Edição 1 659 - 26/7/2000

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Ninguém está livre

Especialista em stress diz que não se pode
escapar da tensão, mas há
métodos para
aliviar os efeitos desse mal

Eduardo Nunomura

 

"Todas as mudanças em nossa vida são estressantes. Até sair de férias, com os aviões lotados e os hotéis tão caros, pode deixar uma pessoa esgotada"

O psiquiatra americano Richard Rahe começou a estudar o fenômeno do stress em condições muito especiais: médico da Marinha dos Estados Unidos durante vinte anos, ele esteve na Guerra do Vietnã e viu de perto a devastação emocional causada pela tensão no campo de batalha. Aos 57 anos, ele ensina no departamento de psiquiatria e é diretor do centro de stress da Faculdade de Medicina da Universidade de Nevada. É também o autor do primeiro autoteste para quantificar o nível de stress, criado em 1967 em parceria com o colega Thomas Holmes. Nas pesquisas que realiza sistematicamente para atualizar o questionário do teste, o psiquiatra notou que o impacto dos estímulos que causam tensão na vida das pessoas agravou-se 50% desde os anos 60. Suas previsões para o futuro são estressantes: "A vida está ficando cada vez mais dura e nossas crianças terão dias muito difíceis pela frente", diz. "Para complicar, as formas de superar o stress estão se tornando menos eficientes." Rahe acaba de abrir no Brasil uma filial da International Stress Management Association (associação internacional para o controle do stress), entidade de pesquisa e tratamento do distúrbio da qual é presidente. Criada em 1973, ela está presente em outros doze países. Rahe concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Atualmente todos os médicos são unânimes em recomendar: não fume, beba moderadamente, pratique exercícios físicos, tenha uma dieta balanceada e evite o stress. É possível evitar o stress?
Rahe –
Em geral, não. Só o fato de viver em uma cidade significa ter de conviver com pressões: o trânsito, a competitividade no trabalho, o sustento da família... O trânsito está cada vez mais caótico, a competição no trabalho mais acirrada, tudo isso produz tensões. Dizer simplesmente "evite o stress" não é, de forma alguma, o melhor conselho.

Veja – O que fazer então?
Rahe –
O ideal é se preparar para enfrentar o stress. E é possível fazer isso de várias formas. Uma das mais eficientes é manter o corpo em bom estado físico. Quem pratica exercícios tende a baixar o nível de stress. Ou seja, diminuem os riscos de essa pessoa sucumbir às tensões. Com a prática regular de atividades físicas, é possível controlar a pressão sanguínea, manter o coração funcionando em ritmo adequado. Enfim, deixar o organismo bem preparado para enfrentar situações estressantes.

Veja – Só a ginástica basta?
Rahe –
Não. É apenas uma das soluções. Ter um bom preparo psicológico para enfrentar o stress também é vital. As pessoas precisam aprender a criar meios para lidar com as situações de tensão. Por exemplo, no trânsito do dia-a-dia, podemos pensar em soluções bastante simples, como sair de casa cinco minutos mais cedo ou respirar fundo antes de xingar e ficar zangado porque alguém "cortou" o carro na sua frente. É preciso adotar uma postura mais eqüidistante dos fatos. Um bom preparo psicológico significa buscar novas posturas em relação aos problemas. Isso pode ser feito por conta própria, acreditando que é possível mudar seu comportamento. Ou em sessões de terapias, com a ajuda de psicólogos. Dessa forma, ficamos mais bem preparados para a vida dos dias atuais.

Veja – Alguns estudos mostram que as pessoas que seguem alguma religião se recuperam melhor de determinadas doenças. O mesmo vale para o stress?
Rahe –
Sim. Uma das muitas formas de lidar bem com o stress é a fé – muito importante, por sinal. As pessoas que têm alguma religião, como os budistas, conseguem enfrentar melhor as pressões do dia-a-dia. Em geral, são pessoas que, além da vida espiritual, desenvolvem trabalhos comunitários, atividades muito positivas para encarar o problema.

Veja – Como o senhor mesmo disse, para muita gente o trabalho é um fator grande de stress. Tirar férias, portanto, seria um santo remédio. Mas na última versão do teste para avaliação do nível de tensão o senhor incluiu as férias como um fator de stress. Por quê?
Rahe –
Todas as mudanças em nossa vida podem ser estressantes. Até as positivas – e sair de férias é um dos melhores exemplos disso. Há trinta anos, essa era uma tarefa tão fácil de ser feita que, realmente, representava um período de descanso. Em nosso teste comparativo o simples fato de tirar férias, hoje em dia, significa ter o dobro de trabalho. Os aviões estão mais lotados. É difícil conseguir um bom lugar. Os vôos muitas vezes são cancelados, saem com atraso ou temos de ficar na lista de espera. Se vamos para uma cidade grande, corremos o risco de enfrentar congestionamentos. Os hotéis estão mais caros e lotados. No retorno das férias, ao invés de estar descansado, você está completamente esgotado psicologicamente.

Veja – Seria melhor ficar em casa?
Rahe –
Mais uma vez a idéia é planejar tudo antes, cuidadosamente. Por que não viajar nos meses em que ninguém tira férias? Escolha bons lugares, mas vá em épocas de baixa temporada. Se tiver direito aos programas de milhagem, aproveite para mudar sua passagem da classe econômica para a executiva. O conforto dentro do avião fará uma grande diferença.

Veja – Quais foram as outras mudanças incorporadas ao teste?
Rahe –
Incluímos uma quantidade maior de eventos porque queríamos mais especificidade para o teste. Antes, por exemplo, perguntávamos apenas sobre a possibilidade de morte de um parente. Agora, temos perguntas sobre a mãe, o pai, os irmãos e os filhos. São seis perguntas em lugar de uma só. Descobrimos que a morte de uma criança é mais significativa, ou seja, é mais traumática que a morte de um adulto. Com a inclusão de novos eventos conseguimos ter uma noção melhor das mudanças que ocorrem na vida das pessoas. Antes, perguntávamos se tinha ocorrido alguma grande transformação nas finanças da pessoa. Hoje, queremos saber se ela tem mais dinheiro, se a poupança cresceu ou se enfrentou uma falência.

Veja – A que conclusão o senhor chegou depois de todas essas adaptações?
Rahe –
Os resultados ressaltaram as mudanças provocadas pela vida moderna. Constatamos que o nível de stress das pessoas hoje está 50% mais alto que há trinta anos, devido às mudanças na sociedade. Nos dias atuais, casar é 50% mais complicado. Divorciar-se, 40%. Enviuvar, 20%, e assim por diante.

Veja – Por quê?
Rahe –
Isso tem a ver, em parte, com uma sociedade mais complexa do que no passado e muito maior numericamente. As cidades estão mais cheias, os espaços físicos diminuem. Isso provoca uma série de pequenas complicações que dificultam a vida. Um exemplo: há trinta anos, uma multa de trânsito nos Estados Unidos custava de 5 a 10 dólares. Hoje, a mesma multa custa 200 dólares. Em alguns lugares, se o motorista cometer muitas infrações, perde a carteira de habilitação. Enfim, vivemos sob intensa pressão. O nível de stress cresce cerca de 1,5% por ano. Aumenta dessa forma também o número de pessoas estressadas.

Veja – Hoje em dia, a palavra stress é usada livremente, como algo corriqueiro. No Brasil, virou até gíria. É assim no mundo todo?
Rahe –
É, sim. As pessoas utilizam a palavra para dizer que estão perturbadas, frustradas, impacientes. Muitas vezes, resumem seus problemas como se tudo fosse stress. Não é bem assim. A palavra é usada tão livremente que perdeu sua especificidade.

Veja – O que define o stress?
Rahe –
O stress só existe como um fator fisiológico ou psicológico para quem se torna incapaz de lidar com os problemas que naturalmente aparecem em sua vida. Esse é o ponto crucial. O momento exato para prestar atenção naquilo que está causando o mal. Se, por outro lado, é possível superar as tensões do cotidiano sem que elas se transformem numa sobrecarga, então não se trata de stress. Aquela situação determinada pode estar causando irritação, tristeza ou incômodo. Talvez tenha sido apenas um dia ruim. É normal, acontece com todo mundo. Freqüentemente as pessoas fazem o teste de avaliação de stress e o resultado indica que têm grandes chances de ficar estressadas, mas elas não se sentem pressionadas. As estatísticas, porém, mostram que dois terços delas acabam perdendo a batalha e ficam realmente estressadas. O restante conseguirá conviver bem com a pressão. É o mesmo que ocorre com os fumantes. Nem todos serão vítimas de câncer de pulmão.

Veja – O stress é uma doença?
Rahe –
Não, mas pode levar uma pessoa a ficar doente. Um exemplo é o infarto, uma das principais causas de morte do planeta. O stress muitas vezes desencadeia uma série de fatores fisiológicos que acabam provocando o aumento da pressão arterial, dos níveis de colesterol no sangue e da arritmia cardíaca. É mais difícil uma pessoa ter um problema no coração se ela não tiver uma vida estressada – o que não significa, de forma alguma, que não se deva controlar o peso ou abandonar o cigarro. O que se sabe é que o stress e o jeito de lidar com ele podem aumentar consideravelmente os riscos de alguém vir a sofrer um ataque do coração. A maneira como a pessoa convive com as situações estressantes também é um fator importante na determinação de como ela se recuperará do infarto. E isso vale para outras doenças. O stress torna as pessoas presas fáceis para as doenças e também prejudica sua recuperação.

Veja – Por que certas pessoas lidam melhor com o stress que outras?
Rahe –
Algumas pessoas realmente são mais competentes para enfrentar situações de tensão. A maior ou menor habilidade depende muito da forma como se foi educado e do que se herdou dos pais. O médico pode ajudar um paciente a aprender a lidar melhor com a pressão, mas os resultados mais positivos são encontrados entre aqueles que tiveram uma infância saudável e tranqüila. A resposta ao stress é feita de duas formas: física e psicológica. Algumas pessoas ficam com dor de estômago e até úlcera. Outras sentem apenas dor de cabeça. Do ponto de vista psicológico, algumas se tornam excessivamente ansiosas ou caem em depressão. Outras podem sofrer quadros de paranóia. Isso só ocorre, evidentemente, com quem já tinha tendência para a paranóia. O stress facilita o aparecimento de comportamentos latentes.

Veja – Se a influência dos pais é tão grande, como eles podem preparar os filhos para enfrentar melhor situações de stress?
Rahe –
Eles devem assegurar que a criança tenha uma vida com desafios e, sobretudo, que consiga superá-los. Isso não significa tentar transformá-la em um atleta olímpico se ela não tiver talento para o esporte. Basta incentivá-la a participar de atividades na comunidade. A sensação de conquista já será o suficiente. O mesmo deve ser feito na escola. Não é inteligente tentar empurrá-la para um nível de ensino acima de sua capacidade ou tentar transformá-la num superdotado. A cada pequeno desafio superado, outros maiores poderão ser enfrentados. Meu conselho aos pais é o seguinte: deixe seu filho crescer naturalmente, sem pressioná-lo.

Veja – Isso garante que a criança sofrerá menos quando for adulta do que seus pais sofrem hoje?
Rahe –
Não. A vida está ficando cada vez mais dura e nossas crianças terão dias muito difíceis pela frente. Nossos estudos mostram que as formas de superar o stress estão se tornando menos eficientes. Eu realmente não sei onde vamos parar. Quanto mais os problemas e as tensões se agravam, mais é necessário manter-se bem física e psicologicamente. É uma questão de sobrevivência.

Veja – É comum ouvir que certa dose de stress é essencial à vida. Isso é verdade?
Rahe –
Não há consenso sobre essa questão. Suponha que alguém viva numa praia paradisíaca, não enfrente problemas comuns à maioria da população, não se envolva com política nem tenha dificuldades para sobreviver. Duvido que essa pessoa concorde que leve uma vida livre de stress. O mesmo ocorre às vésperas da aposentadoria. Só a idéia de que não se vai fazer nada já provoca stress. Toda mudança de vida provoca stress.

Veja – Os pobres são mais estressados que os ricos?
Rahe –
Não necessariamente. Ter dinheiro não significa mais ou menos tensão. Quem tem dinheiro, em geral, inflaciona os próprios problemas e necessidades. O resultado é mais pressão e maiores desafios. Pessoas que enriquecem muito rapidamente, como aquelas que ganham na loteria, sempre passam por períodos de crise nos primeiros anos. São muitas mudanças em pouco tempo. Ninguém está totalmente livre de enfrentar situações de stress.

Veja – O senhor passa por situações de stress?
Rahe –
Eu tento colocar em prática o que prego. Pratico esportes e desenvolvo trabalhos voluntários na comunidade. Dessa forma, consigo manter minha resistência em níveis mais elevados que as pressões que surgem diariamente. Tento permanecer distante dos problemas. Mas, mesmo assim, na minha vida surgem mudanças que me jogam em situações de stress. Ninguém está a salvo.

 
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