A mancha da impunidade
Numa série de erros, a Petrobras
deixa vazar
4 milhões de litros de óleo e emporcalha dois
rios no Paraná
Liége Fuentes e
Ricardo Villela
Fotos Edson Silva
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| Pássaro sujo de petróleo:
apenas um em cada oito animais atingidos sobreviveu |
Os especialistas em aviação dizem que as
aeronaves modernas são tão seguras que não
basta um erro para ocorrer um desastre aéreo. É
preciso uma seqüência de equívocos e infelicidades.
Foi exatamente isso que aconteceu na refinaria da Petrobras
no Paraná, na semana passada. O acidente, que emporcalhou
dois rios e despejou 4 milhões de litros de petróleo
a céu aberto, foi o resultado de uma série
inacreditável de erros. O relatório divulgado
pela empresa na quinta-feira admitia uma falha humana e
uma técnica. Mas pelo menos outras três mazelas
combinaram-se para produzir um dos maiores desastres ecológicos
de que já se teve notícia no país.
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| A mancha vinda do Rio Barigui suja
também o Iguaçu: o maior desastre do ano
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O óleo vazou de um duto na Refinaria Presidente
Getúlio Vargas, no município de Araucária,
e espalhou-se pelos rios Barigui e Iguaçu até
a cidade de Balsa Nova, 44 quilômetros abaixo. Nos
dias seguintes, o cenário era desolador. Em alguns
pontos, a mancha negra cobria toda a largura do leito dos
rios. Aves e pequenos mamíferos que tentavam chegar
até a água ficavam cobertos pelo óleo.
De cada oito animais retirados pelas equipes de resgate,
apenas um sobreviveu. Em acidentes desse tipo, o tempo de
recuperação da natureza é avaliado
em anos. A quantidade de óleo derramado foi três
vezes maior que a do acidente ocorrido em janeiro na Refinaria
de Duque de Caxias, também da Petrobras, que atingiu
a Baía de Guanabara.
A refinaria de Araucária produz diariamente 12
milhões de litros de óleo diesel, 7 milhões
de litros de gasolina, 3 milhões de litros de óleo
combustível e 3 mil toneladas de gás de cozinha.
No início da tarde de domingo, um dos dez tanques
da refinaria seria abastecido de petróleo por um
duto que vem de São Francisco do Sul, em Santa Catarina.
A operação, corriqueira, terminou em desastre
por uma sucessão de descuidos. Para começar,
ninguém abriu o reservatório que receberia
o óleo. Houve um aumento brutal da pressão
no duto. A válvula que arrebentou, em conseqüência
disso, estava em manutenção. Embora exista
um computador para monitorar o tempo todo o volume de óleo
no tanque, por duas horas nenhum operador percebeu o problema
(veja quadro). Finalmente,
a refinaria não estava preparada para enfrentar um
acidente desse porte.
Com apenas catorze homens na brigada de emergência,
só no dia seguinte a Petrobras admitiu que não
teria como conter o óleo com seus recursos. A Defesa
Civil foi avisada onze horas depois do início do
vazamento. E só então foi possível
montar uma gigantesca força-tarefa para enfrentar
a emergência. Ela mobilizou 2.000
homens, 55 caminhões-vácuo, 3.100
metros de barreiras, 30 toneladas de material absorvente,
trinta caminhões-tanque. Temia-se que a mancha de
óleo chegasse às cidades de União da
Vitória e Porto União, que captam água
para consumo da população no Rio Iguaçu.
Até o fim da semana, as barreiras de bóias
colocadas no leito dos rios foram suficientes, e o óleo
não atingiu essas cidades.
A Petrobras é a maior revendedora de combustíveis
do Brasil, tem a mais numerosa frota de petroleiros do Hemisfério
Sul e é a empresa que melhor domina a tecnologia
de prospecção de petróleo em águas
profundas. Desastres como o da semana passada também
fazem dela a inimiga número 1 do meio ambiente no
Brasil. Só neste ano, a empresa já registrou
doze acidentes, incluindo incêndios, transbordamentos
e os dois derramamentos de grandes proporções.
Pelo vazamento no Paraná, a Petrobras já foi
multada em 50 milhões de reais. É uma quantia
insignificante para uma companhia que vai gerar 16 bilhões
de reais de caixa neste ano. Além disso, quem acabará
pagando mesmo são os contribuintes e consumidores
brasileiros que sustentam a estatal.
Quando uma empresa privada é responsabilizada por
tragédias dessas proporções, seus acionistas
sentem a punição no bolso e, no mínimo,
demitem os responsáveis. No caso da Petrobras, as
providências são muito camaradas com os culpados.
Depois do acidente na Baía de Guanabara, em janeiro,
dois diretores perderam o cargo de confiança, mas
nenhum deles ficou sem o emprego, já que eram concursados.
Um operador pegou 29 dias de suspensão, mas teve
seu salário pago pelo Sindicato dos Petroleiros.