O texto original
Tecnologia recupera obras perdidas de
Arquimedes, o sábio que disse "heureca"
Daniel Hessel Teich
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| Páginas do palimpsesto:
texto litúrgico cobriu a obra de Arquimedes escrita
na vertical |
Durante a Idade Média uma das práticas mais
comuns nas bibliotecas dos mosteiros era apagar obras antigas
escritas em pergaminho e sobre elas escrever ou copiar novos
textos. Eram os chamados palimpsestos, livretes em que textos
científicos e filosóficos da Antiguidade clássica
eram raspados das páginas e substituídos por
orações e rituais litúrgicos. É
sobre um livro desse, uma pequena obra de 170 páginas,
manuscrita em finíssima pelica de cabrito, que um
grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Rochester,
nos Estados Unidos, tem se debruçado nas últimas
semanas. Eles estão decifrando, por baixo de orações
medievais, o texto de sete obras escritas pelo matemático
Arquimedes, há mais de 2 200 anos, entre elas o lendário
Método dos Teoremas Mecânicos. Não
se trata do manuscrito original do sábio grego, mas
de cópia feita por um bizantino no século
X. É, de qualquer forma, uma preciosidade. Apenas
um em cada 100 textos da Antiguidade chegou intacto ao presente.
É ainda mais relevante por se tratar de Arquimedes,
um dos pais da ciência.
O sábio grego viveu na cidade de Siracusa 200 anos
antes de Cristo e foi um teórico genial. Seu mérito
foi colocar ênfase na aplicação prática
das idéias, coisa pouco comum entre os grandes pensadores
gregos. Arquimedes inventou máquinas para bombear
água, armas para o exército de Siracusa, determinou
pela primeira vez o pi, número ainda usado no cálculo
da circunferência, e estabeleceu as fórmulas
para chegar ao volume e à superfície da esfera.
"Isso o tornava diferente dos filósofos gregos",
diz o matemático Newton da Costa, professor da Universidade
de São Paulo e da Universidade Paulista. "Ele tinha
uma forma de pensar tipicamente moderna." Poucos cientistas
incitaram tanto a imaginação das gerações
futuras quanto esse sábio grego (veja
quadro). Detalhes de sua vida fazem parte do anedotário
popular, como o episódio da heureca. Ao perceber
como seu corpo flutuava na água e as relações
de forças implicadas no processo, ele teria saído
às ruas de Siracusa, nu, gritando "heureca!" (Eu
achei!). É famoso o modo como explicou o princípio
da alavanca: "Dê-me um ponto de apoio que moverei
a Terra".
Morto quando os romanos tomaram Siracusa, em 211 a.C.
(a lenda diz que Arquimedes queimou os navios inimigos com
o calor do sol refletido em espelhos), ele deixou um portentoso
legado na física e na matemática que não
encontrou sucessor à altura durante a Antiguidade.
Só dez séculos mais tarde, baseados em traduções,
os matemáticos árabes deram continuidade a
seu trabalho. O livro que está sendo estudado pelos
americanos foi descoberto em 1906 pelo dinamarquês
Johan Heiberg numa biblioteca de Istambul. Heiberg publicou
uma cópia incompleta do Método dos Teoremas
Mecânicos, baseada numa leitura capenga feita
com ajuda de lentes de aumento. O volume sumiu novamente
na confusão da I Guerra e só voltou a reaparecer
há dois anos num leilão da Christie's, em
Nova York. Foi arrematado por 2 milhões de dólares
e emprestado para pesquisas por seu novo dono, cujo nome
é mantido em sigilo.
Com equipamentos de alta tecnologia, os pesquisadores
já iniciaram o trabalho de decifrar o texto e diagramas
geométricos do palimpsesto. "É um tesouro
que nos permitirá saber de primeira mão a
forma de raciocínio de Arquimedes e como nasceu a
ciência moderna", diz o historiador Reviel Netz, da
Universidade Stanford. O texto escondido sob as orações
está sendo lido com o auxílio de raios infravermelho
e ultravioleta. Não se pode estragar o trabalho feito
pelos monges. Trata-se de um tratado sobre exorcismo e,
ironicamente, ganhou valor histórico em decorrência
de sua antiguidade. Os cientistas estão passando
ambos os textos para a linguagem virtual, utilizando para
isso um programa desenvolvido especialmente pela Xerox.
Preservado no computador, o palimpsesto poderá ser
lido e estudado por todos os interessados. A obra de Arquimedes
terá finalmente sido resgatada.