Ninguém está livre
Especialista em stress diz que não se pode
escapar da tensão, mas há métodos
para
aliviar os efeitos desse mal
Eduardo Nunomura
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"Todas as mudanças em nossa
vida são estressantes. Até sair de férias,
com os aviões lotados e os hotéis tão
caros, pode deixar uma pessoa esgotada"
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O psiquiatra americano Richard Rahe começou a estudar
o fenômeno do stress em condições muito
especiais: médico da Marinha dos Estados Unidos durante
vinte anos, ele esteve na Guerra do Vietnã e viu
de perto a devastação emocional causada pela
tensão no campo de batalha. Aos 57 anos, ele ensina
no departamento de psiquiatria e é diretor do centro
de stress da Faculdade de Medicina da Universidade de Nevada.
É também o autor do primeiro autoteste para
quantificar o nível de stress, criado em 1967 em
parceria com o colega Thomas Holmes. Nas pesquisas que realiza
sistematicamente para atualizar o questionário do
teste, o psiquiatra notou que o impacto dos estímulos
que causam tensão na vida das pessoas agravou-se
50% desde os anos 60. Suas previsões para o futuro
são estressantes: "A vida está ficando cada
vez mais dura e nossas crianças terão dias
muito difíceis pela frente", diz. "Para complicar,
as formas de superar o stress estão se tornando menos
eficientes." Rahe acaba de abrir no Brasil uma filial da
International Stress Management Association (associação
internacional para o controle do stress), entidade de pesquisa
e tratamento do distúrbio da qual é presidente.
Criada em 1973, ela está presente em outros doze
países. Rahe concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Atualmente todos os médicos são
unânimes em recomendar: não fume, beba moderadamente,
pratique exercícios físicos, tenha uma dieta
balanceada e evite o stress. É possível evitar
o stress?
Rahe Em geral, não. Só o fato de viver
em uma cidade significa ter de conviver com pressões:
o trânsito, a competitividade no trabalho, o sustento
da família... O trânsito está cada vez
mais caótico, a competição no trabalho
mais acirrada, tudo isso produz tensões. Dizer simplesmente
"evite o stress" não é, de forma alguma, o
melhor conselho.
Veja O que fazer então?
Rahe O ideal é se preparar para enfrentar
o stress. E é possível fazer isso de várias
formas. Uma das mais eficientes é manter o corpo
em bom estado físico. Quem pratica exercícios
tende a baixar o nível de stress. Ou seja, diminuem
os riscos de essa pessoa sucumbir às tensões.
Com a prática regular de atividades físicas,
é possível controlar a pressão sanguínea,
manter o coração funcionando em ritmo adequado.
Enfim, deixar o organismo bem preparado para enfrentar situações
estressantes.
Veja Só a ginástica basta?
Rahe Não. É apenas uma das soluções.
Ter um bom preparo psicológico para enfrentar o stress
também é vital. As pessoas precisam aprender
a criar meios para lidar com as situações
de tensão. Por exemplo, no trânsito do dia-a-dia,
podemos pensar em soluções bastante simples,
como sair de casa cinco minutos mais cedo ou respirar fundo
antes de xingar e ficar zangado porque alguém "cortou"
o carro na sua frente. É preciso adotar uma postura
mais eqüidistante dos fatos. Um bom preparo psicológico
significa buscar novas posturas em relação
aos problemas. Isso pode ser feito por conta própria,
acreditando que é possível mudar seu comportamento.
Ou em sessões de terapias, com a ajuda de psicólogos.
Dessa forma, ficamos mais bem preparados para a vida dos
dias atuais.
Veja Alguns estudos mostram que as pessoas que seguem
alguma religião se recuperam melhor de determinadas
doenças. O mesmo vale para o stress?
Rahe Sim. Uma das muitas formas de lidar bem com
o stress é a fé muito importante, por sinal.
As pessoas que têm alguma religião, como os
budistas, conseguem enfrentar melhor as pressões
do dia-a-dia. Em geral, são pessoas que, além
da vida espiritual, desenvolvem trabalhos comunitários,
atividades muito positivas para encarar o problema.
Veja Como o senhor mesmo disse, para muita gente
o trabalho é um fator grande de stress. Tirar férias,
portanto, seria um santo remédio. Mas na última
versão do teste para avaliação do nível
de tensão o senhor incluiu as férias como
um fator de stress. Por quê?
Rahe Todas as mudanças em nossa vida podem
ser estressantes. Até as positivas e sair de férias
é um dos melhores exemplos disso. Há trinta
anos, essa era uma tarefa tão fácil de ser
feita que, realmente, representava um período de
descanso. Em nosso teste comparativo o simples fato de tirar
férias, hoje em dia, significa ter o dobro de trabalho.
Os aviões estão mais lotados. É difícil
conseguir um bom lugar. Os vôos muitas vezes são
cancelados, saem com atraso ou temos de ficar na lista de
espera. Se vamos para uma cidade grande, corremos o risco
de enfrentar congestionamentos. Os hotéis estão
mais caros e lotados. No retorno das férias, ao invés
de estar descansado, você está completamente
esgotado psicologicamente.
Veja Seria melhor ficar em casa?
Rahe Mais uma vez a idéia é planejar
tudo antes, cuidadosamente. Por que não viajar nos
meses em que ninguém tira férias? Escolha
bons lugares, mas vá em épocas de baixa temporada.
Se tiver direito aos programas de milhagem, aproveite para
mudar sua passagem da classe econômica para a executiva.
O conforto dentro do avião fará uma grande
diferença.
Veja Quais foram as outras mudanças incorporadas
ao teste?
Rahe Incluímos uma quantidade maior de eventos
porque queríamos mais especificidade para o teste.
Antes, por exemplo, perguntávamos apenas sobre a
possibilidade de morte de um parente. Agora, temos perguntas
sobre a mãe, o pai, os irmãos e os filhos.
São seis perguntas em lugar de uma só. Descobrimos
que a morte de uma criança é mais significativa,
ou seja, é mais traumática que a morte de
um adulto. Com a inclusão de novos eventos conseguimos
ter uma noção melhor das mudanças que
ocorrem na vida das pessoas. Antes, perguntávamos
se tinha ocorrido alguma grande transformação
nas finanças da pessoa. Hoje, queremos saber se ela
tem mais dinheiro, se a poupança cresceu ou se enfrentou
uma falência.
Veja A que conclusão o senhor chegou depois
de todas essas adaptações?
Rahe Os resultados ressaltaram as mudanças
provocadas pela vida moderna. Constatamos que o nível
de stress das pessoas hoje está 50% mais alto que
há trinta anos, devido às mudanças
na sociedade. Nos dias atuais, casar é 50% mais complicado.
Divorciar-se, 40%. Enviuvar, 20%, e assim por diante.
Veja Por quê?
Rahe Isso tem a ver, em parte, com uma sociedade
mais complexa do que no passado e muito maior numericamente.
As cidades estão mais cheias, os espaços físicos
diminuem. Isso provoca uma série de pequenas complicações
que dificultam a vida. Um exemplo: há trinta anos,
uma multa de trânsito nos Estados Unidos custava de
5 a 10 dólares. Hoje, a mesma multa custa 200 dólares.
Em alguns lugares, se o motorista cometer muitas infrações,
perde a carteira de habilitação. Enfim, vivemos
sob intensa pressão. O nível de stress cresce
cerca de 1,5% por ano. Aumenta dessa forma também
o número de pessoas estressadas.
Veja Hoje em dia, a palavra stress é usada
livremente, como algo corriqueiro. No Brasil, virou até
gíria. É assim no mundo todo?
Rahe É, sim. As pessoas utilizam a palavra
para dizer que estão perturbadas, frustradas, impacientes.
Muitas vezes, resumem seus problemas como se tudo fosse
stress. Não é bem assim. A palavra é
usada tão livremente que perdeu sua especificidade.
Veja O que define o stress?
Rahe O stress só existe como um fator fisiológico
ou psicológico para quem se torna incapaz de lidar
com os problemas que naturalmente aparecem em sua vida.
Esse é o ponto crucial. O momento exato para prestar
atenção naquilo que está causando o
mal. Se, por outro lado, é possível superar
as tensões do cotidiano sem que elas se transformem
numa sobrecarga, então não se trata de stress.
Aquela situação determinada pode estar causando
irritação, tristeza ou incômodo. Talvez
tenha sido apenas um dia ruim. É normal, acontece
com todo mundo. Freqüentemente as pessoas fazem o teste
de avaliação de stress e o resultado indica
que têm grandes chances de ficar estressadas, mas
elas não se sentem pressionadas. As estatísticas,
porém, mostram que dois terços delas acabam
perdendo a batalha e ficam realmente estressadas. O restante
conseguirá conviver bem com a pressão. É
o mesmo que ocorre com os fumantes. Nem todos serão
vítimas de câncer de pulmão.
Veja O stress é uma doença?
Rahe Não, mas pode levar uma pessoa a ficar
doente. Um exemplo é o infarto, uma das principais
causas de morte do planeta. O stress muitas vezes desencadeia
uma série de fatores fisiológicos que acabam
provocando o aumento da pressão arterial, dos níveis
de colesterol no sangue e da arritmia cardíaca. É
mais difícil uma pessoa ter um problema no coração
se ela não tiver uma vida estressada o que não
significa, de forma alguma, que não se deva controlar
o peso ou abandonar o cigarro. O que se sabe é que
o stress e o jeito de lidar com ele podem aumentar consideravelmente
os riscos de alguém vir a sofrer um ataque do coração.
A maneira como a pessoa convive com as situações
estressantes também é um fator importante
na determinação de como ela se recuperará
do infarto. E isso vale para outras doenças. O stress
torna as pessoas presas fáceis para as doenças
e também prejudica sua recuperação.
Veja Por que certas pessoas lidam melhor com o stress
que outras?
Rahe Algumas pessoas realmente são mais competentes
para enfrentar situações de tensão.
A maior ou menor habilidade depende muito da forma como
se foi educado e do que se herdou dos pais. O médico
pode ajudar um paciente a aprender a lidar melhor com a
pressão, mas os resultados mais positivos são
encontrados entre aqueles que tiveram uma infância
saudável e tranqüila. A resposta ao stress é
feita de duas formas: física e psicológica.
Algumas pessoas ficam com dor de estômago e até
úlcera. Outras sentem apenas dor de cabeça.
Do ponto de vista psicológico, algumas se tornam
excessivamente ansiosas ou caem em depressão. Outras
podem sofrer quadros de paranóia. Isso só
ocorre, evidentemente, com quem já tinha tendência
para a paranóia. O stress facilita o aparecimento
de comportamentos latentes.
Veja Se a influência dos pais é tão
grande, como eles podem preparar os filhos para enfrentar
melhor situações de stress?
Rahe Eles devem assegurar que a criança tenha
uma vida com desafios e, sobretudo, que consiga superá-los.
Isso não significa tentar transformá-la em
um atleta olímpico se ela não tiver talento
para o esporte. Basta incentivá-la a participar de
atividades na comunidade. A sensação de conquista
já será o suficiente. O mesmo deve ser feito
na escola. Não é inteligente tentar empurrá-la
para um nível de ensino acima de sua capacidade ou
tentar transformá-la num superdotado. A cada pequeno
desafio superado, outros maiores poderão ser enfrentados.
Meu conselho aos pais é o seguinte: deixe seu filho
crescer naturalmente, sem pressioná-lo.
Veja Isso garante que a criança sofrerá
menos quando for adulta do que seus pais sofrem hoje?
Rahe Não. A vida está ficando cada
vez mais dura e nossas crianças terão dias
muito difíceis pela frente. Nossos estudos mostram
que as formas de superar o stress estão se tornando
menos eficientes. Eu realmente não sei onde vamos
parar. Quanto mais os problemas e as tensões se agravam,
mais é necessário manter-se bem física
e psicologicamente. É uma questão de sobrevivência.
Veja É comum ouvir que certa dose de stress
é essencial à vida. Isso é verdade?
Rahe Não há consenso sobre essa questão.
Suponha que alguém viva numa praia paradisíaca,
não enfrente problemas comuns à maioria da
população, não se envolva com política
nem tenha dificuldades para sobreviver. Duvido que essa
pessoa concorde que leve uma vida livre de stress. O mesmo
ocorre às vésperas da aposentadoria. Só
a idéia de que não se vai fazer nada já
provoca stress. Toda mudança de vida provoca stress.
Veja Os pobres são mais estressados que os
ricos?
Rahe Não necessariamente. Ter dinheiro não
significa mais ou menos tensão. Quem tem dinheiro,
em geral, inflaciona os próprios problemas e necessidades.
O resultado é mais pressão e maiores desafios.
Pessoas que enriquecem muito rapidamente, como aquelas que
ganham na loteria, sempre passam por períodos de
crise nos primeiros anos. São muitas mudanças
em pouco tempo. Ninguém está totalmente livre
de enfrentar situações de stress.
Veja O senhor passa por situações
de stress?
Rahe Eu tento colocar em prática o que
prego. Pratico esportes e desenvolvo trabalhos voluntários
na comunidade. Dessa forma, consigo manter minha resistência
em níveis mais elevados que as pressões que
surgem diariamente. Tento permanecer distante dos problemas.
Mas, mesmo assim, na minha vida surgem mudanças que
me jogam em situações de stress. Ninguém
está a salvo.
Saiba
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