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Entrevista:
Christopher Hitchens Com
Bush, contra a fé O polemista
inglês afirma que a Guerra do Iraque é justa e diz que a
religião só consegue piorar o mundo  Jerônimo
Teixeira
Conhecido por seus artigos políticos
em publicações como Vanity Fair e pela coluna que mantém
na revista da internet Slate, o polemista Christopher Hitchens, de 57 anos,
foi certa vez abordado por senhoras idosas que lhe perguntavam: "O senhor não
gosta de ninguém?". O jornalista inglês costuma responder que já
escreveu livros sobre figuras de sua admiração, como Thomas Jefferson.
Sua coletânea de ensaios mais recente, Amor, Pobreza e Guerra
que chega às livrarias brasileiras nesta sexta-feira, pela Ediouro ,
inclui uma seção devotada ao seus escritores favoritos, como Marcel
Proust e Jorge Luis Borges. Mas não adianta: Hitchens não tem como
se desfazer da fama de franco-atirador. Com ironia e rigor argumentativo, ele
já desmontou personalidades públicas de todos os lados do espectro
político. Hitchens, que foi contrário à Guerra do Vietnã
nos anos 1960, hoje apóia a invasão do Iraque. "Perdi alguns amigos
por isso, mas os novos amigos que ganhei são bem melhores", diz o autor,
que em agosto estará no Brasil para participar da Festa Literária
Internacional de Parati. Na entrevista a seguir, as opiniões desse escritor
que se define orgulhosamente como um radical.
Veja Qual o significado da nova ofensiva
israelense contra o Líbano? Hitchens Quando se discutia
a criação de um Estado judeu no Oriente Médio, uma das vozes
contrárias vinha de dentro do próprio judaísmo. Esses radicais
consideravam que um Estado desse tipo na Palestina implicaria uma injustiça
com as populações árabes. Em linhas gerais, é o meu
ponto de vista: Israel foi, do começo, um erro. Não acredito que
Jerusalém possa redimir o sofrimento histórico dos judeus. Para
mim, Israel não é o fim da diáspora é parte
dela. Não tenho nada em comum, no entanto, com aqueles que consideram os
judeus uma praga, uma raça de conspiradores que planeja governar o mundo.
Se for forçado a escolher entre Israel e os terroristas libaneses do Hezbollah,
é claro que fico do lado de Israel. O Hezbollah é um inimigo da
civilização. Não posso ficar neutro. Mas tomo partido com
relutância, e com um sentimento trágico de que essa situação
poderia ter sido evitada. Veja
O senhor concordaria com a posição da União
Européia de que Israel está usando "força excessiva" contra
o Líbano? Hitchens Eles dizem o mesmo sempre que Israel
usa qualquer tipo de força. Perderam a autoridade para dizer isso. Israel
utilizou, sim, força excessiva. Mas não fico impressionado ao ouvir
o presidente da Rússia, Vladimir Putin, com suas credenciais autoritárias,
fazer essa acusação. Existe a minha crítica a Israel
e a crítica deles. Não são a mesma coisa.
Veja O senhor tem insistido que a comparação
entre a Guerra do Vietnã e o atual conflito no Iraque não faz sentido.
Por que o massacre de My Lai seria diferente do de Haditha? Hitchens
Há várias razões. O Vietnã não estava
sob sanções internacionais. Não invadiu outros países,
não construiu armas de destruição em massa, não dava
abrigo a terroristas, não promoveu genocídios. O Iraque de Saddam
Hussein cometeu todos esses crimes. No Vietnã, os Estados Unidos deram
continuidade a uma guerra colonial da França contra um movimento nacionalista
que era liderado pelos comunistas. Para as forças americanas no Vietnã,
ações como a que vimos agora em Haditha, e que resultou na morte
de vários civis, eram rotineiras, pois a população em geral
era vista como hostil. No Iraque, o único exército popular que existe
está do nosso lado são os revolucionários curdos.
Os que estão contra nós não são um exército
de libertação nacional, como eram os vietcongues, mas a ralé
da Al Qaeda e os remanescentes fascistas do Partido Baath. Os vietnamitas ainda
são meus camaradas, e não quero insultá-los. Recuso qualquer
comparação entre eles e os assassinos de Saddam. Acho uma desgraça
que pessoas de esquerda façam esse tipo de comparação.
Veja Mas as armas
de destruição em massa de que o senhor fala não foram encontradas. Hitchens
E eu gostaria de saber para onde elas foram levadas. Aliás,
isso não é bem verdade: algumas foram, sim, achadas. No mês
passado, foram encontradas em um esconderijo 500 bombas de gás que ataca
o sistema nervoso. Hoje também sabemos que, em fevereiro de 2003, representantes
do governo de Saddam se encontraram, em Damasco, com representantes de Kim Jong-Il,
da Coréia do Norte, para discutir a compra secreta de mísseis norte-coreanos.
Veja Se era
justificável derrubar uma ditadura como a de Saddam, os Estados Unidos
não deveriam fazer o mesmo em Cuba, no Sudão, na Coréia do
Norte? Hitchens Na maioria desses países, não
houve rompimento de resoluções das Nações Unidas.
No caso do genocídio de Darfur, no Sudão, consta que já é
tarde demais para impedi-lo parece que ele já foi completado. Infelizmente,
nesse caso, decidiram seguir a estratégia de Kofi Annan (secretário-geral
da ONU), com os resultados que se podiam prever. É o que acontece quando
se aplica a diplomacia da ONU para tratar com países que não respeitam
as leis internacionais. Veja
A ONU é leniente com os países transgressores? Hitchens
Depois do modo como a ONU se comportou em Ruanda, na Bósnia,
em Darfur, é impossível sustentar que ela funciona como a corte
internacional máxima para definir quando se pode recorrer à força.
Estaríamos em um mundo muito pior se fosse assim. A ONU hoje admite que
manteve um esquema criminoso no programa de troca de petróleo por alimentos
no Iraque. Essa iniciativa enriqueceu os burocratas da ONU e o regime de Saddam,
enquanto o povo iraquiano ficava à míngua. A mudança de regime
no Iraque teve esse resultado lateral: obrigou a ONU a admitir sua própria
corrupção e ineficiência. Até os opositores da Guerra
do Iraque concordam com isso. Veja
Alguns críticos da guerra argumentam que a presença
americana no Iraque reforçou a ideologia da jihad, de uma cruzada opondo
o Ocidente e o Islã. Hitchens Essa é uma maneira
muito preguiçosa de pensar. Uma charge em um jornal de Copenhague bastou
para inflamar a idéia de uma cruzada, de um confronto cultural entre Ocidente
e Oriente. O romance de um amigo meu, publicado em Londres, em 1988 Os
Versos Satânicos, de Salman Rushdie , foi denunciado como obra
da polícia secreta israelense, que teria escrito o livro por ele como uma
arma contra a fé islâmica. Qualquer coisa que façamos pode
produzir essas reações. No Iraque, porém, hoje podemos ver
milhões de muçulmanos votando pela primeira vez, muitos deles em
partidos religiosos. As peregrinações para locais sagrados dos xiitas
no Iraque, banidas por mais de vinte anos, foram restabelecidas graças
ao Exército americano. Os sunitas curdos, no Iraque, ou a Aliança
do Norte, no Afeganistão, por acaso seriam menos muçulmanos do que
a Al Qaeda? Aliás, estou seguro de que as forças da Al Qaeda vão
ser derrotadas e desacreditadas no Iraque. Veja
Sua avaliação do que se conseguiu até agora
no Iraque não negligencia o lado vergonhoso da invasão por
exemplo, a tortura na prisão de Abu Ghraib e a prisão de Guantánamo,
recentemente reprovada pela Suprema Corte dos Estados Unidos? Hitchens
Tenho escrito sobre todos esses temas. Quando se decide começar
uma guerra, por qualquer razão, é preciso ter em mente que episódios
como Abu Ghraib ou Haditha podem acontecer. O que é preciso, nesses casos,
é que as Forças Armadas processem os responsáveis. Foi o
que aconteceu em Abu Ghraib, cujos casos de tortura não foram descobertos
por um jornalista, mas revelados pelo próprio Departamento de Defesa. Creio
que esse também é o caso em Haditha. Os responsáveis serão
submetidos à lei, e essa é a grande diferença entre os Estados
Unidos e seus inimigos. Veja
O senhor já afirmou que não acredita mais no socialismo.
Mas então o que restou para os contestadores defenderem? Hitchens
É uma boa pergunta, e eu creio que muitas pessoas se aferram
hoje a posições antigas porque não querem responder a ela.
Não entendem como podem continuar na oposição se não
há mais o socialismo para defender. E devo admitir que tampouco foi fácil
para mim abandonar essa idéia. Mas isso não significa, de modo algum,
que a vida dos radicais chegou ao fim. Ainda temos muitas tarefas importantes,
e a maior de todas é derrotar a nova forma do totalitarismo: a teocracia.
Aqueles que se intitulam como radicais, contestadores, precisam redefinir o debate
em torno de uma sociedade secular, que é uma aspiração iluminista,
e devem combater as ditaduras teocráticas. O fato de eu estar afastado
da esquerda tradicional nunca significou uma abstenção da solidariedade
política nem mesmo da solidariedade revolucionária. Não
estamos em um beco sem saída. Veja
Então o seu ideal ou utopia hoje é uma sociedade plenamente
secular? Hitchens Sim. Meu próximo livro, que já
concluí mas ainda não foi editado, vai se chamar God Is Not Great
(Deus Não É Grande). O título contraria abertamente um
princípio conhecido da fé muçulmana, mas o livro não
é apenas uma crítica ao Islã. É contra a crença
em Deus. Acredito que hoje quem se declara radical deve defender e divulgar as
descobertas científicas em áreas como a cosmologia e a genética,
por duas razões. A primeira é o combate ao racismo. Já tínhamos
uma abolição moral do racismo, e as descobertas da genética
trouxeram a sua abolição científica. A segunda razão
é que essas descobertas minam o poder da Igreja.
Veja Há quem argumente que a humanidade
não pode viver sem algum tipo de fé que a educação
moral das pessoas não se sustenta em uma base puramente secular. Hitchens
A utilidade de uma ilusão é irrelevante para avaliar
seu conteúdo moral. E há milhões de pessoas em todo o mundo
que conduzem sua vida de forma ética sem acreditar em Deus. De outro lado,
não creio que alguém possa indicar um só país em que
as pessoas se comportem melhor por acreditar em Deus. Podemos, ao contrário,
apontar países em que as pessoas se comportam de forma pior por causa da
fé. Veja E
o senhor incluiria os Estados Unidos entre os países onde a religião
piora o comportamento das pessoas? Hitchens Sem dúvida.
Posso dar exemplos. As pessoas que hoje desejam impedir as crianças de
aprender sobre as novas descobertas da biologia evolutiva o que tornará
essas crianças incapazes de funcionar no mundo moderno são
cristãs. E em todas as igrejas encontramos quem afirme que a aids é
ruim, mas não tão ruim quanto os métodos contraceptivos.
Os programas americanos contra a aids na África são baseados nessas
idéias e vão levar milhões de pessoas a uma morte
horrível. Veja
No livro Cartas a um Jovem Contestador, o senhor mostra algum
ressentimento por ser considerado apenas como o sujeito que atacou Madre Teresa
de Calcutá. Por quê? Hitchens O que me irrita
é quando me descrevem como um sujeito que está sempre em busca de
alguém para atacar. Meus livros sobre George Orwell, Thomas Jefferson e
Thomas Paine provam que sou, sim, capaz de escrever sobre figuras que admiro.
Mas ainda tenho orgulho de ter exposto Madre Teresa como uma fraude e uma fundamentalista
fanática. A Igreja, depois disso, decidiu aceitar como verdadeiro um milagre
fajuto na Índia: uma mulher teria se recuperado de um tumor usando uma
medalha de Madre Teresa. Não é assim que se curam tumores. Temos
os testemunhos de médicos e até do marido dessa mulher para documentar
o tratamento que a fez melhorar. A Igreja, no entanto, considera que houve uma
cura milagrosa promovida por ela. É uma mentira irresponsável que
encoraja os indianos a procurar charlatões no lugar de médicos de
verdade. Veja
Na introdução de Amor, Pobreza e Guerra, o senhor diz
que os ensaios literários reunidos ali são os que lhe deram maior
prazer. O senhor considera a possibilidade de se retirar da política para
escrever apenas sobre literatura? Hitchens Em 2000, comecei
a ler a obra de Marcel Proust, tomando notas. Meu plano era me voltar em definitivo
para a literatura. Terminei essa leitura anotada de Em Busca do Tempo Perdido
no dia 9 de setembro de 2001. Dois dias depois, percebi que teria de
voltar a escrever sobre política. Confirmou-se algo que eu sempre disse:
você pode tentar fugir da política, mas ela vai acabar encontrando
você. Veja
Mas, em certa medida, os escritores de que o senhor trata no livro se isolaram
da arena pública para compor suas obras, não? Hitchens
Em 1977, quando vi Jorge Luis Borges em Buenos Aires, essa era a posição
dele. Dizia que não se importava com política, mas que estava feliz
porque a Argentina era governada pelos militares, e não pelos políticos.
Mas mesmo ele, já cego e idoso e levando uma vida um tanto reclusa, se
viu forçado a fazer pronunciamentos públicos sobre temas como os
desaparecidos políticos e a Guerra das Malvinas. Minha coleção
de ensaios anterior, Unacknowledged Legislation (Legislação
Não Reconhecida), é dedicada a esse tema: o papel dos escritores
na esfera pública. Na Atenas antiga, surgiu uma palavra para designar aqueles
que não desejavam participar da vida pública: "idiota". A palavra
só se tornaria um insulto mais tarde. Mas sempre considerei que qualquer
um que deseje ficar completamente de fora da vida política é, de
fato, um idiota às vezes, um idiota admirável. |