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Vocês têm que reconhecer: para reproduzir
o artigo abaixo é preciso coragem. Mesmo demonstrando certo grao de previsão,
republicar isto, escrito por mim no século XX século passado,
sim, senhor! , pra ser mais exato, em 1961, na revista chamada O Cruzeiro,
só com muita coragem. Ou alguma desfaçatez. O que vem a dar no mesmo.
Pois a revista O Cruzeiro já
desapareceu. Junto com a revista Life, o Titanic, o Empress of
Ireland, Adolph Hitler e Crush, o refrigerante.
Ação e reação
Acordo, como sempre, despertado por uma bomba-relógio colocada em alguma
parte da casa. Mato, imediata e indiscriminadamente, três empregados, e
me levanto. Tomo meu banho depois de experimentar cuidadosamente o chuveiro. O
do andar superior explode quando obrigo a faxineira a ligar o aquecedor, levando
a pobre para o outro mundo. Visto-me depois de tirar de dentro dos sapatos seis
perigosíssimos escorpiões, e, matando o gato a quem sirvo experimentalmente
o primeiro café que o copeiro me traz, tomo o segundo, experimentado desta
vez por um dos inúmeros cachorros-cobaia de minha criação,
teste logo depois ratificado pelo computador móvel, do painel contra gases.
Leio os jornais depois de passá-los no esterilizador, para evitar possíveis
atentados microbianos, e saio, munido de minha elegante bengala detectora de radioatividade.
O tempo, que durante a noite se apresentou cheio de balas e torpedos, agora está
sujeito apenas a pequenas rajadas de metralhadora. Quando vou saindo sou atingido
por uma saraivada de projéteis que esbarram em meu colete à prova
de tudo e matam o leiteiro. Jogo duas granadas de bolso em cima de um grupo de
grevistas amarelos e, pegando um táxi-tanque, dirijo-me à fábrica.
Nas ruas, patrulhas motorizadas, munidas de bazucas e rifles com gases letais,
protegem vendedores ambulantes dos donos das lojas, leiteiros de leiterias, padeiros
de padarias, automobilistas de pedestres e vice-versa. Máquinas superpossantes
retiram rapidamente destroços de edifícios num quarteirão
devastado por uma explosão noturna, enquanto bombardeiros atacam operários
dentro de uma fábrica cuja produção vem decaindo suspeitamente.
Quem não pode pegar táxi-tanque é
obrigado a utilizar os perigosos e obsoletos automóveis, os quais só
conduzem uma pessoa de cada vez. Os outros lugares são para as metralhadoras,
rifles e agentes do Serviço de Proteção Taxista.
Enquanto meu táxi-tanque vai eliminando inúteis pedestres à
proporção que avança, o rádio dá as últimas
notícias: "O ministro da Fazenda declara que a situação do
país continua esplêndida. O PNB (produto nacional bruto) será,
este ano, de 14,5. As relações entre o capital e o trabalho melhoram
sensivelmente, já que, nas últimas reuniões sindicais, tanto
no sindicato dos patrões como no sindicato dos empregados, ficou resolvido,
com pouquíssimas mortes em ambos (devidas à inevitável e
compreensível intromissão de elementos patronais no sindicato dos
empregados e de elementos empregados no sindicato dos patrões), que durante
mais dois anos não serão utilizadas bombas atômicas nos combates
de zona urbana". De repente o chofer grita aterrorizado: "Regimento kamikaze!".
Realmente, na esquina seguinte surge um regimento de bancários-suicidas.
Vêm correndo velozmente em direção ao táxi-tanque.
Já ouvimos os gritos: "Quem chegar por último não é
filho de padre!". Cada um traz um colete de explosivo deletério, o qual,
inflamado, produz uma temperatura de cinco mil graus, embora de pequeno raio de
ação. O motorista do tanque embica-o imediatamente em direção
à lagoa, à direita, para evitar a ação do tremendo
explosivo. Conseguiu cair na lagoa a tempo e já ia pôr em ação
o motor aquático quando um submarino de bolso nos avistou e um torpedo
nos atingiu em cheio. Único sobrevivente, consigo nadar até a margem,
e entro num helicóptero da Patronal Air Base. Lá embaixo um outro
automóvel salta devido às minas colocadas durante a noite na avenida
Atlântica, mas, de resto, o dia continua normal. No ar, felizmente, os caminhos
também estão tranqüilos. Sofremos apenas dois ataques sem importância:
por parte de um jato dos operários têxteis e por um bombardeiro convencional
dos empregados de farmácias e similares. Por outro lado conseguimos destruir
um piquete de grevistas das indústrias hoteleiras e desbaratamos com gases
radioativos uma reunião matinal de um grupo de ferroviários. Assim,
felizmente, consigo chegar na hora exata à fábrica, onde trinta
mil operários, devidamente narcotizados por químicos especializados,
devidamente acorrentados, reconstroem a única ala da fábrica destruída
durante a noite. ENQUANTO A
DISPUTA SE APROXIMA, OS PALPITES CRESCEM... 
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