas.
Entre os 112 parlamentares acusados de integrar
a máfia, há deputados que ganharam sua propina em dinheiro vivo,
outros que usaram parentes e funcionários para ocultar o suborno e até
os que receberam carros a título de "comissão". Um dos nomes que
mais chamam atenção na relação apresentada à
Justiça por Vedoin é o do ex-deputado paulista pelo PPS Emerson
Kapaz tanto pela robustez das provas apresentadas contra ele quanto pelo
espanto que causa a presença, numa lista como essa, de alguém que
sempre foi um defensor da ética na política e no mundo empresarial.
Hoje presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco),
Kapaz, empresário do ramo de plásticos, elegeu-se em 1998. O dono
da Planam contou que o então deputado apresentou emendas ao Orçamento
destinando 1,6 milhão de reais para compra de ambulâncias em dez
municípios. Desse montante, o governo liberou cerca de 1 milhão.
Segundo Vedoin, Kapaz tratou diretamente com os prefeitos beneficiados para que
as licitações para compra de ambulâncias tivessem como vencedora
a Planam. Vedoin apresentou à Justiça os números de dois
cheques que teriam sido usados para pagar a propina ao então deputado,
totalizando 52.000 reais. Segundo Vedoin, Kapaz pediu a ele que o dinheiro fosse
repassado por meio de uma operação triangular: num primeiro momento,
o dinheiro circulou em contas de empresas do próprio Vedoin, por meio de
cheques. Em seguida, foi transferido, segundo Vedoin, a pedido de Kapaz, para
cinco outras contas, em nome de firmas e pessoas indicadas pelo ex-deputado, entre
elas Laura Mosiasson, na ocasião mulher de Kapaz. "Não tenho idéia
de como meu nome possa estar envolvido nessa história", disse o ex-deputado.
"Pelo que me lembro, minhas emendas nem chegaram a ser liberadas", afirmou a VEJA.
Outro nome que causa surpresa é o de Érico Ribeiro (PP-RS). Maior
produtor de arroz do Brasil, Ribeiro também foi acusado por Vedoin de cobrar
propina em troca de emendas. É curioso que um multimilionário possa
ter arriscado sua reputação em troca de alguns milhares de reais.
O esquema dos sanguessugas só pôde
alcançar essa dimensão depois de se infiltrar no Ministério
da Saúde. Para isso, contou com uma peça-chave: a ex-funcionária
da Planam Maria da Penha Lino, que, em agosto de 2005, conseguiu ser nomeada assessora
do ex-ministro Saraiva Felipe, então titular da Saúde. Uma vez dentro
do gabinete, Maria da Penha tratou de agilizar a aprovação dos projetos
da Planam e a execução de emendas que interessavam à empresa.
Como uma lobista foi nomeada tão facilmente para assessora do ministro
da Saúde? Em seu depoimento, o empresário Luiz Antônio Vedoin
explicou. De acordo com ele, o deputado José Divino e o senador Ney Suassuna
citados na primeira lista de suspeitos de envolvimento com a máfia
das ambulâncias chegaram a fazer ofícios ao ministério
recomendando a nomeação de Maria da Penha para o cargo. Ainda segundo
Vedoin, Saraiva Felipe foi receptivo à idéia. A nomeação
de Maria da Penha foi feita dentro da "cota" do ministro.
Vedoin relatou todo o esquema à Justiça, com nomes, quantias e provas
materiais, em troca do benefício da delação premiada
que prevê redução de pena para criminosos que colaborarem
com as investigações. Ele foi solto há duas semanas, depois
de abrir o bico. Seus depoimentos causam assombro ao revelar o grau de capilaridade
que a máfia dos sanguessugas alcançou, assim como a extensão
do assalto que ela perpetrou contra o Estado e o número de parlamentares
acusados de envolvimento nela. As revelações levam à triste
constatação de que a corrupção parece ter se instalado
no Congresso como um cupinzal subterrâneo. Ele se dissemina em velocidade
atordoante, contaminando e corroendo cada centímetro sadio que encontra
pela frente. Em vez de extingui-lo, cada nova eleição parece fortalecê-lo.
Os cupins apenas se revezam e surgem com fôlego renovado. Pobre Brasil.
A indagação Roque
de Sa/Ag. Senado
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O
depoimento de Luiz Vedoin não acusa a senadora Serys Slhessarenko (PT-MT)
de ter recebido propina diretamente, mas lança sobre ela uma suspeita.
O empresário afirma ter pago a um genro da parlamentar, identificado como
Paulo Roberto, 35 000 reais a título de "comissão" por uma emenda
para a compra de ambulâncias apresentada por Serys. Vedoin contou à
Justiça que, em 2003, Paulo Roberto pediu a ele que ajudasse a saldar "dívidas
de campanha" da senadora. Fechou-se um acordo: a parlamentar apresentaria uma
emenda cujo valor foi de 700 000 reais e a Planam pagaria uma propina
de 10%. Se a participação da senadora petista no esquema dos sanguessugas
for confirmada, o número de parlamentares envolvidos subirá para
113. Serys nega que tenha recebido dinheiro da Planam.
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O espanto Rose
Brasil/ABR
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Presidente
do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), o ex-deputado Emerson
Kapaz construiu em sua carreira uma imagem de retidão. Para quem conhece
Kapaz, o depoimento de Luiz Vedoin é um choque. Segundo Vedoin declarou
às autoridades, Kapaz, que foi deputado de 1999 a 2002, pelo PPS, apresentava
emendas para compras de ambulância e pedia em troca 10% do valor do negócio.
Vedoin contou que o então deputado contatava pessoalmente os prefeitos
envolvidos no esquema, com quem acertava o "direcionamento" das licitações.
Vedoin disse às autoridades que o pagamento a Kapaz era feito a terceiros,
seguindo orientação do então deputado. Vedoin fortaleceu
sua fala com anotações manuscritas das transações,
incluindo números de cheques.
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Os deputados que negociaram a propina mas não
levaram
Entre a turma dos sanguessugas, há um quarteto bastante peculiar. Ele é
formado por deputados que, segundo o depoimento do empresário Luiz Antônio
Vedoin, se envolveram diretamente com o esquema de corrupção montado
pela Planam, sem levar, no final, a propina que pretendiam. Os deputados Gilberto
Nascimento (PMDB-SP), Waldemir Moka (PMDB-MS), Luciano Castro (PL-RR) e Pastor
Frankembergen (PTB-RR), de acordo com o empresário Vedoin, apresentaram
emendas para a compra de ambulâncias, acertaram com os donos da Planam o
valor do suborno que embolsariam por elas, mas, por motivos diversos alguns
não conseguiram a liberação do dinheiro, por exemplo ,
ficaram a ver navios. | | Fotos
Monique Renne/Ayrton Vignola/Folha Imagem
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Com reportagem de
Camila Pereira, Juliana Linhares, Renata Peña
e Renato Piccinin |