Edição 1 659 - 26/7/2000

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Agente 08, câmbio

Está nos arquivos do FBI: Ernest Hemingway
bancou mesmo o espião americano em Cuba

Brilhante como escritor, na vida pessoal o americano Ernest Hemingway (1899-1961) não era flor que se cheirasse. Ele tinha um lado cativante, com seu amor pela aventura, sua coragem e virilidade, mas quase todos os seus relacionamentos foram marcados por mesquinharias e rancores. Sua mãe não foi poupada de seu mau humor: era lembrada como uma "velha imbecil". Também é possível citar os retratos maldosos contidos no livro Paris É uma Festa, em que Hemingway massacra impiedosamente pessoas que o haviam ajudado e até lhe dedicado amizade. Como notou certa vez o romancista Anthony Burgess, "a lealdade de Ernest era difícil de se conquistar e podia desaparecer com enorme facilidade". Uma prova contundente disso acaba de ser revelada. O jornal The Sunday Times localizou documentos que comprovam definitivamente o envolvimento do autor de O Velho e o Mar com espionagem. Em troca de uma bagatela – 500 dólares por mês –, ele transmitia informações ao governo americano sobre pessoas que freqüentavam sua casa em Cuba, no começo da década de 40.

No final da vida, o próprio escritor contava histórias truncadas a respeito de seu círculo de informantes na ilha, batizado de Fábrica de Escroques. Tudo indica que uma "causa nobre" o motivou a princípio. Em 1941, com a II Guerra Mundial em andamento, pareceu-lhe importante monitorar os possíveis simpatizantes do fascismo em Cuba, país onde mantinha residência havia alguns anos. Hemingway expôs a idéia ao embaixador americano no país, Spruille Braden, que concordou em apoiá-lo. O escritor, então, reuniu um grupo de alcagüetes e passou a coordená-lo. Para o governo dos Estados Unidos, ele era o "agente 08". Washington ainda providenciou fundos para que ele reformasse seu iate, o Pilar, e navegasse pelos mares caribenhos à procura de submarinos alemães.

Fofocas – A primeira vez em que um lote de documentos veio à luz, com informações sobre as atividades de Hemingway como agente secreto, foi em 1983. O biógrafo Jeffrey Meyers desentranhou dos arquivos do FBI um dossiê detalhado a respeito do escritor, mostrando que o poderoso órgão de inteligência, comandado na época por Edgar Hoover, tinha conhecimento das iniciativas de Hemingway – e as desaprovava, por considerá-lo simpatizante do comunismo. O dossiê obtido por Meyers, porém, não estava completo. A papelada trazida à luz pelo Sunday Times também pertence ao FBI. São relatórios assinados pelo agente Robert Leddy, com detalhes sobre o funcionamento da rede de espiões de Hemingway: "Em 30 de setembro de 1942 fui informado de que ele agora tem quatro homens operando em tempo integral e catorze colaboradores, entre eles barmen, garçons e outros. O custo é de 500 dólares por mês". Leddy também diz que tentaria coibir as ações da Fábrica de Escroques, por temer que o grupo inadvertidamente prejudicasse contatos que o FBI tinha com autoridades cubanas da época – muitas delas bastante corruptas.

Os relatórios de Leddy mostram que a principal motivação da agência era impedir que Hemingway pusesse em perigo a influência exercida pelos Estados Unidos sobre Cuba antes da revolução de Fidel Castro. Mas os documentos também não prestam nenhum favor à reputação de Hemingway. O "agente 08" nunca esteve à altura das proezas realizadas por um 007. Assim como o barco Pilar jamais localizou um submarino alemão, tendo servido sobretudo para pescarias, a Fábrica de Escroques produziu apenas fofocas irrelevantes sobre pessoas que confiavam no escritor. Num livro chamado Hemingway em Cuba, o jornalista Norberto Fuentes registra um diálogo entre o médico Herrera Sotolongo e Hemingway, no qual este convidava o amigo para fazer parte de seu bando de dedos-duros. "Eu não banco o policial", respondeu Sotolongo. "Nunca suportei a polícia nem a espionagem." Teria sido melhor se o escritor pensasse o mesmo.