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André
Petry O dilema e o exemplo "Friedenbach,
o pai da menina assassinada, merece
aplausos por tanta lucidez no meio de tanta dor"
Em novembro de 2003, os adolescentes
Felipe Caffé, 19 anos, e Liana Friedenbach, 16, foram acampar às
escondidas dos pais nos arredores de Embu-Guaçu e essa aparentemente
inocente transgressão resultou num crime bárbaro. O casal foi seqüestrado
e assassinado. Caffé morreu com um tiro na nuca. Liana foi violentada diversas
vezes e morta a facadas. Pois essa tragédia levou a Justiça brasileira
a produzir uma cena raríssima na semana passada. O julgamento de três
assassinos terminou com sentenças exemplares (as penas, somadas, chegam
a 177 anos de prisão) e até elogios dos pais das vítimas.
"É uma felicidade estranha, parcial. Agora, pelo menos, tenho certeza de
que foi feita justiça", disse a enfermeira Lenice Caffé, mãe
de Felipe. "Estou muito satisfeito com a sentença, mas nada alivia meu
coração", disse o advogado Ari Friedenbach, pai de Liana.
Apresentado dessa forma, o caso parece ter tido um desfecho adequado e finalmente
podemos ter a sensação, ainda que momentânea, de que não
vivemos no reino da impunidade. Na verdade, o caso é maior que isso: tem
um dilema legal e um exemplo comovente. O dilema é que os assassinos foram
cinco, e não três. O quarto será julgado em breve, mas o quinto
nunca se sentará no banco dos réus. É R.A.C., que na época
do crime tinha 16 anos. Sendo menor de idade, Champinha, como é conhecido,
foi recolhido a uma unidade da Febem, de onde poderá sair em março
do ano que vem, quando se completam três anos de internação,
o máximo previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Champinha
não foi coadjuvante no crime. Deu a idéia de seqüestrar o casal,
estuprou a menina e desferiu as facadas que a mataram. Se não houver um
laudo mostrando que é um psicopata, ou algo parecido, para que fique encarcerado,
Champinha pode ganhar as ruas em 2007 e com ficha policial limpinha.
É justo? É justo que, três anos depois
de cometer um crime repulsivo, esse adolescente seja libertado como se nada tivesse
acontecido? Claro que não. Então o Brasil deveria reduzir a idade
penal para permitir que adolescentes possam ser presos como qualquer adulto criminoso?
A resposta parece óbvia, mas não é. Será que simplesmente
despachar um jovem para os depósitos de lixo humano que são as prisões
brasileiras resolveria alguma coisa? Ou apenas saciaria o apetite da banda que
rosna que bandido não tem direitos humanos? É
aí que entra o exemplo notável. Ele vem de Ari Friedenbach, pai
de Liana. Assim que perdeu a filha, num movimento plenamente compreensível,
Friedenbach empenhou-se numa campanha pela redução da maioridade
penal. Visitou Brasília, pediu um plebiscito sobre o assunto, organizou
um abaixo-assinado. Agora, passados três anos, ele dá uma bela demonstração
de integridade humana e honestidade intelectual quando perguntado se ainda é
a favor da redução da idade penal. "Não", diz. "Com o tempo,
lendo, conversando, refletindo, mudei minha forma de ver isso. A redução
da maioridade penal, pura e simplesmente, é uma medida muito, muito equivocada.
Menores que cometem crimes hediondos têm de responder por eles, mas em uma
unidade prisional da Febem que tenha punição e ressocialização.
Não adianta colocar em prisão para adultos."
Friedenbach merece aplausos por tanta lucidez no meio de tanta dor. |