Edição 1 659 - 26/7/2000

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Por que tutelar o cinema?

Ilustração Pepe Casals


Vi um documentário sobre John Cassavetes. Ele era o diretor que melhor encarnava a imagem do cinema independente americano. O documentarista entrevistou parentes, amigos e colaboradores de Cassavetes. Em vez de ficar falando sobre estilo ou linguagem cinematográfica, os entrevistados preferiram falar exclusivamente sobre dinheiro. Porque os americanos sabem que cinema é isso: dinheiro. De um lado, há o cinema milionário dos grandes estúdios. Do outro, o cinema pobre dos independentes. Para financiar seus filmes, Cassavetes trabalhava como ator nos filmes dos grandes estúdios. Ou seja, ele investia dinheiro do próprio bolso. A desvantagem era que ele nunca tinha um tostão. A vantagem era que podia realizar os filmes que bem entendia, sem obedecer a ordens de ninguém. Cassavetes dizia que era melhor trabalhar no esgoto do que dirigir para os grandes estúdios.

Parece simples, mas não é. Cinema independente é coisa de americano. Só eles entendem desse negócio. O cinema europeu é todo financiado pelo poder público. Nenhum cineasta europeu corre o risco de perder o carro ou a casa porque seu filme é um fracasso. Os brasileiros, que costumam ser tão americanizados em tudo, escolheram o modelo de cinema europeu, claro. Com a diferença de que, se seus filmes fracassam, nossos cineastas não só não perdem suas casas como acabam por comprar uma cobertura de frente para a praia. No final de junho, os grandes nomes da cinematografia nacional reuniram-se em Porto Alegre para elaborar a Carta do Cinema Brasileiro. A carta contém dezenas de reivindicações. Na prática, pede-se que o governo entregue ainda mais dinheiro aos cineastas e crie leis que obriguem os espectadores a assistir a seus filmes. Vinte chibatadas em quem se recusar a ver pelo menos um filme nacional por semana.

Contrariamente a John Cassavetes, nossos cineastas não exigem mais independência, mas mais tutela. Pior: tutela governamental. Eles querem que os burocratas do Ministério da Cultura ou da Riofilme tomem conta deles. Para grande felicidade dos burocratas, é evidente. Li uma entrevista com o diretor da Riofilme, José Carlos Avellar. Ele reclama que os filmes com tecnologia digital ainda não inventaram nenhuma novidade do ponto de vista estético. É compreensível que Avellar desconfie do cinema digital. O digital custa mais barato e, custando mais barato, diminui o poder dos burocratas. Os cineastas, por sua vez, também não querem independência, e continuam a discutir sobre questões obsoletas como reserva de mercado em salas cinematográficas. Salas cinematográficas, se tudo correr bem, tendem a desaparecer. O cinema vai chegar em casa pela internet, sem gastos com distribuição e, sobretudo, sem depender dos critérios de escolha dos exibidores. Os nostálgicos do cinema costumam afirmar que TV não é lugar para ver filmes, que nada pode substituir uma salinha escura. Se você gosta de salinhas escuras, apague a luz do abajur. Bem melhor do que ter de enfrentar um velho cinema, com aquele cheiro de carpete mofado e uma cabeçona na poltrona da frente. E bem melhor do que ter alguém decidindo a que filme você vai assistir.