Tintim, San Martín
Biografia de herói nacional causa
fuzuê na Argentina
Os brasileiros encaram com bom humor o fato de o responsável
pela independência do país, dom Pedro I, ter
sido um mulherengo incorrigível e um bêbado
dado a brigar em tavernas em suma, um precursor do malandro
carioca. O conceito que os argentinos têm do libertador
deles, o general José de San Martín, é
muito mais elevado. Ensinam os compêndios escolares
do país vizinho que San Martín largou uma
promissora carreira militar na Espanha para livrar a Argentina
dos grilhões espanhóis. Não apenas
realizou essa façanha como, munido de coragem e idealismo,
colaborou para libertar o Chile e o Peru. Após cumprir
sua missão, dizem os livros, o general exilou-se
na França, onde morreu pobre. Boa parte dessa trajetória
ilibada foi colocada em xeque pela biografia Don José,
de José Ignacio Garcia Hamilton. O livro, que vendeu
35.000 cópias em apenas
quinze dias, está causando um fuzuê na Argentina
por despir o personagem da aura de santidade. "Sempre duvidei
que qualquer homem pudesse ser tão virtuoso: bom
marido, bom pai, pacífico, quase um deus", diz Hamilton.
De acordo com o autor, San Martín incorria nos
mesmos pecadilhos de dom Pedro I. No Chile e no Peru, passou
em revista uma grande quantidade de nativas. Além
disso, gostava de tomar uns tragos antes de empunhar sua
espada. O livro afirma que o general lutou na famosa batalha
de Maipu turbinado por uma portentosa carraspana. Também
não teria morrido pobre em Boulogne-sur-Mer. Freqüentava
as altas-rodas da cidade e chegou a ficar amigo do escritor
francês Honoré de Balzac e do compositor italiano
Gioacchino Rossini. Mais: ele seria filho bastardo de um
nobre criollo, don Diego de Alvear, com uma índia.
"Ao longo do século XX, porém, em todos os
quadros que fizeram dele, San Martín foi embranquecendo",
entrega Hamilton. A idéia de um herói mestiço
caiu como uma bomba numa nação formada por
italianos que gostam de bancar os ingleses e, no entanto,
falam espanhol.
No lançamento da biografia, em uma feira de livros
na cidade de Rosário, o autor viu 200 pessoas abandonarem
uma palestra sua cantando hinos patrióticos. Hamilton
teve de deixar o evento sob escolta. Dezenas de cartas chegam
diariamente aos jornais enxovalhando a obra. Apesar de ser
uma biografia romanceada, gênero que provoca arrepios
nos estudiosos sérios, Don José é
bem documentado. E, a rigor, está longe de transformar
San Martín num crápula. A polêmica se
deve à devoção que os argentinos nutrem
por todos os seus heróis. Esse culto tem raízes
no final do século XIX, quando, depois de décadas
de caudilhismo, a Argentina foi presidida sucessivamente
por Bartolomé Mitre e Domingo Sarmiento. Mais intelectualizados
do que a média dos governantes latino-americanos,
eles promoveram a alfabetização de 70% da
população do país e estimularam a construção
de uma história oficial que visava reforçar
o sentimento nacional. "Com base nos heróis da guerra
da independência, foi criado um Olimpo argentino.
Houve uma espécie de canonização laica
dessas personalidades", teoriza o sociólogo portenho
Horacio González. Nesse contexto, ao escrever Don
José, Hamilton teria cometido algo parecido com
um sacrilégio.
Raul Juste Lores, de Buenos
Aires