Edição 1 659 - 26/7/2000

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A última do Taliban

O regime da repressão total em nome de Deus,
no Afeganistão, chega ao cúmulo de raspar a
cabeça de jogadores pelo pecado
de jogar futebol de calção



AP
Time de futebol castigado: cabeças raspadas por mostrar as pernas


A principal utilidade dos estádios no Afeganistão é serem usados como local de execução de sentenças. É neles que o Taliban, a milícia islâmica que impôs um regime medieval ao país, chicoteia as mulheres que falam com homens estranhos, corta a mão dos ladrões e apedreja até a morte o casal de adúlteros. Nem quando serve de palco para jogos de futebol o estádio está livre dos horrores do fanatismo religioso. Que o digam os jogadores de uma equipe da cidade paquistanesa de Chaman, convidada na semana passada para um amistoso em Kandahar, a segunda maior cidade do Afeganistão e quartel-general da milícia. Na metade do jogo apareceu a polícia religiosa, armada de metralhadoras, que prendeu doze dos dezessete visitantes. Cinco jogadores conseguiram escapar e se refugiaram no consulado de seu país. Os demais tiveram a cabeça raspada como punição por usar calções – desses shorts comuns, até os joelhos, uniforme universal das equipes de futebol, mas considerados indecentes pelos padrões morais do Taliban. No mundo absurdo criado pelo fanatismo afegão, os homens só podem vestir-se segundo o figurino estabelecido pelos religiosos: camisolão com calças folgadas por baixo. É ruim? Pior é para as mulheres, que vivem cobertas da cabeça ao dedão do pé por um manto disforme, o burqa, que não deixa à mostra nem mesmo os olhos.

Depois de horas de medo e incerteza, os doze jogadores foram libertados no dia seguinte, com a intervenção do ministro dos Esportes, que achou a atitude excessiva, visto que os paquistaneses eram convidados. Apesar das desculpas do ministro, o incidente no estádio de futebol é sintomático de uma situação inusitada: a de um país cujo objetivo é viver segundo uma interpretação tão estrita da lei islâmica que horroriza até mesmo os aiatolás do vizinho Irã. Desde 1998, quando consolidou seu domínio sobre 90% do território do Afeganistão (uma milícia rival, menos furiosa do ponto de vista religioso, controla a porção restante), o Taliban mergulhou o país nas trevas do obscurantismo mais atroz. Em nome da fiel observância da sharia, a lei islâmica, tenta-se eliminar os sinais de vida moderna. Música, cinema, televisão, revistas, jogos de carta são proibidos como futilidades que afastam o fiel do caminho de Alá. Imagens de homens ou animais são igualmente proibidas. Fotografia, nem pensar: não é permitido fotografar nem guardar fotos de outras pessoas, mesmo de parentes próximos. Por quê? Porque só se pode adorar a Deus, e a foto é uma espécie de idolatria do fotografado. Assim como têm de usar calça comprida para jogar futebol, os atletas afegãos não podem lutar boxe, porque estão proibidos de fazer a barba. Homem de cara raspada pode pegar até dez dias de prisão, tempo suficiente para sair da cadeia devidamente barbado.

O regime é especialmente severo com as mulheres. Só as mãos ficam à mostra, mas unhas pintadas, dependendo do humor da polícia da moralidade, podem custar as próprias unhas. Braços ou rosto à vista em local público autorizam qualquer cavalheiro a castigá-las com umas bordoadas. Ao atingir a puberdade, não mais podem conversar ou simplesmente permanecer na presença de homem que não seja da família. Só saem à rua com autorização do marido ou do pai. Foram proibidas de estudar e de exercer qualquer profissão, exceto as de médica e enfermeira. O resultado é que a maioria das mulheres vive hoje da mendicância. É natural que seja assim, pois, após de duas décadas de guerra civil, é enorme a quantidade de viúvas e órfãs que agora não podem ganhar honestamente o pão. Um repórter americano que conhece muito bem o país e lá esteve recentemente ficou chocado com a quantidade de crianças e mulheres mendigando por toda parte. Os agentes do Ministério para a Propagação da Virtude e da Prevenção do Vício estão atentos ao menor deslize. Uma mulher surpreendida levantando o véu (elas fazem isso por razões práticas, como contar dinheiro, pois a visão é prejudicada pelo burqa) é açoitada. A surra deixa-a de cama por semanas e pode até causar a morte.

Como a população consegue suportar tudo isso sem se revoltar? O Afeganistão sempre foi um país instável, dividido por rixas tribais e diferenças étnicas. Nos anos 70, um grupo de esquerdistas assumiu o poder e resolveu impor o comunismo às tribos. Para proteger esses alucinados, a União Soviética invadiu o país em 1979. Foi o início de uma guerra sangrenta, em que os Estados Unidos armaram a resistência afegã, que combatia em nome do islã. Desmoralizados, os russos retiraram-se em 1989 e as facções ficaram livres para lutar umas contra as outras. A novidade surgiu em 1994 – os talibans, originalmente estudantes religiosos. Eles ganharam prestígio combatendo a criminalidade e desarmando a população. A favor deles é sempre lembrado que nunca tiveram por hábito estuprar as mulheres, como faziam outras milícias e a soldadesca russa. A população tem para com eles a gratidão pelo fim da guerra e do banditismo desenfreado das milícias rivais. A maioria jamais havia vivido em período de paz e segurança como agora. Os costumes medievais, bem, são parecidos com os praticados há séculos nas aldeias afegãs.

O preço a pagar é alto. Em nome de Alá, os talibans fazem o que querem, sem se preocupar com leis, advogados ou juízes. Como toda diversão está proibida, o lazer é assistir a execuções públicas. A pena para quem rouba, ainda que seja um prato de comida, é a amputação da mão direita. O reincidente perde a perna esquerda. Consumir bebida alcoólica em qualquer quantidade vale algumas chicotadas. Adultério é punido com a morte por apedrejamento. O casal é amarrado numa cama, o juiz joga a primeira pedra e o povo depois continua. O espetáculo costuma prolongar-se por duas horas de sofrimentos atrozes e não faltam espectadores nem pedras. O Afeganistão nunca foi rico e a guerra terminou por arruiná-lo. Sanções internacionais ajudam a piorar a situação. A população vive do contrabando, da esmola e da agricultura rudimentar. O Taliban socorre-se no narcotráfico, apesar de o consumo de drogas ser proibido pela lei islâmica. Relatório da Organização das Nações Unidas mostra que a fabricação de ópio no país já supera a soma de todo o restante da produção mundial. Foram 4.600 toneladas de ópio produzidas em 1999, contra 2.600 em 1998. O sistema bancário, controlado pela milícia, financia os plantadores de papoula, a matéria-prima do ópio e da heroína. O Taliban cobra pedágio de 20% de todo carregamento de drogas que deixa o país. Cada vez mais a cobrança de retidão e de rigor só se aplica à população que ousa transgredir alguma das inúmeras regras de comportamento.

 
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