Edição 1 659 - 26/7/2000

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O texto original

Tecnologia recupera obras perdidas de
Arquimedes, o sábio que disse "heureca"

Daniel Hessel Teich

 
AP
AP
Páginas do palimpsesto: texto litúrgico cobriu a obra de Arquimedes escrita na vertical

Durante a Idade Média uma das práticas mais comuns nas bibliotecas dos mosteiros era apagar obras antigas escritas em pergaminho e sobre elas escrever ou copiar novos textos. Eram os chamados palimpsestos, livretes em que textos científicos e filosóficos da Antiguidade clássica eram raspados das páginas e substituídos por orações e rituais litúrgicos. É sobre um livro desse, uma pequena obra de 170 páginas, manuscrita em finíssima pelica de cabrito, que um grupo de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Rochester, nos Estados Unidos, tem se debruçado nas últimas semanas. Eles estão decifrando, por baixo de orações medievais, o texto de sete obras escritas pelo matemático Arquimedes, há mais de 2 200 anos, entre elas o lendário Método dos Teoremas Mecânicos. Não se trata do manuscrito original do sábio grego, mas de cópia feita por um bizantino no século X. É, de qualquer forma, uma preciosidade. Apenas um em cada 100 textos da Antiguidade chegou intacto ao presente. É ainda mais relevante por se tratar de Arquimedes, um dos pais da ciência.

O sábio grego viveu na cidade de Siracusa 200 anos antes de Cristo e foi um teórico genial. Seu mérito foi colocar ênfase na aplicação prática das idéias, coisa pouco comum entre os grandes pensadores gregos. Arquimedes inventou máquinas para bombear água, armas para o exército de Siracusa, determinou pela primeira vez o pi, número ainda usado no cálculo da circunferência, e estabeleceu as fórmulas para chegar ao volume e à superfície da esfera. "Isso o tornava diferente dos filósofos gregos", diz o matemático Newton da Costa, professor da Universidade de São Paulo e da Universidade Paulista. "Ele tinha uma forma de pensar tipicamente moderna." Poucos cientistas incitaram tanto a imaginação das gerações futuras quanto esse sábio grego (veja quadro). Detalhes de sua vida fazem parte do anedotário popular, como o episódio da heureca. Ao perceber como seu corpo flutuava na água e as relações de forças implicadas no processo, ele teria saído às ruas de Siracusa, nu, gritando "heureca!" (Eu achei!). É famoso o modo como explicou o princípio da alavanca: "Dê-me um ponto de apoio que moverei a Terra".

Morto quando os romanos tomaram Siracusa, em 211 a.C. (a lenda diz que Arquimedes queimou os navios inimigos com o calor do sol refletido em espelhos), ele deixou um portentoso legado na física e na matemática que não encontrou sucessor à altura durante a Antiguidade. Só dez séculos mais tarde, baseados em traduções, os matemáticos árabes deram continuidade a seu trabalho. O livro que está sendo estudado pelos americanos foi descoberto em 1906 pelo dinamarquês Johan Heiberg numa biblioteca de Istambul. Heiberg publicou uma cópia incompleta do Método dos Teoremas Mecânicos, baseada numa leitura capenga feita com ajuda de lentes de aumento. O volume sumiu novamente na confusão da I Guerra e só voltou a reaparecer há dois anos num leilão da Christie's, em Nova York. Foi arrematado por 2 milhões de dólares e emprestado para pesquisas por seu novo dono, cujo nome é mantido em sigilo.

Com equipamentos de alta tecnologia, os pesquisadores já iniciaram o trabalho de decifrar o texto e diagramas geométricos do palimpsesto. "É um tesouro que nos permitirá saber de primeira mão a forma de raciocínio de Arquimedes e como nasceu a ciência moderna", diz o historiador Reviel Netz, da Universidade Stanford. O texto escondido sob as orações está sendo lido com o auxílio de raios infravermelho e ultravioleta. Não se pode estragar o trabalho feito pelos monges. Trata-se de um tratado sobre exorcismo e, ironicamente, ganhou valor histórico em decorrência de sua antiguidade. Os cientistas estão passando ambos os textos para a linguagem virtual, utilizando para isso um programa desenvolvido especialmente pela Xerox. Preservado no computador, o palimpsesto poderá ser lido e estudado por todos os interessados. A obra de Arquimedes terá finalmente sido resgatada.

 

Quando o cientista vira piada

A obra de Arquimedes é um marco da história da ciência. Mas a maioria das pessoas só sabe do sábio grego devido à lenda de que correu nu e gritando "heureca" pelas ruas de Siracusa. Não é o único gênio mais lembrado por extravagâncias (ou lendas) do que pela obra.

Para provar que a velocidade nada tem a ver com o peso, Galileu jogou pedras da Torre de Pisa Diz-se que Newton descobriu a lei da gravidade depois que uma maçã lhe caiu na cabeça Benjamin Franklin empinava pipas para estudar raios em meio a tempestades