A última do Taliban
O regime da repressão total em nome
de Deus,
no Afeganistão, chega ao cúmulo de raspar
a
cabeça de jogadores pelo pecado
de jogar futebol de calção
AP
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| Time de futebol castigado: cabeças
raspadas por mostrar as pernas |
A principal utilidade dos estádios no Afeganistão
é serem usados como local de execução
de sentenças. É neles que o Taliban, a milícia
islâmica que impôs um regime medieval ao país,
chicoteia as mulheres que falam com homens estranhos, corta
a mão dos ladrões e apedreja até a
morte o casal de adúlteros. Nem quando serve de palco
para jogos de futebol o estádio está livre
dos horrores do fanatismo religioso. Que o digam os jogadores
de uma equipe da cidade paquistanesa de Chaman, convidada
na semana passada para um amistoso em Kandahar, a segunda
maior cidade do Afeganistão e quartel-general da
milícia. Na metade do jogo apareceu a polícia
religiosa, armada de metralhadoras, que prendeu doze dos
dezessete visitantes. Cinco jogadores conseguiram escapar
e se refugiaram no consulado de seu país. Os demais
tiveram a cabeça raspada como punição
por usar calções desses shorts comuns,
até os joelhos, uniforme universal das equipes de
futebol, mas considerados indecentes pelos padrões
morais do Taliban. No mundo absurdo criado pelo fanatismo
afegão, os homens só podem vestir-se segundo
o figurino estabelecido pelos religiosos: camisolão
com calças folgadas por baixo. É ruim? Pior
é para as mulheres, que vivem cobertas da cabeça
ao dedão do pé por um manto disforme, o burqa,
que não deixa à mostra nem mesmo os olhos.
Depois
de horas de medo e incerteza, os doze jogadores foram libertados
no dia seguinte, com a intervenção do ministro
dos Esportes, que achou a atitude excessiva, visto que os
paquistaneses eram convidados. Apesar das desculpas do ministro,
o incidente no estádio de futebol é sintomático
de uma situação inusitada: a de um país
cujo objetivo é viver segundo uma interpretação
tão estrita da lei islâmica que horroriza até
mesmo os aiatolás do vizinho Irã. Desde 1998,
quando consolidou seu domínio sobre 90% do território
do Afeganistão (uma milícia rival, menos furiosa
do ponto de vista religioso, controla a porção
restante), o Taliban mergulhou o país nas trevas
do obscurantismo mais atroz. Em nome da fiel observância
da sharia, a lei islâmica, tenta-se eliminar os sinais
de vida moderna. Música, cinema, televisão,
revistas, jogos de carta são proibidos como futilidades
que afastam o fiel do caminho de Alá. Imagens de
homens ou animais são igualmente proibidas. Fotografia,
nem pensar: não é permitido fotografar nem
guardar fotos de outras pessoas, mesmo de parentes próximos.
Por quê? Porque só se pode adorar a Deus, e
a foto é uma espécie de idolatria do fotografado.
Assim como têm de usar calça comprida para
jogar futebol, os atletas afegãos não podem
lutar boxe, porque estão proibidos de fazer a barba.
Homem de cara raspada pode pegar até dez dias de
prisão, tempo suficiente para sair da cadeia devidamente
barbado.
O regime é especialmente severo com as mulheres.
Só as mãos ficam à mostra, mas unhas
pintadas, dependendo do humor da polícia da moralidade,
podem custar as próprias unhas. Braços ou
rosto à vista em local público autorizam qualquer
cavalheiro a castigá-las com umas bordoadas. Ao atingir
a puberdade, não mais podem conversar ou simplesmente
permanecer na presença de homem que não seja
da família. Só saem à rua com autorização
do marido ou do pai. Foram proibidas de estudar e de exercer
qualquer profissão, exceto as de médica e
enfermeira. O resultado é que a maioria das mulheres
vive hoje da mendicância. É natural que seja
assim, pois, após de duas décadas de guerra
civil, é enorme a quantidade de viúvas e órfãs
que agora não podem ganhar honestamente o pão.
Um repórter americano que conhece muito bem o país
e lá esteve recentemente ficou chocado com a quantidade
de crianças e mulheres mendigando por toda parte.
Os agentes do Ministério para a Propagação
da Virtude e da Prevenção do Vício
estão atentos ao menor deslize. Uma mulher surpreendida
levantando o véu (elas fazem isso por razões
práticas, como contar dinheiro, pois a visão
é prejudicada pelo burqa) é açoitada.
A surra deixa-a de cama por semanas e pode até causar
a morte.
Como a população consegue suportar tudo
isso sem se revoltar? O Afeganistão sempre foi um
país instável, dividido por rixas tribais
e diferenças étnicas. Nos anos 70, um grupo
de esquerdistas assumiu o poder e resolveu impor o comunismo
às tribos. Para proteger esses alucinados, a União
Soviética invadiu o país em 1979. Foi o início
de uma guerra sangrenta, em que os Estados Unidos armaram
a resistência afegã, que combatia em nome do
islã. Desmoralizados, os russos retiraram-se em 1989
e as facções ficaram livres para lutar umas
contra as outras. A novidade surgiu em 1994 os talibans,
originalmente estudantes religiosos. Eles ganharam prestígio
combatendo a criminalidade e desarmando a população.
A favor deles é sempre lembrado que nunca tiveram
por hábito estuprar as mulheres, como faziam outras
milícias e a soldadesca russa. A população
tem para com eles a gratidão pelo fim da guerra e
do banditismo desenfreado das milícias rivais. A
maioria jamais havia vivido em período de paz e segurança
como agora. Os costumes medievais, bem, são parecidos
com os praticados há séculos nas aldeias afegãs.
O preço a pagar é alto. Em nome de Alá,
os talibans fazem o que querem, sem se preocupar com leis,
advogados ou juízes. Como toda diversão está
proibida, o lazer é assistir a execuções
públicas. A pena para quem rouba, ainda que seja
um prato de comida, é a amputação da
mão direita. O reincidente perde a perna esquerda.
Consumir bebida alcoólica em qualquer quantidade
vale algumas chicotadas. Adultério é punido
com a morte por apedrejamento. O casal é amarrado
numa cama, o juiz joga a primeira pedra e o povo depois
continua. O espetáculo costuma prolongar-se por duas
horas de sofrimentos atrozes e não faltam espectadores
nem pedras. O Afeganistão nunca foi rico e a guerra
terminou por arruiná-lo. Sanções internacionais
ajudam a piorar a situação. A população
vive do contrabando, da esmola e da agricultura rudimentar.
O Taliban socorre-se no narcotráfico, apesar de o
consumo de drogas ser proibido pela lei islâmica.
Relatório da Organização das Nações
Unidas mostra que a fabricação de ópio
no país já supera a soma de todo o restante
da produção mundial. Foram 4.600
toneladas de ópio produzidas em 1999, contra 2.600
em 1998. O sistema bancário, controlado pela milícia,
financia os plantadores de papoula, a matéria-prima
do ópio e da heroína. O Taliban cobra pedágio
de 20% de todo carregamento de drogas que deixa o país.
Cada vez mais a cobrança de retidão e de rigor
só se aplica à população que
ousa transgredir alguma das inúmeras regras de comportamento.
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