Edição 1 659 - 26/7/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Uma biografia de Groucho Marx
Tubarão chega ao Brasil
O Survivor da Globo
Rainbow 6, de Tom Clancy
Milhões para John Welch Jr.
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


A força secreta
do objeto livro

Ele apresenta recursos que não
o tornam uma presa tão fácil
diante da voracidade da internet

Há um problema com o livro. Tem-se previsto a sua desgraça com a insistência de um Jeremias diante dos pecados de Jerusalém. Depois da máquina de escrever, do telex e dos pesados arquivos de aço, ele estaria na lista dos condenados à morte pelo rolo compressor do computador e da internet. Em artigos recentes na imprensa, dois eminentes escritores, o americano John Updike e o peruano Mario Vargas Llosa, saíram em defesa, o primeiro do livro propriamente dito, o segundo deste secular subproduto da indústria do livro que é a livraria. Se o livro precisa de defensores desse calibre, é sinal de que pode estar mesmo em perigo.

Updike alinha uma série de vantagens do livro sobre o texto obtido via computador. Seus argumentos vão da bela figura que os livros fazem como objetos de decoração, capazes de "aquecer e iluminar a sala", até o lastro que a posse de uma boa quantidade de livros confere à vida de uma pessoa, forçando-a a pensar duas vezes antes de se entregar à tentação de mudar de casa, ou segurando os casais quando, ao impulso de se separar, se contrapõe a dolorosa imposição de dividir a biblioteca. De permeio alinha virtudes mais óbvias, como o fato de, na cama, o livro ser melhor companhia do que "um laptop zumbindo", e a forma admirável "que se encaixa na mão humana num aconchego sedutor". Vargas Llosa, ao defender as antigas livrarias, dirigidas por livreiros amantes dos livros, contra as cadeias impessoais e as vendas pela internet, também, indiretamente, defende o objeto livro. Ele lamenta o fato de em Londres, onde está morando, terem desaparecido as pequenas livrarias da área de Charing Cross, com seus livreiros que pareciam personagens de Dickens. "Com eles, era possível conversar e passar horas escarvando os livros, nessa atmosfera cálida, inconfundível, de poeira intemporal e de religiosidade laica que têm – ou tinham – as livrarias pequenas", escreve. Mas, pensando bem...

Estaria o livro mesmo em crise? Considere-se o que se deu nos Estados Unidos, dias atrás. Centenas de milhares de pessoas, nas lojas, atrás de determinado objeto. Outras tantas encomendando-o, tomando-o emprestado, dando-o ou ganhando-o de presente. E que objeto era esse? Um livro – Harry Potter and the Goblet of Fire (Harry Potter e o Cálice de Fogo), da inglesa J.K. Rowling, quarto volume de uma série infanto-juvenil que virou fenômeno. É duvidoso que Updike ou Vargas Llosa se comovessem com o caso. O lançamento de Goblet of Fire, com a tiragem avassaladora de 5,3 milhões de cópias, foi precedido de aparato tão característico dos dias que correm quanto a internet. Propaganda maciça, até em luminosos na Times Square, de Nova York. E, como acontece com o Beaujolais Nouveau, um dia preciso, amplamente apregoado, para a chegada aos pontos-de-venda: 8 de julho. Algumas livrarias abriram à zero hora desse dia, para que os consumidores se apressassem a regalar-se. E não faltou gente para comprar, e não faltou fila.

Também não faltou bobeira, diga-se. Pessoas que ficam acordadas até meia-noite, para fazer uma compra, e arrastam consigo os filhos de pijama são seres contaminados pelo mesmo vírus que as empurra a fazer muitas outras coisas porque todo mundo está fazendo, ou pelo menos a publicidade dá a entender que todo mundo está fazendo. Resta que as crianças que compraram o livro, de 700 páginas, e foram fotografadas acariciando o volume como a um bicho de pelúcia, guardarão dele a mesma lembrança que o menino Marcel Proust guardou dos livros que ganhava da avó. Será um objeto sagrado de sua infância. Não é por ora concebível que o texto gerado num computador, inconsistente como o ar, que não se acaricia, nem se deixa integrar à decoração do quarto, venha a exercer tal papel.

O livro tem uma característica que o torna osso duro de roer para a sanha da internet: o fato de ser mistificado a ponto de virar objeto sagrado. E mistificado tanto pelos que usufruem dele quanto pelos que não usufruem. Para Updike e Vargas Llosa, ele é sagrado porque sem ele a vida não valeria a pena. O sentimento é parecido ao do ator Vittorio Gassman, quando, do palco, contemplando a platéia, pensava: "Como eles podem viver do lado de lá?" Quem vive entre os livros pensa dos outros, igualmente: "Como eles podem viver sem eles?" Mas aqueles que não os cultivam também os reverenciam. Neles identificam a sabedoria, tão alta que não a alcançam, tão desejável que gostariam que os filhos partilhassem dela como eles próprios não foram capazes.

Como se sabe, há muitos livros ruins – a maioria –, e, como veículo de circulação de conhecimento e possível distribuidor de sabedoria, o computador pode ser tão eficaz quanto. A maior razão do respeito pelo livro talvez seja outra. Silencioso, imune à exigência da velocidade, ao contrário da totalidade das invenções modernas, e tão despregado do frenesi do on-line quanto um cientista louco do blazer da moda, ele se apresenta como lastro num outro sentido, que não o de Updike: o que liga uma pessoa a si mesma.