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Edição 1 659 - 26/7/2000
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Foram necessários apenas cinco segundos para o mousha (assassino em chinês) fazer o serviço na tarde de sábado 15. Ele entrou no salão do restaurante Guangchou, na Liberdade, bairro oriental de São Paulo, e disparou sua arma semi-automática, calibre 380, contra o grupo de cinco chineses, três homens e duas mulheres, reunido em torno de uma das mesas. Eles eram os únicos clientes na sobreloja escura da principal avenida do bairro. Os três homens morreram depois de ser levados ao hospital, atingidos na cabeça e no pescoço. As duas sobreviventes, uma delas também baleada, alegaram não conhecer o assassino e ignorar o motivo do crime. Chacinas são comuns em São Paulo, mas ocorrem quase sempre nos bairros pobres da periferia. O crime no bairro oriental é de outro tipo e chama a atenção pela frieza profissional da execução. Confirma, sobretudo, o aumento da violência praticada por quadrilhas de estrangeiros, a chamada máfia chinesa. São criminosos que até agora atraíam pouca atenção por agir apenas na comunidade chinesa, extorquindo comerciantes ou imigrantes clandestinos, mas estão se tornando mais ousados e sanguinários. No início deste mês, três chineses foram metralhados dentro de um carro às 5 horas da manhã ao deixar uma boate na Liberdade. Seis meses atrás, Ren Zhan Feng, um comerciante de roupas de 34 anos, foi degolado em seu apartamento no mesmo bairro. É o tipo de crime visto como punição exemplar entre os mafiosos chineses. Desde setembro do ano passado, a polícia já sabia que o restaurante onde Shan Xiao Lei, Chen Jian Ming e Liu Zhan Hong foram mortos era um lugar freqüentado por bandidos orientais. Em uma batida feita depois de uma denúncia, a polícia apreendeu lá três pistolas, munição, uma metralhadora e caixas de contrabando. O dono, Yeung Wai Bun, brasileiro naturalizado, ficou detido por pouco tempo. Depois da chacina, fechou o restaurante. A Liberdade é um reduto tradicional de imigrantes japoneses, coreanos e chineses e fica apinhada de visitantes e turistas nos finais de semana. Os mafiosos chineses são uma minoria incômoda dentro da quinta maior comunidade estrangeira da cidade, com cerca de 20.000 pessoas. Os crimes do submundo da Liberdade estão conectados à região da Rua 25 de Março, o paraíso do contrabando na região central. As quadrilhas são formadas por jovens vindos de uma mesma região da China e, com freqüência, preferem atacar pessoas que falem seu próprio dialeto. Os mafiosos envolvem-se em disputas por pontos comerciais ou cuidam de cobrar dívidas contraídas em empréstimos ou no jogo. A polícia desconhece o motivo dos crimes, mas sabe que quase todos os mortos até agora -- incluindo os da chacina no restaurante -- eram comerciantes. "Desde que o governo anistiou os imigrantes ilegais, há dois anos, essas máfias tornaram-se mais violentas em suas técnicas de extorsão", diz Luciano Pestana, delegado da Polícia Federal de São Paulo. "Antes, com mais de 8.000 chineses em situação irregular, lucravam fácil apenas ameaçando denunciá-los à polícia." A ofensiva da máfia chinesa em São Paulo faz parte de uma conexão além-fronteiras. Em Ciudad del Este, o entreposto muambeiro na fronteira com Foz do Iguaçu, três chineses foram mortos no ano passado. O governo do Paraguai até formou, com ajuda do governo de Taiwan, uma brigada antimáfia chinesa, em 1998. A cidade paraguaia é também o ponto de embarque da rota de imigração clandestina para São Paulo. Muitos dos mafiosos que agem na Liberdade nem sequer vivem no Brasil. Fazem apenas rápidas incursões para extorquir em São Paulo e fogem novamente para o Paraguai. "Como impera a lei do silêncio na comunidade chinesa, é difícil encontrar os assassinos", diz Thomaz Galeano, da polícia de Ciudad del Este. Há três anos, a Polícia Federal prendeu por extorsão quatro homens ligados à máfia de Fu Chin, que leva o nome da cidade na região norte da China. O líder do bando, Chen Lia Kua, foi extraditado. No ano passado, outros cinco chineses foram detidos por tentar cobrar uma "taxa de proteção" de 30.000 dólares de dois comerciantes, a golpes de taco de beisebol. Eles faziam parte de outra quadrilha mafiosa originária de Fu Jian, no sul da China. Nos dois casos, os ameaçados tiveram a coragem de romper o pacto de silêncio que vigora entre os chineses. |
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