Edição 1966 . 26 de julho de 2006

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Auto-retrato
Nani Beccalli

Antonio Milena


Em 2006, pela primeira vez em seus quase 130 anos de história, o faturamento internacional da gigante americana General Electric poderá igualar-se às suas vendas dentro dos Estados Unidos. O fato ilustra o estágio avançado da globalização e joga luz sobre o trabalho do italiano Ferdinando "Nani" Beccalli-Falco, 56 anos, presidente internacional da GE. Em visita ao Brasil, ele falou ao editor executivo Marcio Aith.

COMO A GLOBALIZAÇÃO MOLDOU SUA CARREIRA?
Nasci em Turim e ocupo o segundo cargo mais alto dentro de uma companhia que, além de ser centenária, simboliza o que há de melhor no capitalismo americano. Passo 85% do meu tempo viajando. Vou à China, à Índia e ao Oriente Médio três vezes por ano. À América Latina, duas vezes. Conheço autoridades e empresários de todos esses lugares. Tento encontrar oportunidades de negócios para a GE onde quer que elas estejam: tanto na construção de uma ferrovia a 5.000 metros de altitude no Tibete quanto na explosão do crédito ao consumidor no Brasil. Convivo, há 31 anos dentro da companhia, com executivos de todas as nacionalidades. Hoje, 174.000 dos 300.000 empregados da GE trabalham fora dos Estados Unidos. Em suma: sob o ponto de vista da GE, a carreira de muita gente foi moldada pela globalização.  

POR QUE SÓ RECENTEMENTE A GE DECIDIU ACELERAR SUAS OPERAÇÕES INTERNACIONAIS?
Trata-se de uma necessidade imperiosa do capitalismo. Há trinta anos, o conceito de integração comercial resumia-se a exportar. No máximo, para a GE, significava montar bases de produção em países ricos e na América Latina, por causa da influência dos EUA na região. No início tivemos um crescimento fantástico, mas a taxa de expansão do mundo industrializado deixou de ser suficiente para satisfazer a exigência de retorno financeiro de nossos acionistas. Atingimos o limite de penetração nas economias desenvolvidas.  

ENTÃO, CONSIDERANDO QUE A ECONOMIA BRASILEIRA CRESCE MENOS QUE A DOS ESTADOS UNIDOS, POSSO CONCLUIR QUE O INTERESSE DA GE NO BRASIL DECRESCE?
Não, nosso interesse pelo Brasil só aumenta. Existem 2 bilhões de pessoas na China, Índia, Paquistão e Indonésia. Elas precisam comer, e o Brasil fornecerá alimentos a elas. Além disso, esses países investem bilhões de dólares em infra-estrutura. O Brasil vai produzir os insumos necessários para tal empreitada. Quanto ao número frio do PIB brasileiro, não me preocupo. Como pode a economia de um país crescer somente 2,3% quando várias de suas maiores companhias avançam a taxas de 30%? Sou italiano; tenho um palpite sobre esse assunto: existem equívocos no cálculo do PIB brasileiro ou há muita riqueza não declarada. É provável que o país tenha melhorado mais do que seu PIB.  

ALÉM DE SUAS POPULAÇÕES, QUE OUTRAS CARACTERÍSTICAS COLOCAM A CHINA E A ÍNDIA EM CONDIÇÕES DE CAPTAR MAIS INVESTIMENTOS QUE O BRASIL?
Há atrativos nas três economias. A Índia lidera em tecnologia de informação, tem dirigentes globais da estirpe de Lakshmi Mittal, o rei do aço, e milhões de jovens preparados para o mundo competitivo. A força da China está na determinação do governo central. Negociações com as autoridades chinesas são difíceis, mas, depois que se decide algo, tudo caminha com uma determinação impressionante. O Brasil tem potencial. O uso crescente do álcool combustível, por exemplo, marca o começo de uma nova era para o país – e uma oportunidade única de negócios para a GE. Exemplo: cada fábrica de etanol de tamanho médio exige 200 milhões de dólares em equipamentos que nós fabricamos: compressores, geradores e sistemas de purificação de água.  

METADE DOS LUCROS MUNDIAIS DA GE VEM DE EMPRÉSTIMOS FEITOS A OUTRAS EMPRESAS E A CONSUMIDORES. VOCÊS VÃO VIRAR UM BANCO?
Não, apenas oferecemos soluções financeiras crescentes. No Brasil, por exemplo, empréstimos para consumidores crescem vertiginosamente. Estamos presentes com a financeira GE Money, mas vamos focar ainda mais nesse segmento. Dizem que somos lentos demais, que chegaremos tarde ao melhor da festa do crédito no Brasil. Não ligo. Às vezes vale a pena chegar à festa sóbrio, quando todos já estão embriagados.

 
 
 
 
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