Em busca de gente nova
A Europa precisa de imigrantes para continuar
próspera, mas detesta ver antes tantos estrangeiros
em suas ruas
Ricardo Amorim
O que os plantadores de morango da Inglaterra e as indústrias
de alta tecnologia na Alemanha têm em comum? Resposta: escassez
de mão-de-obra. Na semana passada, cada um deles tomou providências
similares para resolver o assunto. Com as frutinhas apodrecendo
no campo por falta de braços para efetuar a colheita, os
agricultores ingleses pediram em manifesto a ampliação da
cota anual de estrangeiros com autorização para realizar
trabalho agrícola sazonal no país, atualmente limitada a
10.000. O governo e as empresas alemãs, por sua vez, iniciaram
o processo para contratar 20.000 especialistas, sobretudo
indianos e leste-europeus. Com a economia crescendo acima
de 3% ao ano, os países da União Européia estão precisando
mais que nunca da ajuda de trabalhadores estrangeiros. No
próximo fim de semana, os ministros do Interior e da Justiça
das quinze nações vão se reunir em Marselha para debater
uma estratégia comum para uma questão espinhosa: como fazer
para suprir a demanda de mão-de-obra da Europa rica
sem, ao mesmo tempo, escancarar as portas à horda de miseráveis
de todo o mundo.
Um novo padrão de trabalho importado tomou forma nos países
ricos nos últimos anos. É a imigração temporária. Estima-se
que 200.000 poloneses cruzem a fronteira com a Alemanha
todos os anos para uma estada de apenas três meses, ajudando
no trabalho agrícola. A Inglaterra recebe jovens letões,
lituanos, ucranianos, poloneses, checos e bielo-russos para
fazer o serviço agrícola que os ingleses não querem, pois
preferem trabalhar em lojas ou bares. Uma multidão de 70.000
moradores de onze cidadezinhas do norte da Romênia sobrevive
basicamente do ganho obtido na temporada de colheita nas
fazendas da França. Cada um leva para casa cerca de 5.000
dólares, uma fortuna na empobrecida terra natal. Marroquinos
catam tomates e pimentões na Espanha. Indianos ajudam nos
pomares da Bélgica e os russos estão nos campos de batata
da Irlanda. Não é apenas o trabalho agrícola que necessita
de estrangeiros. São eles também que limpam as casas, cuidam
das crianças, constroem os edifícios e entregam as pizzas
dos europeus.
Boa parte dessa gente cruza as fronteiras sem maiores formalidades
- ou seja, são tecnicamente trabalhadores ilegais. A tendência
é que essa migração continue crescendo, apesar do temor
de muitos europeus de que a identidade nacional venha a
ser dissolvida numa nova composição étnica e cultural. A
Europa como um todo, em especial os países da União Européia,
passa por uma mudança dramática na composição de sua população.
O número de habitantes não apenas estagnou como está envelhecendo
rapidamente. Um estudo recente das Nações Unidas estimou
que só a Alemanha deve importar cerca de 500.000 migrantes
por ano se quiser manter estável sua população economicamente
ativa até 2050. Nesse período, a União Européia como um
todo precisa acolher 700 milhões de pessoas - uma migração
de tamanho sem precedente na História da humanidade. A previsão
não leva em conta mudanças na economia e na necessidade
de mão-de-obra, mas é um indicativo da extensão da
encrenca. A economia cresce, a mão-de-obra fica escassa
e ainda são necessários braços para ajudar a sustentar um
número cada vez maior de aposentados.
Os políticos e empresários europeus estão começando a aceitar
a imigração como um fato da vida. Ou melhor, como o único
recurso para manter um modo e um padrão de vida excelente.
A exemplo da Alemanha, a Irlanda está estudando a importação
de 200 000 trabalhadores especializados no período de sete
anos. Na semana passada, o ministro do Interior da França,
Jean-Pierre Chevènement, propôs que a União Européia adote
uma autorização única de trabalho válida por dez anos e
conceda a cidadania aos filhos de estrangeiros nascidos
por lá.
Historicamente,
a Europa é um exportador de gente. Até a II Guerra, mais
de 50 milhões de europeus foram fazer a América. A situação
se alterou sensivelmente com o crescimento econômico nas
últimas quatro décadas. A Inglaterra estabeleceu um fluxo
permanente vindo de suas ex-colônias, como a Índia, a África
do Sul e o Caribe. A Alemanha convocou os turcos (hoje vivem
2 milhões no país). A França importou trabalhadores da Argélia,
da Tunísia e do Marrocos (a colônia norte-africana chega
a 1,5 milhão). A política migratória nesses países mudou
radicalmente a partir dos anos 70. Hoje eles só querem trabalhadores
temporários ou bem qualificados. O problema é como estancar
os fluxos migratórios num planeta em que a riqueza se concentra
em poucos lugares.
Há milhões de pessoas no Terceiro Mundo tentando chegar
ao Primeiro, em busca da oportunidade de uma vida melhor.
A encrenca é que os que estão querendo ir nem sempre são
aqueles que a Europa está querendo receber. Para o trabalhador
desqualificado, a porta está praticamente fechada. No mês
passado, a morte por asfixia de 58 chineses na caçamba de
um caminhão, quando tentavam entrar clandestinamente na
Inglaterra, mostrou a face perversa dessa realidade. Por
ano, entre legais e ilegais, 1,2 milhão de imigrantes entram
na Europa. A novidade é o farto contingente de mão-de-obra
barata e bem qualificada colocada à disposição depois da
queda do Muro de Berlim, em 1989. Até agora, o fato não
causou um êxodo em massa para os países ricos. Mas isso
ainda pode ocorrer. A renda per capita da Alemanha é seis
vezes maior que a da vizinha Polônia, cuja fronteira está
a apenas 100 quilômetros de Berlim. Alguns países do Leste
são candidatos a entrar na União Européia. Quando isso ocorrer,
seus cidadãos poderão trabalhar livremente onde quiserem.
Nem todos os europeus vêem a chegada de tantos estrangeiros
sob o ângulo mais favorável. O sentimento anti-imigrante
está em alta no continente. É alimentado, em parte, por
políticos populistas, como o austríaco Joerg Haider, cujo
partido faz agora parte do governo em Viena. O número de
agressões a estrangeiros cresce em lugares inesperados,
como Espanha e Portugal. Há quem ainda esteja chocado com
a horda de miseráveis que se aproveitaram da facilidade
de obter asilo político na Europa Ocidental. O cidadão comum
teme que o recém-chegado roube o emprego de seu filho ou
sobrecarregue o sistema de saúde. Há outras formas de aferir
o impacto social da imigração. George Borjas, economista
da Universidade Harvard, calculou que a simples presença
de imigrantes nos Estados Unidos representa um lucro de
8 bilhões de dólares por ano. Isso ocorre basicamente porque
os estrangeiros tendem a aceitar salários menores, diminuindo
o custo de produção. Com isso, os consumidores lucram com
a oferta de produtos e serviços a preços mais baixos. "As
pessoas reclamam dos imigrantes, mas se beneficiam com os
serviços prestados por eles", diz o professor John Salt,
do University College London.
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