Edição 1 659 - 26/7/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Criado na França, o espiritismo só deu certo no Brasil
Ernest Hemingway foi espião americano em Cuba
O libertador San Martín era boêmio e mulherengo
Tecnologia recupera obras de Arquimedes
As jóias ousadas de Alexandre Herchcovitch
Avanços tecnológicos chegam mais rápido ao país
Outro vazamento de óleo da Petrobras
Os crimes da máfia chinesa
A tolerância da sociedade nunca foi tão grande

Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


Tintim, San Martín

Biografia de herói nacional causa fuzuê na Argentina

Os brasileiros encaram com bom humor o fato de o responsável pela independência do país, dom Pedro I, ter sido um mulherengo incorrigível e um bêbado dado a brigar em tavernas – em suma, um precursor do malandro carioca. O conceito que os argentinos têm do libertador deles, o general José de San Martín, é muito mais elevado. Ensinam os compêndios escolares do país vizinho que San Martín largou uma promissora carreira militar na Espanha para livrar a Argentina dos grilhões espanhóis. Não apenas realizou essa façanha como, munido de coragem e idealismo, colaborou para libertar o Chile e o Peru. Após cumprir sua missão, dizem os livros, o general exilou-se na França, onde morreu pobre. Boa parte dessa trajetória ilibada foi colocada em xeque pela biografia Don José, de José Ignacio Garcia Hamilton. O livro, que vendeu 35.000 cópias em apenas quinze dias, está causando um fuzuê na Argentina por despir o personagem da aura de santidade. "Sempre duvidei que qualquer homem pudesse ser tão virtuoso: bom marido, bom pai, pacífico, quase um deus", diz Hamilton.

De acordo com o autor, San Martín incorria nos mesmos pecadilhos de dom Pedro I. No Chile e no Peru, passou em revista uma grande quantidade de nativas. Além disso, gostava de tomar uns tragos antes de empunhar sua espada. O livro afirma que o general lutou na famosa batalha de Maipu turbinado por uma portentosa carraspana. Também não teria morrido pobre em Boulogne-sur-Mer. Freqüentava as altas-rodas da cidade e chegou a ficar amigo do escritor francês Honoré de Balzac e do compositor italiano Gioacchino Rossini. Mais: ele seria filho bastardo de um nobre criollo, don Diego de Alvear, com uma índia. "Ao longo do século XX, porém, em todos os quadros que fizeram dele, San Martín foi embranquecendo", entrega Hamilton. A idéia de um herói mestiço caiu como uma bomba numa nação formada por italianos que gostam de bancar os ingleses e, no entanto, falam espanhol.

No lançamento da biografia, em uma feira de livros na cidade de Rosário, o autor viu 200 pessoas abandonarem uma palestra sua cantando hinos patrióticos. Hamilton teve de deixar o evento sob escolta. Dezenas de cartas chegam diariamente aos jornais enxovalhando a obra. Apesar de ser uma biografia romanceada, gênero que provoca arrepios nos estudiosos sérios, Don José é bem documentado. E, a rigor, está longe de transformar San Martín num crápula. A polêmica se deve à devoção que os argentinos nutrem por todos os seus heróis. Esse culto tem raízes no final do século XIX, quando, depois de décadas de caudilhismo, a Argentina foi presidida sucessivamente por Bartolomé Mitre e Domingo Sarmiento. Mais intelectualizados do que a média dos governantes latino-americanos, eles promoveram a alfabetização de 70% da população do país e estimularam a construção de uma história oficial que visava reforçar o sentimento nacional. "Com base nos heróis da guerra da independência, foi criado um Olimpo argentino. Houve uma espécie de canonização laica dessas personalidades", teoriza o sociólogo portenho Horacio González. Nesse contexto, ao escrever Don José, Hamilton teria cometido algo parecido com um sacrilégio.

 

Raul Juste Lores, de Buenos Aires