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Auto-retrato Nani
Beccalli
Antonio
Milena
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Em
2006, pela primeira vez em seus quase 130 anos de história, o faturamento
internacional da gigante americana General Electric poderá igualar-se às
suas vendas dentro dos Estados Unidos. O fato ilustra o estágio avançado
da globalização e joga luz sobre o trabalho do italiano Ferdinando
"Nani" Beccalli-Falco, 56 anos, presidente internacional da GE. Em visita ao Brasil,
ele falou ao editor executivo Marcio Aith.
COMO
A GLOBALIZAÇÃO MOLDOU SUA CARREIRA? Nasci em Turim e ocupo
o segundo cargo mais alto dentro de uma companhia que, além de ser centenária,
simboliza o que há de melhor no capitalismo americano. Passo 85% do meu
tempo viajando. Vou à China, à Índia e ao Oriente Médio
três vezes por ano. À América Latina, duas vezes. Conheço
autoridades e empresários de todos esses lugares. Tento encontrar oportunidades
de negócios para a GE onde quer que elas estejam: tanto na construção
de uma ferrovia a 5.000 metros de altitude no Tibete quanto na explosão
do crédito ao consumidor no Brasil. Convivo, há 31 anos dentro da
companhia, com executivos de todas as nacionalidades. Hoje, 174.000 dos 300.000
empregados da GE trabalham fora dos Estados Unidos. Em suma: sob o ponto de vista
da GE, a carreira de muita gente foi moldada pela globalização.
POR QUE SÓ RECENTEMENTE
A GE DECIDIU ACELERAR SUAS OPERAÇÕES INTERNACIONAIS? Trata-se
de uma necessidade imperiosa do capitalismo. Há trinta anos, o conceito
de integração comercial resumia-se a exportar. No máximo,
para a GE, significava montar bases de produção em países
ricos e na América Latina, por causa da influência dos EUA na região.
No início tivemos um crescimento fantástico, mas a taxa de expansão
do mundo industrializado deixou de ser suficiente para satisfazer a exigência
de retorno financeiro de nossos acionistas. Atingimos o limite de penetração
nas economias desenvolvidas. ENTÃO,
CONSIDERANDO QUE A ECONOMIA BRASILEIRA CRESCE MENOS QUE A DOS ESTADOS UNIDOS,
POSSO CONCLUIR QUE O INTERESSE DA GE NO BRASIL DECRESCE? Não, nosso
interesse pelo Brasil só aumenta. Existem 2 bilhões de pessoas na
China, Índia, Paquistão e Indonésia. Elas precisam comer,
e o Brasil fornecerá alimentos a elas. Além disso, esses países
investem bilhões de dólares em infra-estrutura. O Brasil vai produzir
os insumos necessários para tal empreitada. Quanto ao número frio
do PIB brasileiro, não me preocupo. Como pode a economia de um país
crescer somente 2,3% quando várias de suas maiores companhias avançam
a taxas de 30%? Sou italiano; tenho um palpite sobre esse assunto: existem equívocos
no cálculo do PIB brasileiro ou há muita riqueza não declarada.
É provável que o país tenha melhorado mais do que seu PIB.
ALÉM DE SUAS POPULAÇÕES,
QUE OUTRAS CARACTERÍSTICAS COLOCAM A CHINA E A ÍNDIA EM CONDIÇÕES
DE CAPTAR MAIS INVESTIMENTOS QUE O BRASIL? Há atrativos nas três
economias. A Índia lidera em tecnologia de informação, tem
dirigentes globais da estirpe de Lakshmi Mittal, o rei do aço, e milhões
de jovens preparados para o mundo competitivo. A força da China está
na determinação do governo central. Negociações com
as autoridades chinesas são difíceis, mas, depois que se decide
algo, tudo caminha com uma determinação impressionante. O Brasil
tem potencial. O uso crescente do álcool combustível, por exemplo,
marca o começo de uma nova era para o país e uma oportunidade
única de negócios para a GE. Exemplo: cada fábrica de etanol
de tamanho médio exige 200 milhões de dólares em equipamentos
que nós fabricamos: compressores, geradores e sistemas de purificação
de água. METADE DOS
LUCROS MUNDIAIS DA GE VEM DE EMPRÉSTIMOS FEITOS A OUTRAS EMPRESAS E A CONSUMIDORES.
VOCÊS VÃO VIRAR UM BANCO? Não, apenas oferecemos soluções
financeiras crescentes. No Brasil, por exemplo, empréstimos para consumidores
crescem vertiginosamente. Estamos presentes com a financeira GE Money, mas vamos
focar ainda mais nesse segmento. Dizem que somos lentos demais, que chegaremos
tarde ao melhor da festa do crédito no Brasil. Não ligo. Às
vezes vale a pena chegar à festa sóbrio, quando todos já
estão embriagados. |