Quem fica com o quê
Israel e palestinos não
se entendem
sobre o destino de Jerusalém
Cristiano Dias
Reuters
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Barak, Clinton e Arafat:
muita conversa, pouco acordo
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Por que, afinal de contas, eles não chegam a um
acordo? Desde 1993, quando o mundo se encantou com a visão
de israelenses e palestinos dando as mãos e jurando
fazer a paz, o que se vê é ranzinzice de parte
a parte. Sob o patrocínio do governo dos Estados
Unidos, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak, e o líder
da Organização para Libertação
da Palestina, Yasser Arafat, reuniram-se em Camp David,
a casa de campo da Presidência americana, para discutir
como os dois povos podem dividir seu diminuto pedaço
de terra e viver em paz. Na quinta-feira à noite,
depois de nove dias de conversações infrutíferas,
desistiram. Por pressão de Bill Clinton, Barak e
Arafat voltaram atrás e aceitaram continuar tentando
um pouco mais e seguiam conversando na sexta-feira à
noite. Exceto para aqueles diretamente envolvidos nas paixões
do Oriente Médio, é difícil entender
por que cada um deles não faz as concessões
necessárias para pôr fim a décadas de
sofrimento. Eles estão em desacordo sobre vários
aspectos, mas o ponto essencial da discórdia é
o que fazer para acomodar judeus e palestinos dentro de
Jerusalém, a cidade que cada um deles quer como capital
de seu país.
Jerusalém tem hoje pouco mais de 600.000
habitantes (70% de judeus, 28% de árabes e 2% de
cristãos). Seu valor simbólico para as três
grandes religiões monoteístas é imenso.
Para os judeus, é a cidade do rei Davi e onde o Templo
foi construído para guardar a Arca da Aliança.
Para os muçulmanos, é o lugar do qual o profeta
Maomé ascendeu aos céus. Para os cristãos,
foi o palco da paixão de Cristo e de seu sepultamento.
A maior parte dos monumentos das três religiões
concentra-se na Cidade Velha, o setor murado junto à
antiga linha de armistício que dividiu a cidade entre
Israel e a Jordânia entre 1948 e 1967. Os israelenses
tomaram a parte oriental da cidade na Guerra dos Seis Dias
e posteriormente a anexaram. Israel também estendeu
por várias vezes as fronteiras municipais, tomando
o cuidado de aumentar a quantidade de bairros judeus e diminuir
a de muçulmanos. Por isso, o número de moradores
israelenses e palestinos em Jerusalém Oriental, onde
Arafat quer implantar a capital do Estado palestino, é
hoje equivalente.
O problema não são os lugares santos. Barak,
dizem fontes de Camp David, aceita a soberania palestina
sobre os santuários e mesmo sobre os bairros cristãos
e muçulmanos dentro da área murada. Também
aceitaria a administração palestina ainda
que não abra mão da soberania sobre os
subúrbios árabes da cidade. A encrenca são
as áreas palestinas em Jerusalém Oriental,
das quais Israel não abre mão. Arafat não
pode fazer concessões nesse item sem contrariar a
reivindicação palestina sobre a cidade. Não
apenas seria visto como uma traição por seu
próprio povo como frustraria as expectativas em todo
o mundo árabe. "Arafat deve compreender que não
tem autorização para renunciar aos direitos
palestinos sobre Jerusalém nem para comprometer o
futuro dos refugiados", advertiu o xeque Ahmad Yassin, líder
espiritual da milícia Hamas e arquiinimigo de Arafat
nos territórios ocupados.
Para Barak e Arafat, ceder pode significar o fim da carreira
política de ambos. Segundo pesquisa do Yedioth
Ahronoth, maior jornal de Israel, 70% dos judeus não
perdoariam Barak se a parte oriental de Jerusalém
passasse para as mãos palestinas. Arafat, por sua
vez, teme entrar para a História como um traidor
de seu povo ao entregar de bandeja a cidade inteira aos
israelenses. Voltar para casa com um acordo ruim, nesse
caso, é pior que voltar sem acordo nenhum. Outros
pontos que devem pavimentar o caminho para a criação
do Estado palestino estão bem encaminhados. Ambos
os lados concordam em estabelecer fronteiras com a permuta
de territórios que permitam a permanência das
colônias de judeus em áreas palestinas. Concordam
também em resolver o problema dos 3 milhões
de refugiados palestinos deslocados pela criação
do Estado de Israel, mediante o pagamento de indenizações
para parte deles e com o retorno de outra parte que ainda
tenha familiares vivendo em território israelense.
A questão está muito longe do fim, e a data
para um conflito aberto já foi marcada: 13 de setembro,
prazo final estabelecido pelos palestinos para o anúncio
da criação de um Estado palestino, com ou
sem a aprovação de Israel.
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