Edição 1 659 - 26/7/2000

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Em busca de gente nova

A Europa precisa de imigrantes para continuar próspera, mas detesta ver antes tantos estrangeiros em suas ruas

Ricardo Amorim

O que os plantadores de morango da Inglaterra e as indústrias de alta tecnologia na Alemanha têm em comum? Resposta: escassez de mão-de-obra. Na semana passada, cada um deles tomou providências similares para resolver o assunto. Com as frutinhas apodrecendo no campo por falta de braços para efetuar a colheita, os agricultores ingleses pediram em manifesto a ampliação da cota anual de estrangeiros com autorização para realizar trabalho agrícola sazonal no país, atualmente limitada a 10.000. O governo e as empresas alemãs, por sua vez, iniciaram o processo para contratar 20.000 especialistas, sobretudo indianos e leste-europeus. Com a economia crescendo acima de 3% ao ano, os países da União Européia estão precisando mais que nunca da ajuda de trabalhadores estrangeiros. No próximo fim de semana, os ministros do Interior e da Justiça das quinze nações vão se reunir em Marselha para debater uma estratégia comum para uma questão espinhosa: como fazer para suprir a demanda de mão-de-obra da Europa rica sem, ao mesmo tempo, escancarar as portas à horda de miseráveis de todo o mundo.

Um novo padrão de trabalho importado tomou forma nos países ricos nos últimos anos. É a imigração temporária. Estima-se que 200.000 poloneses cruzem a fronteira com a Alemanha todos os anos para uma estada de apenas três meses, ajudando no trabalho agrícola. A Inglaterra recebe jovens letões, lituanos, ucranianos, poloneses, checos e bielo-russos para fazer o serviço agrícola que os ingleses não querem, pois preferem trabalhar em lojas ou bares. Uma multidão de 70.000 moradores de onze cidadezinhas do norte da Romênia sobrevive basicamente do ganho obtido na temporada de colheita nas fazendas da França. Cada um leva para casa cerca de 5.000 dólares, uma fortuna na empobrecida terra natal. Marroquinos catam tomates e pimentões na Espanha. Indianos ajudam nos pomares da Bélgica e os russos estão nos campos de batata da Irlanda. Não é apenas o trabalho agrícola que necessita de estrangeiros. São eles também que limpam as casas, cuidam das crianças, constroem os edifícios e entregam as pizzas dos europeus.

Boa parte dessa gente cruza as fronteiras sem maiores formalidades - ou seja, são tecnicamente trabalhadores ilegais. A tendência é que essa migração continue crescendo, apesar do temor de muitos europeus de que a identidade nacional venha a ser dissolvida numa nova composição étnica e cultural. A Europa como um todo, em especial os países da União Européia, passa por uma mudança dramática na composição de sua população. O número de habitantes não apenas estagnou como está envelhecendo rapidamente. Um estudo recente das Nações Unidas estimou que só a Alemanha deve importar cerca de 500.000 migrantes por ano se quiser manter estável sua população economicamente ativa até 2050. Nesse período, a União Européia como um todo precisa acolher 700 milhões de pessoas - uma migração de tamanho sem precedente na História da humanidade. A previsão não leva em conta mudanças na economia e na necessidade de mão-de-obra, mas é um indicativo da extensão da encrenca. A economia cresce, a mão-de-obra fica escassa e ainda são necessários braços para ajudar a sustentar um número cada vez maior de aposentados.

Os políticos e empresários europeus estão começando a aceitar a imigração como um fato da vida. Ou melhor, como o único recurso para manter um modo e um padrão de vida excelente. A exemplo da Alemanha, a Irlanda está estudando a importação de 200 000 trabalhadores especializados no período de sete anos. Na semana passada, o ministro do Interior da França, Jean-Pierre Chevènement, propôs que a União Européia adote uma autorização única de trabalho válida por dez anos e conceda a cidadania aos filhos de estrangeiros nascidos por lá. Historicamente, a Europa é um exportador de gente. Até a II Guerra, mais de 50 milhões de europeus foram fazer a América. A situação se alterou sensivelmente com o crescimento econômico nas últimas quatro décadas. A Inglaterra estabeleceu um fluxo permanente vindo de suas ex-colônias, como a Índia, a África do Sul e o Caribe. A Alemanha convocou os turcos (hoje vivem 2 milhões no país). A França importou trabalhadores da Argélia, da Tunísia e do Marrocos (a colônia norte-africana chega a 1,5 milhão). A política migratória nesses países mudou radicalmente a partir dos anos 70. Hoje eles só querem trabalhadores temporários ou bem qualificados. O problema é como estancar os fluxos migratórios num planeta em que a riqueza se concentra em poucos lugares.

Há milhões de pessoas no Terceiro Mundo tentando chegar ao Primeiro, em busca da oportunidade de uma vida melhor. A encrenca é que os que estão querendo ir nem sempre são aqueles que a Europa está querendo receber. Para o trabalhador desqualificado, a porta está praticamente fechada. No mês passado, a morte por asfixia de 58 chineses na caçamba de um caminhão, quando tentavam entrar clandestinamente na Inglaterra, mostrou a face perversa dessa realidade. Por ano, entre legais e ilegais, 1,2 milhão de imigrantes entram na Europa. A novidade é o farto contingente de mão-de-obra barata e bem qualificada colocada à disposição depois da queda do Muro de Berlim, em 1989. Até agora, o fato não causou um êxodo em massa para os países ricos. Mas isso ainda pode ocorrer. A renda per capita da Alemanha é seis vezes maior que a da vizinha Polônia, cuja fronteira está a apenas 100 quilômetros de Berlim. Alguns países do Leste são candidatos a entrar na União Européia. Quando isso ocorrer, seus cidadãos poderão trabalhar livremente onde quiserem.

Nem todos os europeus vêem a chegada de tantos estrangeiros sob o ângulo mais favorável. O sentimento anti-imigrante está em alta no continente. É alimentado, em parte, por políticos populistas, como o austríaco Joerg Haider, cujo partido faz agora parte do governo em Viena. O número de agressões a estrangeiros cresce em lugares inesperados, como Espanha e Portugal. Há quem ainda esteja chocado com a horda de miseráveis que se aproveitaram da facilidade de obter asilo político na Europa Ocidental. O cidadão comum teme que o recém-chegado roube o emprego de seu filho ou sobrecarregue o sistema de saúde. Há outras formas de aferir o impacto social da imigração. George Borjas, economista da Universidade Harvard, calculou que a simples presença de imigrantes nos Estados Unidos representa um lucro de 8 bilhões de dólares por ano. Isso ocorre basicamente porque os estrangeiros tendem a aceitar salários menores, diminuindo o custo de produção. Com isso, os consumidores lucram com a oferta de produtos e serviços a preços mais baixos. "As pessoas reclamam dos imigrantes, mas se beneficiam com os serviços prestados por eles", diz o professor John Salt, do University College London.

 
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