Edição 1 659 - 26/7/2000

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Quem fica com o quê

Israel e palestinos não se entendem
sobre o destino de Jerusalém

Cristiano Dias

Reuters

Barak, Clinton e Arafat: muita conversa, pouco acordo

Por que, afinal de contas, eles não chegam a um acordo? Desde 1993, quando o mundo se encantou com a visão de israelenses e palestinos dando as mãos e jurando fazer a paz, o que se vê é ranzinzice de parte a parte. Sob o patrocínio do governo dos Estados Unidos, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, e o líder da Organização para Libertação da Palestina, Yasser Arafat, reuniram-se em Camp David, a casa de campo da Presidência americana, para discutir como os dois povos podem dividir seu diminuto pedaço de terra e viver em paz. Na quinta-feira à noite, depois de nove dias de conversações infrutíferas, desistiram. Por pressão de Bill Clinton, Barak e Arafat voltaram atrás e aceitaram continuar tentando um pouco mais e seguiam conversando na sexta-feira à noite. Exceto para aqueles diretamente envolvidos nas paixões do Oriente Médio, é difícil entender por que cada um deles não faz as concessões necessárias para pôr fim a décadas de sofrimento. Eles estão em desacordo sobre vários aspectos, mas o ponto essencial da discórdia é o que fazer para acomodar judeus e palestinos dentro de Jerusalém, a cidade que cada um deles quer como capital de seu país.

Jerusalém tem hoje pouco mais de 600.000 habitantes (70% de judeus, 28% de árabes e 2% de cristãos). Seu valor simbólico para as três grandes religiões monoteístas é imenso. Para os judeus, é a cidade do rei Davi e onde o Templo foi construído para guardar a Arca da Aliança. Para os muçulmanos, é o lugar do qual o profeta Maomé ascendeu aos céus. Para os cristãos, foi o palco da paixão de Cristo e de seu sepultamento. A maior parte dos monumentos das três religiões concentra-se na Cidade Velha, o setor murado junto à antiga linha de armistício que dividiu a cidade entre Israel e a Jordânia entre 1948 e 1967. Os israelenses tomaram a parte oriental da cidade na Guerra dos Seis Dias e posteriormente a anexaram. Israel também estendeu por várias vezes as fronteiras municipais, tomando o cuidado de aumentar a quantidade de bairros judeus e diminuir a de muçulmanos. Por isso, o número de moradores israelenses e palestinos em Jerusalém Oriental, onde Arafat quer implantar a capital do Estado palestino, é hoje equivalente.

O problema não são os lugares santos. Barak, dizem fontes de Camp David, aceita a soberania palestina sobre os santuários e mesmo sobre os bairros cristãos e muçulmanos dentro da área murada. Também aceitaria a administração palestina – ainda que não abra mão da soberania – sobre os subúrbios árabes da cidade. A encrenca são as áreas palestinas em Jerusalém Oriental, das quais Israel não abre mão. Arafat não pode fazer concessões nesse item sem contrariar a reivindicação palestina sobre a cidade. Não apenas seria visto como uma traição por seu próprio povo como frustraria as expectativas em todo o mundo árabe. "Arafat deve compreender que não tem autorização para renunciar aos direitos palestinos sobre Jerusalém nem para comprometer o futuro dos refugiados", advertiu o xeque Ahmad Yassin, líder espiritual da milícia Hamas e arquiinimigo de Arafat nos territórios ocupados.

Para Barak e Arafat, ceder pode significar o fim da carreira política de ambos. Segundo pesquisa do Yedioth Ahronoth, maior jornal de Israel, 70% dos judeus não perdoariam Barak se a parte oriental de Jerusalém passasse para as mãos palestinas. Arafat, por sua vez, teme entrar para a História como um traidor de seu povo ao entregar de bandeja a cidade inteira aos israelenses. Voltar para casa com um acordo ruim, nesse caso, é pior que voltar sem acordo nenhum. Outros pontos que devem pavimentar o caminho para a criação do Estado palestino estão bem encaminhados. Ambos os lados concordam em estabelecer fronteiras com a permuta de territórios que permitam a permanência das colônias de judeus em áreas palestinas. Concordam também em resolver o problema dos 3 milhões de refugiados palestinos deslocados pela criação do Estado de Israel, mediante o pagamento de indenizações para parte deles e com o retorno de outra parte que ainda tenha familiares vivendo em território israelense. A questão está muito longe do fim, e a data para um conflito aberto já foi marcada: 13 de setembro, prazo final estabelecido pelos palestinos para o anúncio da criação de um Estado palestino, com ou sem a aprovação de Israel.

 
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