Edição 1966 . 26 de julho de 2006

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Vocês têm que reconhecer: para reproduzir o artigo abaixo é preciso coragem. Mesmo demonstrando certo grao de previsão, republicar isto, escrito por mim no século XX – século passado, sim, senhor! –, pra ser mais exato, em 1961, na revista chamada O Cruzeiro, só com muita coragem. Ou alguma desfaçatez. O que vem a dar no mesmo.

Pois a revista O Cruzeiro já desapareceu. Junto com a revista Life, o Titanic, o Empress of Ireland, Adolph Hitler e Crush, o refrigerante.

Ação e reação

Acordo, como sempre, despertado por uma bomba-relógio colocada em alguma parte da casa. Mato, imediata e indiscriminadamente, três empregados, e me levanto. Tomo meu banho depois de experimentar cuidadosamente o chuveiro. O do andar superior explode quando obrigo a faxineira a ligar o aquecedor, levando a pobre para o outro mundo. Visto-me depois de tirar de dentro dos sapatos seis perigosíssimos escorpiões, e, matando o gato a quem sirvo experimentalmente o primeiro café que o copeiro me traz, tomo o segundo, experimentado desta vez por um dos inúmeros cachorros-cobaia de minha criação, teste logo depois ratificado pelo computador móvel, do painel contra gases. Leio os jornais depois de passá-los no esterilizador, para evitar possíveis atentados microbianos, e saio, munido de minha elegante bengala detectora de radioatividade. O tempo, que durante a noite se apresentou cheio de balas e torpedos, agora está sujeito apenas a pequenas rajadas de metralhadora. Quando vou saindo sou atingido por uma saraivada de projéteis que esbarram em meu colete à prova de tudo e matam o leiteiro. Jogo duas granadas de bolso em cima de um grupo de grevistas amarelos e, pegando um táxi-tanque, dirijo-me à fábrica. Nas ruas, patrulhas motorizadas, munidas de bazucas e rifles com gases letais, protegem vendedores ambulantes dos donos das lojas, leiteiros de leiterias, padeiros de padarias, automobilistas de pedestres e vice-versa. Máquinas superpossantes retiram rapidamente destroços de edifícios num quarteirão devastado por uma explosão noturna, enquanto bombardeiros atacam operários dentro de uma fábrica cuja produção vem decaindo suspeitamente.

Quem não pode pegar táxi-tanque é obrigado a utilizar os perigosos e obsoletos automóveis, os quais só conduzem uma pessoa de cada vez. Os outros lugares são para as metralhadoras, rifles e agentes do Serviço de Proteção Taxista.

Enquanto meu táxi-tanque vai eliminando inúteis pedestres à proporção que avança, o rádio dá as últimas notícias: "O ministro da Fazenda declara que a situação do país continua esplêndida. O PNB (produto nacional bruto) será, este ano, de 14,5. As relações entre o capital e o trabalho melhoram sensivelmente, já que, nas últimas reuniões sindicais, tanto no sindicato dos patrões como no sindicato dos empregados, ficou resolvido, com pouquíssimas mortes em ambos (devidas à inevitável e compreensível intromissão de elementos patronais no sindicato dos empregados e de elementos empregados no sindicato dos patrões), que durante mais dois anos não serão utilizadas bombas atômicas nos combates de zona urbana". De repente o chofer grita aterrorizado: "Regimento kamikaze!". Realmente, na esquina seguinte surge um regimento de bancários-suicidas. Vêm correndo velozmente em direção ao táxi-tanque. Já ouvimos os gritos: "Quem chegar por último não é filho de padre!". Cada um traz um colete de explosivo deletério, o qual, inflamado, produz uma temperatura de cinco mil graus, embora de pequeno raio de ação. O motorista do tanque embica-o imediatamente em direção à lagoa, à direita, para evitar a ação do tremendo explosivo. Conseguiu cair na lagoa a tempo e já ia pôr em ação o motor aquático quando um submarino de bolso nos avistou e um torpedo nos atingiu em cheio. Único sobrevivente, consigo nadar até a margem, e entro num helicóptero da Patronal Air Base. Lá embaixo um outro automóvel salta devido às minas colocadas durante a noite na avenida Atlântica, mas, de resto, o dia continua normal. No ar, felizmente, os caminhos também estão tranqüilos. Sofremos apenas dois ataques sem importância: por parte de um jato dos operários têxteis e por um bombardeiro convencional dos empregados de farmácias e similares. Por outro lado conseguimos destruir um piquete de grevistas das indústrias hoteleiras e desbaratamos com gases radioativos uma reunião matinal de um grupo de ferroviários. Assim, felizmente, consigo chegar na hora exata à fábrica, onde trinta mil operários, devidamente narcotizados por químicos especializados, devidamente acorrentados, reconstroem a única ala da fábrica destruída durante a noite.

 

ENQUANTO A DISPUTA SE APROXIMA,
OS PALPITES CRESCEM...

 
 
 
 
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