Edição 1 659 - 26/7/2000

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Musa digital

Romance de Tom Clancy
nasceu de jogo de computador

Carlos Graieb

As musas têm formas estranhas de inspirar um escritor. O nascimento do último romance do americano Tom Clancy, por exemplo, não poderia ser mais inusitado: ele é o subproduto de um jogo para computadores. Tudo teve início há alguns anos, quando a Red Storm, companhia de software criada por Clancy, começou a desenvolver um daqueles sofisticados jogos interativos, com enredo e personagens. A idéia era que cada participante deveria tomar decisões para resgatar um grupo de reféns. Cabia a Clancy dar palpites sobre possíveis cenários e reviravoltas do jogo, e foi aí que ele teve o estalo. Por que não aproveitar todo aquele material e também escrever um livro? O resultado acaba de chegar às livrarias brasileiras: Rainbow 6 (tradução de Oliveira Júnior; Record; 768 páginas; 60 reais). O romance tem tudo para agradar aos fãs do autor: muita ação, descrições detalhadas de engenhocas e armamentos, e um herói conhecido, o ex-fuzileiro naval John Clark, que já havia protagonizado Sem Remorso, de 1994. Nesta nova aventura, ele combate um grupo de terroristas que pretende estragar a festa das Olimpíadas de Sydney.

Nos Estados Unidos, Rainbow 6 teve tiragem inicial de 2 milhões de exemplares. Clancy é o único autor americano, além de John Grisham, capaz de alcançar essa cifra. Nada mal para um sujeito que, até 1984, era apenas um corretor de seguros fascinado por questões militares. Ele precisou suar a camisa para completar sua primeira obra, Caçada ao Outubro Vermelho, e vendê-la por 5.000 dólares a uma editora pequena. Por um golpe de sorte, o livro foi parar nas mãos do presidente americano da época, Ronald Reagan, que o elogiou em público e transformou seu autor numa celebridade. Hoje, Clancy é uma espécie de marca, que serve para vender não só livros, mas filmes e jogos de computador. Em 1998, sua fortuna estava estimada em cerca de 200 milhões de dólares. E o homem ainda é sortudo no amor. Acaba de ser casar com uma mulher vinte anos mais nova que ele, que se empenha numa cruzada para desfazer a imagem de cínico e rabugento do marido. "Todos acham que Tom é um conservador apaixonado por armas", disse ela numa entrevista. "Mas a verdade é que ele é o mais tímido e meigo dos coelhinhos." Dá para acreditar?