A força secreta
do objeto livro
Ele apresenta recursos
que não
o tornam uma presa tão fácil
diante da voracidade da internet
Há um problema com o livro. Tem-se previsto a sua
desgraça com a insistência de um Jeremias diante
dos pecados de Jerusalém. Depois da máquina
de escrever, do telex e dos pesados arquivos de aço,
ele estaria na lista dos condenados à morte pelo
rolo compressor do computador e da internet. Em artigos
recentes na imprensa, dois eminentes escritores, o americano
John Updike e o peruano Mario Vargas Llosa, saíram
em defesa, o primeiro do livro propriamente dito, o segundo
deste secular subproduto da indústria do livro que
é a livraria. Se o livro precisa de defensores desse
calibre, é sinal de que pode estar mesmo em perigo.
Updike alinha uma série de vantagens do livro sobre
o texto obtido via computador. Seus argumentos vão
da bela figura que os livros fazem como objetos de decoração,
capazes de "aquecer e iluminar a sala", até o lastro
que a posse de uma boa quantidade de livros confere à
vida de uma pessoa, forçando-a a pensar duas vezes
antes de se entregar à tentação de
mudar de casa, ou segurando os casais quando, ao impulso
de se separar, se contrapõe a dolorosa imposição
de dividir a biblioteca. De permeio alinha virtudes mais
óbvias, como o fato de, na cama, o livro ser melhor
companhia do que "um laptop zumbindo", e a forma admirável
"que se encaixa na mão humana num aconchego sedutor".
Vargas Llosa, ao defender as antigas livrarias, dirigidas
por livreiros amantes dos livros, contra as cadeias impessoais
e as vendas pela internet, também, indiretamente,
defende o objeto livro. Ele lamenta o fato de em Londres,
onde está morando, terem desaparecido as pequenas
livrarias da área de Charing Cross, com seus livreiros
que pareciam personagens de Dickens. "Com eles, era possível
conversar e passar horas escarvando os livros, nessa atmosfera
cálida, inconfundível, de poeira intemporal
e de religiosidade laica que têm ou tinham as
livrarias pequenas", escreve. Mas, pensando bem...
Estaria o livro mesmo em crise? Considere-se o que se
deu nos Estados Unidos, dias atrás. Centenas de milhares
de pessoas, nas lojas, atrás de determinado objeto.
Outras tantas encomendando-o, tomando-o emprestado, dando-o
ou ganhando-o de presente. E que objeto era esse? Um livro
Harry Potter and the Goblet of Fire (Harry Potter
e o Cálice de Fogo), da inglesa J.K. Rowling, quarto
volume de uma série infanto-juvenil que virou fenômeno.
É duvidoso que Updike ou Vargas Llosa se comovessem
com o caso. O lançamento de Goblet of Fire,
com a tiragem avassaladora de 5,3 milhões de cópias,
foi precedido de aparato tão característico
dos dias que correm quanto a internet. Propaganda maciça,
até em luminosos na Times Square, de Nova York. E,
como acontece com o Beaujolais Nouveau, um dia preciso,
amplamente apregoado, para a chegada aos pontos-de-venda:
8 de julho. Algumas livrarias abriram à zero hora
desse dia, para que os consumidores se apressassem a regalar-se.
E não faltou gente para comprar, e não faltou
fila.
Também não faltou bobeira, diga-se. Pessoas
que ficam acordadas até meia-noite, para fazer uma
compra, e arrastam consigo os filhos de pijama são
seres contaminados pelo mesmo vírus que as empurra
a fazer muitas outras coisas porque todo mundo está
fazendo, ou pelo menos a publicidade dá a entender
que todo mundo está fazendo. Resta que as crianças
que compraram o livro, de 700 páginas, e foram fotografadas
acariciando o volume como a um bicho de pelúcia,
guardarão dele a mesma lembrança que o menino
Marcel Proust guardou dos livros que ganhava da avó.
Será um objeto sagrado de sua infância. Não
é por ora concebível que o texto gerado num
computador, inconsistente como o ar, que não se acaricia,
nem se deixa integrar à decoração do
quarto, venha a exercer tal papel.
O livro tem uma característica que o torna osso
duro de roer para a sanha da internet: o fato de ser mistificado
a ponto de virar objeto sagrado. E mistificado tanto pelos
que usufruem dele quanto pelos que não usufruem.
Para Updike e Vargas Llosa, ele é sagrado porque
sem ele a vida não valeria a pena. O sentimento é
parecido ao do ator Vittorio Gassman, quando, do palco,
contemplando a platéia, pensava: "Como eles podem
viver do lado de lá?" Quem vive entre os livros pensa
dos outros, igualmente: "Como eles podem viver sem eles?"
Mas aqueles que não os cultivam também os
reverenciam. Neles identificam a sabedoria, tão alta
que não a alcançam, tão desejável
que gostariam que os filhos partilhassem dela como eles
próprios não foram capazes.
Como se sabe, há muitos livros ruins a maioria
, e, como veículo de circulação de
conhecimento e possível distribuidor de sabedoria,
o computador pode ser tão eficaz quanto. A maior
razão do respeito pelo livro talvez seja outra. Silencioso,
imune à exigência da velocidade, ao contrário
da totalidade das invenções modernas, e tão
despregado do frenesi do on-line quanto um cientista louco
do blazer da moda, ele se apresenta como lastro num outro
sentido, que não o de Updike: o que liga uma pessoa
a si mesma.