Agente 08, câmbio
Está nos arquivos do FBI: Ernest
Hemingway
bancou mesmo o espião americano em Cuba
Brilhante como escritor, na vida pessoal o americano Ernest
Hemingway (1899-1961) não era flor que se cheirasse.
Ele tinha um lado cativante, com seu amor pela aventura,
sua coragem e virilidade, mas quase todos os seus relacionamentos
foram marcados por mesquinharias e rancores. Sua mãe
não foi poupada de seu mau humor: era lembrada como
uma "velha imbecil". Também é possível
citar os retratos maldosos contidos no livro Paris É
uma Festa, em que Hemingway massacra impiedosamente
pessoas que o haviam ajudado e até lhe dedicado amizade.
Como notou certa vez o romancista Anthony Burgess, "a lealdade
de Ernest era difícil de se conquistar e podia desaparecer
com enorme facilidade". Uma prova contundente disso acaba
de ser revelada. O jornal The Sunday Times localizou
documentos que comprovam definitivamente o envolvimento
do autor de O Velho e o Mar com espionagem. Em troca
de uma bagatela 500 dólares por mês ,
ele transmitia informações ao governo americano
sobre pessoas que freqüentavam sua casa em Cuba, no
começo da década de 40.
No final da vida, o próprio escritor contava histórias
truncadas a respeito de seu círculo de informantes
na ilha, batizado de Fábrica de Escroques. Tudo indica
que uma "causa nobre" o motivou a princípio. Em 1941,
com a II Guerra Mundial em andamento, pareceu-lhe importante
monitorar os possíveis simpatizantes do fascismo
em Cuba, país onde mantinha residência havia
alguns anos. Hemingway expôs a idéia ao embaixador
americano no país, Spruille Braden, que concordou
em apoiá-lo. O escritor, então, reuniu um
grupo de alcagüetes e passou a coordená-lo.
Para o governo dos Estados Unidos, ele era o "agente 08".
Washington ainda providenciou fundos para que ele reformasse
seu iate, o Pilar, e navegasse pelos mares caribenhos
à procura de submarinos alemães.
Fofocas A primeira vez em que um lote de
documentos veio à luz, com informações
sobre as atividades de Hemingway como agente secreto, foi
em 1983. O biógrafo Jeffrey Meyers desentranhou dos
arquivos do FBI um dossiê detalhado a respeito do
escritor, mostrando que o poderoso órgão de
inteligência, comandado na época por Edgar
Hoover, tinha conhecimento das iniciativas de Hemingway
e as desaprovava, por considerá-lo simpatizante
do comunismo. O dossiê obtido por Meyers, porém,
não estava completo. A papelada trazida à
luz pelo Sunday Times também pertence ao FBI.
São relatórios assinados pelo agente Robert
Leddy, com detalhes sobre o funcionamento da rede de espiões
de Hemingway: "Em 30 de setembro de 1942 fui informado de
que ele agora tem quatro homens operando em tempo integral
e catorze colaboradores, entre eles barmen, garçons
e outros. O custo é de 500 dólares por mês".
Leddy também diz que tentaria coibir as ações
da Fábrica de Escroques, por temer que o grupo inadvertidamente
prejudicasse contatos que o FBI tinha com autoridades cubanas
da época muitas delas bastante corruptas.
Os relatórios de Leddy mostram que a principal
motivação da agência era impedir que
Hemingway pusesse em perigo a influência exercida
pelos Estados Unidos sobre Cuba antes da revolução
de Fidel Castro. Mas os documentos também não
prestam nenhum favor à reputação de
Hemingway. O "agente 08" nunca esteve à altura das
proezas realizadas por um 007. Assim como o barco Pilar
jamais localizou um submarino alemão, tendo servido
sobretudo para pescarias, a Fábrica de Escroques
produziu apenas fofocas irrelevantes sobre pessoas que confiavam
no escritor. Num livro chamado Hemingway em Cuba,
o jornalista Norberto Fuentes registra um diálogo
entre o médico Herrera Sotolongo e Hemingway, no
qual este convidava o amigo para fazer parte de seu bando
de dedos-duros. "Eu não banco o policial", respondeu
Sotolongo. "Nunca suportei a polícia nem a espionagem."
Teria sido melhor se o escritor pensasse o mesmo.