Addio, compagno
O jornal italiano l'Unità
é um paciente terminal
Um dos orgulhos da esquerda institucional italiana está
prestes a morrer: o jornal l'Unità, fundado
em 1924 pelo filósofo marxista Antonio Gramsci e,
ao longo de mais de meio século, órgão
oficial do PCI, o extinto Partido Comunista daquele país.
Atolado em dívidas que somam 35 milhões de
dólares e com uma tiragem diária de menos
de 50.000 exemplares, o jornal
só continua a sair graças à insistência
dos 200 profissionais que nele trabalham. A editora que
o publicava foi liquidada na semana passada, numa operação
que serviu para aliviar o caixa combalido do Partido Democrático
de Esquerda, o ex-PCI, que detinha 25% das ações
da empresa. l'Unità começou a definhar
no início da década de 80, quando o diário
romano La Repubblica se afirmou no panorama da grande
imprensa italiana. Mais liberal do que o Corriere della
Sera, editado em Milão e consumido por um público
conservador, o concorrente roubou do l'Unità
um expressivo contingente de leitores sem filiação
partidária. Com a queda do Muro de Berlim e a posterior
metamorfose do PCI numa agremiação social-democrata,
sem órgão oficial, o jornal perdeu o lastro
dos que o assinavam por militância. Para quem está
acostumado à falta de massa cinzenta dos esquerdistas
brasileiros, é difícil imaginar que uma publicação
como l'Unità possa ter hospedado artigos inteligentes
e debates realmente interessantes sobre o contexto europeu
e mundial. Seu período áureo foi em meados
dos anos 70, quando o jornal tinha uma circulação
diária de 1 milhão de cópias. Naquela
época, os comunistas italianos buscavam a "terceira
via", um caminho diferente do seguido por stalinistas e
trotskistas. Tudo isso agora é História. Para
o bem ou para o mal, não importa, o capitalismo demonstrou
ser tese, antítese e síntese.