Edição 1 659 - 26/7/2000

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A mancha da impunidade

Numa série de erros, a Petrobras deixa vazar
4 milhões de litros de óleo e emporcalha dois
rios no Paraná

Liége Fuentes e Ricardo Villela

 
Fotos Edson Silva
Pássaro sujo de petróleo: apenas um em cada oito animais atingidos sobreviveu

Os especialistas em aviação dizem que as aeronaves modernas são tão seguras que não basta um erro para ocorrer um desastre aéreo. É preciso uma seqüência de equívocos e infelicidades. Foi exatamente isso que aconteceu na refinaria da Petrobras no Paraná, na semana passada. O acidente, que emporcalhou dois rios e despejou 4 milhões de litros de petróleo a céu aberto, foi o resultado de uma série inacreditável de erros. O relatório divulgado pela empresa na quinta-feira admitia uma falha humana e uma técnica. Mas pelo menos outras três mazelas combinaram-se para produzir um dos maiores desastres ecológicos de que já se teve notícia no país.

 
A mancha vinda do Rio Barigui suja também o Iguaçu: o maior desastre do ano

O óleo vazou de um duto na Refinaria Presidente Getúlio Vargas, no município de Araucária, e espalhou-se pelos rios Barigui e Iguaçu até a cidade de Balsa Nova, 44 quilômetros abaixo. Nos dias seguintes, o cenário era desolador. Em alguns pontos, a mancha negra cobria toda a largura do leito dos rios. Aves e pequenos mamíferos que tentavam chegar até a água ficavam cobertos pelo óleo. De cada oito animais retirados pelas equipes de resgate, apenas um sobreviveu. Em acidentes desse tipo, o tempo de recuperação da natureza é avaliado em anos. A quantidade de óleo derramado foi três vezes maior que a do acidente ocorrido em janeiro na Refinaria de Duque de Caxias, também da Petrobras, que atingiu a Baía de Guanabara.

A refinaria de Araucária produz diariamente 12 milhões de litros de óleo diesel, 7 milhões de litros de gasolina, 3 milhões de litros de óleo combustível e 3 mil toneladas de gás de cozinha. No início da tarde de domingo, um dos dez tanques da refinaria seria abastecido de petróleo por um duto que vem de São Francisco do Sul, em Santa Catarina. A operação, corriqueira, terminou em desastre por uma sucessão de descuidos. Para começar, ninguém abriu o reservatório que receberia o óleo. Houve um aumento brutal da pressão no duto. A válvula que arrebentou, em conseqüência disso, estava em manutenção. Embora exista um computador para monitorar o tempo todo o volume de óleo no tanque, por duas horas nenhum operador percebeu o problema (veja quadro). Finalmente, a refinaria não estava preparada para enfrentar um acidente desse porte.

Com apenas catorze homens na brigada de emergência, só no dia seguinte a Petrobras admitiu que não teria como conter o óleo com seus recursos. A Defesa Civil foi avisada onze horas depois do início do vazamento. E só então foi possível montar uma gigantesca força-tarefa para enfrentar a emergência. Ela mobilizou 2.000 homens, 55 caminhões-vácuo, 3.100 metros de barreiras, 30 toneladas de material absorvente, trinta caminhões-tanque. Temia-se que a mancha de óleo chegasse às cidades de União da Vitória e Porto União, que captam água para consumo da população no Rio Iguaçu. Até o fim da semana, as barreiras de bóias colocadas no leito dos rios foram suficientes, e o óleo não atingiu essas cidades.

A Petrobras é a maior revendedora de combustíveis do Brasil, tem a mais numerosa frota de petroleiros do Hemisfério Sul e é a empresa que melhor domina a tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas. Desastres como o da semana passada também fazem dela a inimiga número 1 do meio ambiente no Brasil. Só neste ano, a empresa já registrou doze acidentes, incluindo incêndios, transbordamentos e os dois derramamentos de grandes proporções. Pelo vazamento no Paraná, a Petrobras já foi multada em 50 milhões de reais. É uma quantia insignificante para uma companhia que vai gerar 16 bilhões de reais de caixa neste ano. Além disso, quem acabará pagando mesmo são os contribuintes e consumidores brasileiros que sustentam a estatal.

Quando uma empresa privada é responsabilizada por tragédias dessas proporções, seus acionistas sentem a punição no bolso e, no mínimo, demitem os responsáveis. No caso da Petrobras, as providências são muito camaradas com os culpados. Depois do acidente na Baía de Guanabara, em janeiro, dois diretores perderam o cargo de confiança, mas nenhum deles ficou sem o emprego, já que eram concursados. Um operador pegou 29 dias de suspensão, mas teve seu salário pago pelo Sindicato dos Petroleiros.